O PROFESSOR PACHECO - PARTE II

O PROFESSOR PACHECO – II

Passados os momentos, já de conhecimento do leitor, o advogado de Pacheco consegue judicialmente a revisão do processo penal e, em novo julgamento, a condenação é revertida. Ele sai da Penitenciária cheio de dúvidas sobre seus próximos passos. De uma coisa tinha certeza: aquela sua aluna e a namorada dela pagariam caro pela trama de que foi vítima. Uma sensação ruim, que poucos experimentaram, de recomeçar a vida aos 45 anos, se apossou dele. Sem emprego, sem dinheiro – consumiu suas reservas com advogados – e sem rumo.

A única pessoa a esperá-lo na saída da Penitenciária foi o Dr. Costa Neto, aquele advogado que o livrou da pena, mas que levou quase todo o seu dinheiro. O advogado ofereceu-lhe carona até seu apartamento e, durante o trajeto, foi dando conselhos ao Pacheco. – Você tem que limpar sua imagem para poder continuar ganhando a vida como professor. Se quiser, posso lhe apresentar um influenciador digital, que pode trabalhar nisso. Pacheco não tinha ideia do que era um influenciador digital, mas o advogado lhe explicou que era uma pessoa que tinha acesso às várias mídias digitais e que poderia, além de “limpar” sua imagem, transformá-lo num mártir do sistema. O Professor gostou da ideia e perguntou quanto isso lhe custaria, já que estava numa situação financeira caótica. – Vou mandar ele lhe procurar em sua casa e depois vocês combinam o preço, está certo? Finalizou o Dr. Costa Neto.

Ao chegar ao seu apartamento, uma cena desoladora: poeira, mofo, formigas e todo tipo de insetos fazendo a festa da ausência dos donos. Contas de luz, avisos de bancos, cartas da administração do condomínio, tudo enfiado na fresta da porta. O apartamento seria o único bem do Pacheco, após abrir o inventario da mãe. A verdade é que ele não sabia nem se teria recursos para pagar todas aquelas contas, já que não poderia acessar às reservas de D. Rosália, se é que as haviam. Lembrou do seu carro, que ficou no motel no fatídico dia de sua prisão. Foi até o motel e lá informaram que, após 3 dias, eles chamaram um guincho, que o levou para um depósito público. Foi até o tal depósito e ficou desolado com a cena: seu carro estava quase que completamente destruído, sem as rodas, vidros quebrados, completamente coberto de poeira. A administração do estacionamento ainda disse que a soma das diárias devidas era de 2.600 reais, quase o valor do carro no mercado. Viu que não era por ali que conseguiria algum dinheiro. Voltando para casa ficou feliz ao ver que seu laptop ainda estava por lá. Após recarregado, pôde acessar os sites de busca na internet. Digitou seu nome e o Google listou 16 páginas onde havia menção a ele. Não as leu. Priorizou a limpeza do apartamento e munido de água, sabão e muita energia, começou o trabalho doméstico. Algumas horas depois, tudo limpo e higienizado. Com fome, não havia nada em casa que pudesse comer. Desceu até o bar da esquina e comeu dois sanduíches e uma coca diet. Voltou para ler as notícias velhas sobre ele. Devastadoras! Dormiu o sono dos livres mas revoltado com tantas mentiras.

Na manhã seguinte o porteiro avisa que tinha uma pessoa na portaria o procurando: Sr. Valença. “Deve ser o tal influenciador” pensou. Era. Mandou subir e qual sua surpresa ao constatar que era um ex-aluno seu. Disse-lhe que o Dr. Costa Neto já havia lhe contado toda a história e que ele já tinha um plano elaborado. Organizado, Valença abriu uma pasta que continha um “Projeto de Reabilitação de Imagem – Professor Pacheco” no qual detalhava todas as ações futuras a serem empreendidas. Em outra página, o orçamento: 120 mil reais. Pacheco leu o projeto, gostou do que viu, mas colocou: - não tenho esse dinheiro! O jovem influenciador disse-lhe: - Professor, não se preocupe com isso agora; depois o senhor me paga. E continuou: - a primeira coisa a fazer é convocar uma coletiva de imprensa para o senhor explicar toda a trama de que foi vítima; depois que a gente ver a repercussão na mídia, avança para os passos seguintes. Certo?

Assim foi feito. A coletiva foi agendada para o dia seguinte. Pacheco contou a história com todos os detalhes, inclusive nomeando as autoras do golpe, respondendo sem rodeios a todas as perguntas. No final da coletiva, uma jornalista, jovem e bonita, pediu mais um tempo e quis saber do Professor se ele havia ou não tido relações sexuais com alguma aluna em sua carreira. Recebeu um estrondoso não! A repercussão na mídia foi enorme. Todos os jornais falavam da ardilosa trama de sua aluna e da namorada. Com a ajuda do influenciador, uma emissora de TV reeditou o vídeo que fora exibido na ocasião do flagrante armado meses atrás, onde Pacheco era mostrado como racista (pela sua posição em aula dizendo que a Abolição da Escravidão foi uma regressão), nazista (dando aula com o bigodinho do Hitler), machista (contando o encantamento das índias pelos colonizadores portugueses). Só que agora, tudo contextualizado, com ele explicando a intenção de dar um pouco mais de realismo aos abstratos eventos históricos. Sucesso total! A opinião pública mudou de lado: agora se voltava contra as moças golpistas. Até as vizinhas que viravam o rosto quando ele passava, passaram a cumprimentá-lo com entusiasmo.

O próximo passo, no planejamento do influenciador, era entrar pesado nas mídias sociais. E assim foi feito. Contas no facebook, twitter, instagram foram criadas. Até o “Blog do Professor Pacheco” foi construído. Em pouco tempo já havia mais de 3 milhões de seguidores, que não paravam de crescer

O Pacheco era uma estrela em ascensão! Recebia propostas de todo tipo. Ingressar num partido político, ter um programa na TV, voltar a dar aulas e, algumas, de mulheres de todo tipo, querendo conhecê-lo de perto. Dezenas delas incluíam uma foto de suas vaginas – depiladas umas, peludas outras – e a tudo Pacheco dava atenção, dividindo com o Valença o encargo de respondê-las. Uma das propostas foi aceita de imediato pelo Professor: dar aulas em um cursinho pré-universitário; além do prazer em estar em conato com pessoas jovens, como ele sempre esteve, pelo lado financeiro era irrecusável: luvas de 1 milhão de reais mais um fixo mensal de 50 mil, além de um bônus anual dependendo da avaliação dos alunos.

Sobre o ingresso na política Pacheco, um liberal, não simpatizava com nenhum dos partidos existentes. Fez alguns contatos com políticos mais experientes e resolveu fundar o seu próprio: o PICA, Partido da Integração e Consolidação do Anarquismo. Admirador de Mikhail Bakunin, o maior teórico do Anarquismo, o lema adotado foi a síntese da pregação do filósofo russo: "desenvolvimento pleno de todas as faculdades e poderes de cada ser humano, pela educação, pelo treinamento científico, e pela prosperidade material.".

Pacheco navegava em “mar de almirante”, tudo dava certo. Seu blog estava com fila de espera de anunciantes; as aulas no cursinho eram um sucesso, com dezenas de alunos nos corredores do prédio, sem lugar para se acomodar na sala. O PICA ganhava dimensão nacional com seu discurso ultraliberal: menos governo, mais liberdade! Defendia a plena autodeterminação das pessoas, entre outras coisas, o consumo livre de todo tipo de alucinógenos, direito de aborto, não obrigatoriedade de votar, de prestar serviço militar e um sem fim de imposições do estado que seriam abolidas. Sucesso total! Principalmente entre os mais jovens.

O Valença, seu parceiro constante, abandonou todas as outras atividades que mantinha e passou a dedicar o seu tempo integralmente ao Pacheco. Passou a morar num dos quartos do apartamento e se tornaram inseparáveis. Um dia, após jantarem em estrelado restaurante e voltando para casa, Valença revelou que era homossexual. O Professor tomou um choque mas recompôs-se rapidamente.

Nas eleições para Deputado Federal Pacheco resolveu se candidatar e foi eleito com estrondosa maioria, sendo o mais votado em todo o país. Seu partido conseguiu fazer uma bancada importante na Câmara Federal.

Sobre as “meninas” que armaram todo o golpe contra o Professor ele resolveu esquecê-las; afinal, se não fosse a cilada que elas aprontaram a vida dele não seria o que estava sendo. E, assim, todos seguiram felizes.

A Lavínia, a namorada da Telma, a aluna “sedutora”, foi endeusada pelos partidos políticos de esquerda; como negra e lésbica virou ícone dos movimentos sociais e vive dando palestras pelo país; a vida de seu pai, metralhado pelo pai do Pacheco, será contada em um filme de premiado diretor de cinema, com financiamento da Embrafilme. Lavínia hoje namora uma famosa apresentadora de TV.

Telma, concluiu que sua vocação homossexual foi passageira e hoje é garota de programa, com site próprio na internet, onde logo no primeiro acesso os prováveis clientes se deparam com sua foto nua, com destaque para a famosa tatuagem próxima à vagina. Por um programa de uma hora chega a cobrar 2 mil reais. Com sua renda, já comprou um apartamento e uma Range Rover, mas vive sozinha.

O Professor, por conta da longa convivência com o Valença, o “influenciador” descobriu-se também gay e os dois vivem hoje um sólido romance.

NEYSILVA
Enviado por NEYSILVA em 07/09/2020
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