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Mais Uma Noite Medíocre

Barulho ensurdecedor, cerveja quente, vodca sem gelo, conversas e mentes vazias, homens sem criatividade, mulheres sem sentimentos, visão do inferno presente eternamente em minha memória.

Movimentos uniformizados e ensaiados, próprios para a falta de criatividade e personalidade de todos os presentes. Roupas exatamente iguais em sua essência, como uniformes de operários alienados, que os vestem por opção própria, como gado marcado, caminhando em direção ao abate.

Corpos perfeitos, outros nem tanto, mas sempre com roupas que se pretendem “provocantes”.

Não resta muita alternativa por aqui, exceto balançar o corpo de forma descompassada e desajeitada, como exigem os sons provenientes das caixas de som, que alguns insistem, erroneamente, tratar-se de música, ou ir ao bar, buscar a mais forte bebida disponível e embriagar-se até anestesiar-se, para poder suportar essa tortura. Evidente, eu só posso optar pela segunda.

Maldita hora em que disse àquela minha amiga que eu iria ao aniversário dela, que o comemoraria ao lado dela ainda que ela o passasse no inferno. Mal sabia eu que ela escolheria lugar pior que o próprio inferno.

No caminho do bar vou procurando uma solução para meus problemas, uma forma de escapar dali, uma desculpa convincente que não magoe minha querida, mas já nem tão querida, amiga.

Algo desvia meus pensamentos e chama minha atenção para aquele ambiente que me cerca. E não se trata de mais uma visão de horror e terror, mas uma agradável visão. Aquela belíssima mulher, com trajes estranhos aos locais, mas normais para os que não encaram nádegas semi-nuas balançando como forma de arte. Um corpo que, apesar de não estar completamente à mostra, como a das demais presentes, se mostra perfeito. Um rosto de traços angelicais, mas que parece pertencer a alguém de forte personalidade. Simplesmente uma mulher que parece ser interessantíssima. E como eu, parece estar absolutamente deslocada por aqui, ali, encostada no balcão do bar, como se estivesse completamente indignada por estar em local de tamanho mal gosto.

Como não poderia deixar de ser, aproximo-me.

- Oi, tudo bem?
- Oi?
- “Tudo bem?”, eu perguntei.
- Não estou conseguindo te ouvir! A música é alta!
- E você parece estar tão incomodada com isso quanto eu.
- Como?
- Você parece não estar gostando.
- Eu gosto de vir sempre aqui. Nunca te vi por aqui antes. Você já veio antes?
- Não, é a primeira vez.
- Não, eu disse que sempre venho aqui.
- Eu estava falando... Ah, deixa pra lá.
- Não, não vou pra lá, não vou dançar hoje. Não deu tempo de passar em casa trocar de roupa e não dá pra dançar com essa.
- Bem, eu não falei em dançar.
- Não, não vai dar. Eu queria muito, mas não dá.
- Ta, você bebe alguma coisa?
- Ah, demorô!

E num segundo estou sendo beijado, sem ao menos saber se ela entendeu algo que eu disse como algo que ela gostaria de ter ouvido, ou se apenas agiu assim porque é o padrão do lugar. Não vou me queixar, ao menos por ora, pois que ela, apesar de freqüentar tal lugar de tamanho mal gosto, é lindíssima. Além disso, com as roupas que está não se denuncia como figura típica do local.

- Então gato...

Antes mesmo que ela termine a frase, já sei que, ou a iluminação do local é pior do que eu pensava, ou ela é mais míope do que eu.

- ... vamos dar uma volta?

Ah, aqui está a tão esperada desculpa de que eu precisava, com vantagem de a razão não ser mera desculpa, mas uma excelente continuação de noite que se anuncia.

- Claro, vamos lá. Só deixa eu me despedir de uma amiga que está de aniversário aqui.
- Amiga de quem?
- Nada, esquece, vem comigo.

Despeço-me mesmo a distância de minha querida amiga e de seus convidados, com um simples aceno de mão e uma indicação com a cabeça, a demonstrar as razões de minha despedida.

Chegamos ao carro, eu abro a porta, ela entra, eu dou a volta e entro também, sentando-me ao volante.

- Você tem aí uns proibidão?
- Uns “o quê”?
- Uns proibidão, tá ligado?
- Não, nem tô “ligado” não.
- Ah, umas parada mais forte, não tá ligado em proibidão?
- Não, nem “tô ligado” não.
- Ué, o que você estava fazendo lá na balada então?
- Balada? Você diz a danceteria, ou coisa que o valha? Eu estava prestigiando uma amiga que está de aniversário.
- Então tu não é do trecho ainda?
- Não, acho que eu não sou do trecho.
- Mas curtiu?
- Não, acho que eu não curti.
- Ih gato, você ta por fora!
- Ih, lembrei que eu tenho um compromisso marcado para as sete da manhã. Onde é que eu posso te deixar?
- Ah, é, tipo, pensei que...
- É, essa era a intenção, mas eu havia esquecido meu compromisso.
- Ah, então, tipo assim, me deixa lá na balada de novo.

Retorno, volto as cinco quadras percorridas e a deixo novamente no mesmo lugar. Assim vou-me embora, apenas pensando “a noite que não promete, jamais cumpre também”.

E sigo ao próximo boteco do caminho para tomar minhas últimas doses de mais uma noite de absoluta mediocridade moderna.
Jefferson Andrade
Enviado por Jefferson Andrade em 13/10/2007
Reeditado em 28/10/2009
Código do texto: T693004

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Sobre o autor
Jefferson Andrade
Curitiba - Paraná - Brasil, 39 anos
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Jefferson Andrade