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Tardes de carnaval

Parece que chegou o grande dia afinal. Durante quase um mês Celina e Maria Cecília combinavam, muito empolgadas, a fantasia de carnaval da princesinha da casa, Maria Eduarda. Filha de Maria e afilhada de Celina. Uma menina linda, moreninha cor de canela, cabelos lisos com leves ondas nas pontas, compridos e castanhos. Gordinha de olhinhos arregalados, muito falante, educada e inteligente. Uma florzinha. Era filha única, mais tinha como irmãos os seis filhos de Celina: Maria Teresa, Maria Inês, Maria Fernanda, Maria Cecília, Manoel Jorge e Manoel Carlos, sendo que o mais velho tinha quinze anos e o caçula uns oito anos. Muito educada e inteligente. Esta morava com a mãe na casa da madrinha, Celina, desde que nascera. Hoje com três aninhos, um doce... Era sábado de carnaval e fazia um dia lindo. Moravam enfrente ao clube na avenida mais famosa da cidade. Durante todo o dia, via-se, mesmo que de longe, os preparativos da decoração pra matinê das crianças E .ela de longe no portão só de olho. Maria Eduarda, muito mimada pelas duas, punha colar daqui, blusa de lá, tirava e punha a sainha colorida, achando aquilo muito interessante. No quarto de costura, do lado da máquina, havia um espelho enorme, que a criança amava. As mães conversando e ela dançando com os colares, pondo sapatilhas...passando batom...borrando tudo...rs. Nesses feriados, recebiam na casa , a visita de um casal de Campo Grande, pra passar o carnaval no mesmo clube e visitar a família ao mesmo tempo. Já que a mãe da Raquel , Maria Carmem, era sobrinha da Celina. Era um casal simpático, jovens ainda, com dois lindos filhos, um casal. Raquel, a filha mais velha, era como uma pessoinha mágica pra Dudinha (Maria Eduarda), na verdade, o legal era quando se encontravam. Tinham a mesma idade, gostavam de queijo com goiabada, de dormir tarde, de ganhar bonecas caras e passar dias na fazenda. Era uma festa essa duplinha. Dudinha era muito precoce. Andou com nove meses, deixou as fraldas com menos de um ano também, e já falava quase tudo aos treze meses poraí. Nunca foi fã de leite, mamou no peito até os nove meses e nunca mais quis saber, morria de nojo de leite de saquinho. Já Raquel era uma bezerrinha, mamava era qualquer um... E dizia com orgulho pra amiga: “- Olha Duda, vou crescer mais que você.” Dudinha, muito dona de si, dava com os ombros em sinal de nem estar ligando, e 1que não via diferença nenhuma entre as duas nesse sentido ,e as vezes lembrava a amiguinha de que quando fossem até a fazenda, iria se levantar bem cedinho pra tomar leite no curral. Daí a amiguinha concordava logo, porque nunca conseguiu se levantar pra acompanhar e tomava leite fervido, que pra Dudinha era um pesadelo. A única forma de ingerir esse alimento eram nas férias da fazenda que duravam em média um mês , aproximadamente. Acordava cedinho com a mãe e pegava a canequinha de alumínio com a estampa de um time de futebol paulista muito famoso, da qual todos da família eram fanáticos. Punha açúcar refinado no fundo e caminhavam por em média vinte minutos a pé até o curral. Dudinha já amava contemplar a natureza, um frescor da manhã que fazia até um friozinho. Ia de cabeça erguida, espiando a altura dos eucaliptos que dançavam com o vento e de como eram compridos e muito diferente das árvores da cidade em que morava. Observava as nuvens que formavam desenhos lá no alto, e ia comentando com a mãe as diferenças e os detalhes, e tirando dúvidas, a mãe lhe dava toda atenção. Devia achar o máximo aqueles papos. Chegava no curral, correndo na frente, e se pendurava na cerca esticando os bracinhos pra entregar a canequinha. As vezes bebia até duas. Se deliciava com a espuma e achava que era uma coisa muito diferente, rs... Depois de voltar pra casa, ia de encontro ao quarto da Quelzinha pra chamar pra brincar, e contava tudo que já tinha feito e visto. E exibia o bigode de espuma de leite que preservara só pra mostrar que estava tomando o leite tão cobrado durante o ano todo, por todos. Era uma paixão as amiguinhas. E nesse carnaval, Raquel vinha com novidades, ia a matinê de fantasiada de Borboleta. Pela primeira vez, Maria Eduarda, experimentou a decepção. Parou de pular e se “enfeitar” ,perante o espelho do quarto de costura, pra receber a amiguinha toda pronta. Só por fazer a maquiagem ... Ela ali atônita vendo as “mães” animadas com o mesmo estilo do ano passado, e a Raquel de Borboleta. Devagarinho, foi se sentando largando o colar de lado e contemplando aquela imagem. Raquel era bem branquinha, de cabelos muito lisos e compridos. Olhinhos cor de mel, boca rosada muito leve. Gordinha e tinha umas bochechas também rosadinhas. E especialmente pra ela, era depositada muita admiração, muito amigas.... Amiga numero um! Em meio a muitas e agora do nada, de Borboleta? Nem percebeu, quando a sua mãe a pegou pelo braço pra terminar de arrumar o seu cabelo com o olhinho coladinho na Quel, que perguntou assustada de ver a amiguinha hipnotizada sem entender nada, coisa rara, se ela ia de Borboleta também. Nem respondeu, porque já estava sendo trocada pela mãe e a amiga viu qual era. Daí prontas, Dudinha, fora de transe, estava pronta. Apesar de achar a Borboleta ,maravilhosa, depois de pronta, já tinha até esquecido. As duas agora pulando , uma do lado da outra, enfrente ao espelho jogando confete pro alto e uma na outra em clima de carnaval, uma música muito familiar, tocava lá na sala “Balancê” pra cá “Balancê” pra lá e assim lá foram as crianças brincar no clube. Depois de pronta, a menina ficou muito bonita. As mães achavam de comprar ou criar outro estilo pra ela, mais revendo as fotos, sempre ficavam com o mesmo tema. Moreninha da cor de canela, com traços bonitos era sempre fantasiada de Baiana. Com a estação do verão e muito fácil de bronzear ficava com os pelinhos dos braços e das pernas dourado com o sol. Como o tema era bem colorido, destacava muito. Blusinha estilo cigana bem fofinha de barriguinha de fora, manguinha curta , tomara que caia , sainha rodada cheia de babados e tal. Tinham uns colares de bolas grandes e pequenas com muitas voltas. Uns brincos que ela amava, grandes e coloridos de bolinha... Sendo gordinha, dava mais charme na fantasia. Arrumavam os cabelos dela com mais cachos e maquiavam bem a caráter e todo ano era a Baianinha do clube. Punham brilho nela, nos cabelos, na pele. Era destaque, ainda por ser a única mulatinha das crianças e que sabia dançar de verdade, assim diziam as pessoas. Era um clube de pessoas de classe média do interior do estado de São Paulo, por isso a diferença. E as crianças iam felizes da vida, tudo muito prático , era só atravessar a avenida. Na realidade , quando chegavam a matinê tudo encantava, a presença da amiga que vinha de longe, rever outras crianças de algum outro lugar ou de lá mesmo, os adultos unidos se divertindo, mais isso era passageiro. Um palco, uma banda, muitos confetes marchinhas que ela amava cantar , mais o passeio era muito longo e cansativo. Brincavam na primeira hora, depois logo corriam pro parque próximo da piscina, com os confetes na mão e cantando mais já escapava da folia infantil. Queria mesmo era se distrair com qualquer outra coisa. Ia e vinha do salão, ouvia elogios das mães de como estava bonitinha, olha filho(a) é uma Baianinha... Depois a noitinha, voltavam pra casa e ainda brincavam muito. E na terça-feira, voltavam de novo pro carnaval. Não deixava de ir, nunca fez reclamação de criança em desaprovação , pois nem sabia direito o que incomodava. Afinal de contas era mulata, baiana , nascida no interior de São Paulo, e sabia dançar e cantar as marchinhas...imagine... Mais de uma coisa ela tinha certeza, ia comer queijo com goiabada com a Raquel, por aqueles colares lindos e passar batom, ir no clube ficar muito tempo livre pra lá e pra cá e ser diferente...O carnaval era muito legal, por estes motivos que ela selecionava com a inocência de uma criança. Quando falavam de carnaval, o que vinha na mente, eram esses divertimentos. Ela nem percebias, que era o que ela ignorava depois dos primeiros gracejos pra família. Então o carnaval era muito legal.

Débora Costa
Enviado por Débora Costa em 22/10/2007
Código do texto: T704568

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Sobre a autora
Débora Costa
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil, 41 anos
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