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O LEGADO

Ana Cristina Feijó – março/2020.

Ela olhava os passos dele, intrigada, eram, cada movimento, como bombas. Falou-se em pautas semelhantes, e ele as lançava uma a uma como um cordeiro que, ao se imolar, abre os braços e grita, eu não vou só! Aos poucos, foi se detendo melhor no que surgia e não conseguia captar, não fosse isso que lhe vinha à mente, ser estes seus últimos dias.
Trazei a mim estas almas dizia e se demonstrava tão destituído de artefatos. Sentado no quintal, ligava-se ao mundo, mas era o mais comum dos mortais. Manteiga e pão, o alimento divino que deveria chegar à mesa de todos, ou de todos àqueles que o seguissem. Nessa jornada levaria seu povo por entre as paredes para o recôndito coração de Maria. Empunharia punhais para quem o seguisse e abriria o caminho para que fôssemos, enfim, tão gloriosa nação.  Ajoelhar-se, este o lema que foi desenvolvendo nas almas cativas, submeter-se, assim dizia.
Um povo resignado e obediente, com pouca memória, com pouca instrução e, sobretudo, com pouco coração. Andai, sem olhar para o outro, sem considerar que para subir estamos nos apoiando nas costas dos mais fracos. Esse foi o passo seguinte que ele, com punhal na mão, reiterou. Eram apenas pequenas aparições, e, contudo, cada uma delas deixava no ar uma época a se formar. A prole erguia as mãos, louvado seja o peregrino encaminhado no desfiladeiro. O povo, perplexo, tentava reagir, esbravejava ante a insurgência daquele que apenas não dizia, mas rei se fazia.
Ele veio do pó, era um nada a esbravejar entre os privilegiados. Cada palavra reiterada só revelava a podridão de uma alma disposta a soerguer a escuridão, a bater, esmigalhar e trucidar. Dizendo-se o enviado de deus, esbanjando o poderio em suas mãos, pela beirada foi deixada cada mensagem de um coração empedernido.
Não foi tudo isso? Ou foi muito mais. Sorrindo, um sorriso maroto se mostrava nas aparições, como a fazer travessuras. Sorrir na foto, bater continência, elevar a reverência. Os desavisados, viam-no como alguém de nós, ávido por uma brincadeira, teimoso como uma criança, e essa alma angelical foi minando com indiferença. Muitos saltaram do barco, oprimidos, revoltados pelo engodo. Outros inflamados traziam à tona o que há de ser reprimido, viam-se a sair de suas jaulas. Despertar num uníssono o que há de pior.
Escondidos, fugidios, cada golpe a ser dado revestido e escondido por detrás das câmeras, por detrás dos botões que lhe asseguram e resguardam de um confronto. Do outro lado, olhinhos perscrutam a cada nova mensagem, uns para reverenciá-lo, outros na esperança de que os dizeres sejam um alento, mas este não é o seu forte. A mensagem se reverbera, pois todos, significa alguns, uns poucos.
Nunca, talvez nunca na nossa trajetória tenhamos despertado com tantos golpes sorrateiros no meio da noite. A escuridão que cai sobre nós. Só nos desperta com o arquétipo em pessoa empurrando sorrateiro, como um clarão, mais uma medida desastrosa, mais vendidos somos nós como sucata. É como se as medidas de abandono fossem surgindo, diárias, para não nos fazer esquecer que estamos sós neste barco, que ninguém há de tomar nossa mão, abraçar-nos. O que nos resta de proteção, aos poucos, é demonstrado como o vilão que nos engole e são nossos valores que se vão, nosso amparo.
A insurgência com todos, a discórdia total, nos isola como uma ilha do mundo que desperta. Acometidos, boquiabertos, vimos cada uma de nossas certezas nas instituições sendo esmigalhadas. Desconfiadas e apedrejadas por um bem dito maior da nação. Que corpos se esfacelem, que muitos sejam perdidos nessa jornada, pouco importa.
Ela olha, perplexa, mira mais uma vez seus passos. Mira-o nos olhos e vê resplandecer a insanidade que avança. Ao seu redor, bons guris, boa turma, bons demais. Intolerância, intransigência, ódio, disseminados por toda parte. Pessoas enfim parecem despertar, na calamidade que avança, mas sua migalha, sua centelha e, seu legado, já se espalhou. Se nosso corpo clama, nossa alma está doente. Traz as marcas do desfiladeiro de corpos deixados nos cantos. Será que estamos mesmo salvos?
Ana Feijo
Enviado por Ana Feijo em 26/03/2020
Código do texto: T6897925
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Ana Feijo
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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