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Anedota

O que contarei é uma história verdadeira.

Hoje, pelas ruas do Centro, um mendigo, todo sujo, cadavérico, moribundo, me parou. Tudo que bastou foi um bem entoado "ei, você aí!", que se ressoou como canção no ar - e eu parei. Sim, eu parei... Justamente eu, que tinha tantas e outras coisas para fazer, e tinha outros lugares para ir, eu parei. Eu mesmo, eu que, em circunstâncias normais, só desviaria o olhar, ignoraria o pleito e continuaria, e que jamais pararia. Mas eu parei.

Ficamos ali, um defronte ao outro, estáticos, por alguns segundos. O mendigo levantou calmo de um resto de jornal e de papelão, que lhe servia de morada. Andou cambaleante até mim - e o seu malcheiroso odor escapou e exalou forte! - e se postou, como alguém pronto para fazer o mais espetacular dos discursos da humanidade. Mas ele não falou. O mendigo trazia os seus olhos, remelentos, muito esbugalhados, com um olhar investigativo, e estampava uma feição de verdadeiro espanto, como se "eu" estivesse a causar-lhe um indescritível horror.

Antecipando o intento do mendicante, de pedir moedinhas, claro, e guiado também pela minha essência avarenta, eu já ia dizendo que nada tinha, não ajudaria, não trazia dinheiro, e nada poderia lhe dar.

Balançou a cabeça, de um lado ao outro, em negação, o mendigo, fazendo esvoaçar a sua besuntada barba. Não queria dinheiro... Vejam só, que audácia!, o miserável não precisava, ou melhor, não queria a minha esmola. Logo em seguida, quase sem jeito, temeroso mesmo, muito pausadamente, num tom grave, num português estranho, ele assim me anunciou:

-- Não tenho necessidade do vosso dinheiro, "pobre" homem, nem há nada que podeis agora me dar, senão uma coisa: uma resposta. Este é o vosso donativo e é precisamente tudo que vos peço... Podeis mo dar?

Ele se deteve. Eu, pasmado, fiquei lá sem compreender. O indigente homem, então, continuou:

-- Que vós me respondais, por favor... Por que te vais por aí tão triste, com este olhar tão manso, opaco e vago? O que na vida te sucedeu, homem?

-- Como é que é? -- Rebati.

O esmoleiro continuou sua pregação:

-- O que te sucedeu, eu pergunto, tu que tens tudo, mas que parece ser mais miserável que eu? O que te sucedeu, a ti, meu irmão distante, tu que tens por certo casa e comida, mas que trazes a alma, dentre todas, a mais cansada, abatida e vazia, tu que trazes a alma esfomeada? O que exatamente poderia ter te sucedido para andar assim, tão sem destino, cabisbaixo, absorto, esguio, sombrio? Por que carregas dentro de ti um tão morto e negro coração?

Sem pensar duas vezes, deixando cair uma lágrima singela, dei ao homem a sua esmola:

-- Sou assim, e não poderia não o ser, meu bom mendigo -- Olhei-o bem e prossegui. -- É simples e te explico o porquê: sou assim, pois tive um amor que acabou e se esgotou, um amor que do peito me tirou absolutamente tudo. Que me esvaziou por completo, que me eviscerou todo, deixando-me apenas esta carcaça oca de solidão. Enfim, tive um amor, gentil mendigo, um tão intenso, tão verdadeiro, tão perfeito, que nem você ou ninguém um dia poderá compreender... E foi esse mesmo amor, meu amigo, foi ele que me fez morrer!

O mendigo voltou para o papelão, satisfeito. Eu voltei para minha caminhada, pelas ruas do Centro. Uma curiosa anedota, não?    
Necrófago
Enviado por Necrófago em 16/09/2020
Código do texto: T7065032
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Sobre o autor
Necrófago
São Paulo - São Paulo - Brasil
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