Dona Nena Doceira...

Dona Nena vivia numa moradia muito modesta, na rua da feira, prole numerosa, casa cheia...

Era tudo tão simples, e tão limpo! As panelas reluziam na bateria, em cima da pia.

O chão de cimento queimado vermelho, brilhava... Os potes de àgua eram guarnecidos de panos imaculadamente alvos.

O fogão à lenha sempre fumegando com os tachos de doces... Leite, mamão verde com coco, coco queimado, jaca... Eram os que saíam mais, ela dizia, sendo o de leite e o de goiaba campeões.

Seu Bertoldo trabalhava numa espécie de sítio que havia por tràs da casa. Criava vaca, porco, bode, cabra, carneiro. Plantava milho, feijão, batata... Os filhos homens o ajudavam.

As "fême" ajudavam dona Nena na lida da casa, dos doces e das criações de galinha, Guiné, pato e perú.

Nunca faltavam ovos, leite, batata, feijão.

Ah, ainda tinha o cacimbão, com àgua doce e boa, pra beber e cozinhar, sem falar na cisterna grande do terreiro.

Dona Nena puxava de uma perna, mas nunca parava e suas vendas ajudavam, e muito, na despesa de casa.

Roupas? Ela mesma costurava para si e todos de casa. Não sei como conseguia pedalar aquela velha máquina de costura por tanto tempo.

Nunca se viu dona Nena nas portas conversando ou metida em disse me disse.

Não tinha tempo, porque seus afazeres eram múltiplos e constantes, infindáveis.

Ela e Seu Bertoldo criaram os filhos trabalhando. Goretinha, logo nova, formou-se no curso de magistério e começou a dar aulas no grupo. José se tornou barbeiro, Francisco botou uma banca na feira, pra vender cereais, casou-se com a menina Ritinha e dizem que hoje jà têm um armazém. Lourdes vendia leite, Antônio pegava frete,

Gracinha aprendeu o ofício de costureira com a mãe, e virou modista afamada, vinha gente até de Orvalhos pra fazer roupas com ela.

Um dia, os filhos se juntaram e deram uma geladeira à dona Nena, depois uma Televisão. E também deram um rádio bom a Seu Bertoldo, pra ele escutar a Hora do anjo, " A voz do Brasil", o repórter Esso e os jogos de futebol, com a escrete de ouro.

Sempre foram muito felizes, nunca tiveram luxo, mas tinham união e muito amor, eram pessoas de respeito, de "família", como se dizia naquele tempo...

Soube que agora, là tem uma rua no conjunto novo chamada " Dona Nena Doceira", achei muito decente, como decente era ela e sua família.

Saudade de entrar naquela casa e sentir o cheiro de doce pelo ar, misturado ao cheiro da lenha em brasa.

Ah, e o papagaio ficava numa janela, dando conta de quem ia e de quem vinha.

Dona Nena tinha os cabelos bem grisalhos e amarrados num coque, óculos de grau grandes e sempre me dizia:

- Meu filho, coma um docinho, ainda tà morno...

Sempre dei valor a este universo, o meu universo.

Thomas Saldanha, Natal 17/01/2020.

Thomas Saldanha
Enviado por Thomas Saldanha em 17/01/2020
Código do texto: T6843717
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