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Roupa Suja

Preciso de pó! Não, esse não, o de café. Apenas duas colheradas pra fazer o melhor cappuccino que alguém já provou. Juro que é verdade, está na embalagem. Assim como os bizarros frutos do guaraná são inofensivos e a camisinha é noventa e nove vírgula nove por cento segura. Se eles usaram? Duvido. Aposto que era parte do perigo, do tesão, da aventura, do... ah... sei lá. Quem se importa se cada roçada fazia barulho de bexiga infantil raspando nos dentes? Não, você está enganado, eu me importava, não me importo mais. Você devia respeitar os mais velhos. Aliás, muda alguma coisa ou é só curiosidade pra passar o tempo? Tá bom, tá bom... merda! Calma, não é com você, é essa água suja sem gosto que estou bebendo. Não posso comprar açúcar, esqueceu? Aliás, nem sair desse hotel pra fumar um cigarro eu posso. Pode tirar sarro, mas você não tá nessa tranqüilidade toda, não. Você acha que é o último a ser questionado, mas do jeito que o mundo tá doido são capazes de começar por você. Ainda bem que eu percebi que você era burro demais pra isso e não te levei junto. Ah, tá bom, você se sairia melhor do que eu? Nem cicatrizar essas bochechas espinhentas você consegue. Grandes merda que você é corajoso! Esse negócio era muito mais cabreiro. Precisava de raiva, olho estourado, dedo mole, dentadura gasta, prazer. Lance profissional. Sabe aquele papo de efeito surpresa? Então, é mais ou menos assim, respirou na hora errada acaba com o esquema. E vai saber a sua reação na hora? Esse lance de vínculo não dá pra explicar, simplesmente acontece e fode tudo. Ah, tá, você fala isso agora que tá tudo feito. Vai dizer que não pensou em tirar essa loucura da cabeça e ir viajar pro Guarujá com as gostosinhas da rua? Sério? Tá namorando? Pagou quanto? Brincadeira, pivete, é que você só faz burrada e nunca foi o garanhão da mulherada. O que? Eu não sei o que estou dizendo? E aquele cabelinho suado toda vez que saía do banheiro. Todos os seus amigos na balada, fumando um, alisando as menininhas e você em casa, alisando o meninão. E essa guria? Sabe do esquema? Porra! Mas você é burro demais! E ela deve ter algum retardamento pra continuar com você. Como assim, ela te ama? Você bebeu gasolina? Tá bom, tá bom, então me responde o seguinte... calma, porra, apenas me responde... ela sabe do dinheiro? Puta merda, você é um ganso mesmo. Escuta aqui, eu só aceitei porque era meio a meio. Você se vira pra repartir a sua parte com essa putinha. Quê? Foda-se que ela tem nome, pra mim é uma sem-vergonha sem rosto, sinto o cheiro de longe. Mas você não, sempre dando uma de babaca. Que pergunta é essa? Você sabe que eu dependo de você pra receber a minha parte, não precisa dar risadinha de malandro. Aliás, nem tenta dar uma de esperto porque eu conheço você muito bem. Tá bom, relaxa, o pior já passou, tá feito. Você tá onde eu te falei pra ficar? Beleza, não esquece de guardar o comprovante do estacionamento com o horário de entrada e saída. Porra, cacete, comprovante, recibo, nota fiscal, segunda via, boleto, qualquer coisa! Se eu sempre fui mal educado assim? Você me conhece muito bem, é só parar de fazer pergunta idiota e eu fico na minha. Não, não foi por isso que eu saí de casa. Bom, depois você faz aquela ligação do seu celular e deixa o recado que a gente combinou na secretária. Não, gênio, não tem perigo de ninguém atender o telefone. O resto você já sabe, é só aparecer lá e ligar pra polícia. Quê? Mas pra que você quer levar essa infeliz junto? Tá, tá, menino apaixonado, qualquer coisa fala que vocês passaram a noite juntos. Não se preocupa, o resto deixa que a polícia conclui sozinha. Ninguém vai ter saco pra investigar a fundo a putaria dos outros. Ela, a gente conhece bem. Ele, você mesmo disse que tinha uma lista de inimigos. Mel com açúcar. Ligar amanhã? Nem adianta. Vou ficar dois meses em algumas cidades do nordeste pra não dar na cara. Fica tranqüilo que eu encontro você. Beleza, então, eu telefono quando perceber que as coisas esfriaram. Abraço e se cuida, hein! Quê? Mas pra que você quer saber como foi? Que besteira é essa agora? Estavam do jeito que você avisou, pelados no sofá da sala, um em cima do outro. Só precisei entrar e mandar duas balas na cabeça de cada um. Se ela sofreu? Nadinha, morreu do mesmo jeito que viveu. Sem dar um gemido sequer.

Bem típico da mamãe.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 05/10/2007
Reeditado em 05/10/2007
Código do texto: T682023

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 38 anos
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Felipe Valério