CARTA NÃO LIDA
 
Acordei-me assustado. Alguém conversava na escuridão da madrugada. Cobri-me dos pés à cabeça a fim de não ser visto e para não ver nada, sempre fui muito medroso. Mas a medida que a conversa seguia, eu conseguia identificar algumas frases e percebi que os interlocutores de tão inesperada prosa, eram meus avós. Olhei o relógio que marcada 4 horas e 15 minutos. Recuperei-me do susto. Minha avó sempre reclamava dessa mania de meu avô de querer conversar de madrugada, quando o sono ia embora. O sono dele, pois ela sofria querendo dormir sem poder.

Decidi que o melhor seria voltar a dormir e deixar eles seguirem com a conversa. E eles seguiram, no entanto, eu não consegui dormir, pois percebi que o assunto da conversa era meus três irmãos e eu. Tínhamos chegado no dia anterior com nossa mãe para passar a páscoa com eles. Tentei compreender o contexto da conversa. Minha avó dizia que era melhor não contar. E meu avô protestava dizendo que mais cedo ou mais tarde iríamos saber.

Em determinado ponto da conversa, eu não me aguentei. Levantei e fui até o quarto deles, que sempre ficava com a porta apenas encostada, e exigi saber do que se tratava. Eu tinha apenas 13 anos, mas sempre fui muito atrevido, assim chamavam minhas atitudes. Minha avó recuou, disse que não era nada. Enquanto meu avô insistia em contar. Ambos aumentaram o tom de voz. Agora, quase aos gritos, eles divergiam sobre que atitude tomar.

Meus irmãos acordaram com a discussão. E meu avô não se conteve, falou que nossa mãe não tinha ido comprar presentes para nós, como havia dito:
- Sua mãe foi embora com o amante! – afirmou sem rodeios. Não importava para ele se ela era sua filha. De uma coisa ele tinha certeza, não iria criar filho de mulher safada. Minha irmã, de 8 anos, começou a chorar. Gritava e chamava pela nossa mãe. Minha avó se despedaçou e a abraçou. Meu irmão de 12 anos, o caçula de 6 anos e eu ficamos calados, olhando incrédulos para todos que estavam ali naquela sala.

Acredito que não conseguirei traduzir o sentimento envolvido naquele momento. Eram emoções diversas. Meu avô retirou-se da sala resmungando que não iria criar a gente. Enquanto isso minha avó continuava abraçada com minha irmã. Minha alma se partiu. Olhei meus irmãos, a menina chorando e os outros dois calados, tristes... eu queria a dor de todos eles para mim. Imaginava como eles estavam se sentindo. A dor deles seria como a minha, ou pior, eu pensava.

O dia amanheceu em meio ao alvoroço e minha tia, que morava próximo a minha avó, chegou. Ela abraçou cada um de nós, dando-nos carinho e aconchego. Ela sempre foi a tia que mais esteve presente em nossas vidas, naquele e em muitos outros momentos. Quando meus irmãos já estavam tomando café da manhã, minha tia convidou-me a ir até sua casa.

Não vou descrever como me sentia diante de tudo aquilo. Minha mãe havia nos trocado por seu amante. E meu pai, que não tinha vindo com a gente para o feriado, ainda não sabia que sua esposa tinha trocado a família por uma aventura. O mundo perdeu todo sentido para mim naquela manhã, a única coisa que fazia com que eu quisesse continuar era saber que eu tinha três crianças que iriam precisar de mim. Estava naquele momento assumindo uma responsabilidade que não era minha.

Quando chegamos a casa de minha tia, ela me disse que apesar do que minha mãe havia feito, ela nos amava. Eu não conseguia ver amor em nada do que tinha acontecido. Então, ela me entregou duas cartas: uma endereçada a mim e outra endereçada a meu pai. Segundo minha tia, nessas cartas, minha mãe explicava para nós dois o motivo de sua decisão. Segurei as cartas com tanto ódio. Senti-me afrontado naquele momento. Como uma carta iria explicar tamanha atrocidade?

Olhei a carta com o nome de meu pai escrito. Não, eu nunca seria capaz de entregar a ele tamanho disparate. Era impossível explicar aos filhos e ao marido que iria trocá-los pelo amante. Como ela pôde pensar que uma carta seria suficiente para explicar que nós tínhamos sidos trocados? Eu a odiei com todas as minhas forças naquele momento. Era verdade, eu pensei, todos os boatos de que ela traia meu pai com vários homens, era tudo verdade.

Amassei as cartas entre os dedos ao lembrar do choro dela, negando que não tinha nada com esse homem. Em meios às lágrimas, jurava que tudo não passava de fofocas. O que mais me doía era que eu havia acreditado nela. Ela me enganou, traiu todos os seus filhos. Chorei até soluçar. Eu não tinha mais mãe. Meus irmãos estavam órfãos de mãe e sendo expulsos da casa dos avós. Nós éramos nossa família, meus irmãos e meu pai.

Rasquei com brutalidade as duas cartas e misturei todos os pedaços para que não fossem lidos. Minha tia ainda tentou me convencer a não rascar a carta endereçada a meu pai, disse que eu não tinha o direito de decidi que ele não leria a carta. Não me importei, rasquei as duas cartas e joguei os pedaços dentro de um balde de água. Nós precisávamos de mãe, não de palavras que explicassem porque ela havia preferido o amante a seus filhos.

Após rasgar as cartas, voltei para casa de meu avô. Ele continuava a resmungar a mesma frase: não queria filhos de mulher safada na sua casa. Era quase hora do almoço. Chamei meus três irmãos, arrumei nossas coisas e fomos embora sob os gritos de minha avó pedindo que não fôssemos. Andamos por um dia até chegar em casa, nós quatro e dois jumentos. Chegamos em casa quase de madrugada e já encontramos nosso pai embriagado, pois havia descoberto o feito de nossa mãe.

Não sei porque, mas o dia, o mês e o ano desse acontecimento ficou impregnado na minha mente, 13 de abril de 2003. E sempre que a data se aproxima, eu revivo parte de todo o sofrimento daquela manhã fatídica. Mas não me arrependo de ter rasgado as cartas. Nada do que pudesse estar escrito lá mudaria o fato de que meus irmãos e eu crescemos sem mãe. Ela preferiu o amante, o sexo. Eu preferi minha família, pois nem tudo na vida é sobre sexo.
Nilson Rutizat
Enviado por Nilson Rutizat em 29/07/2020
Reeditado em 29/07/2020
Código do texto: T7019997
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