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Noites frias sufocadas do cais

...Cheiro de cais do Porto.
Noite de estrelas abafadas, suores que os lenços – sempre brancos - não dão conta de secar...
O ambiente enfumaçado pelos mais variados fumos, do cigarro barato ao cachimbo imponente dos velhos lobos do mar. A luz difusa, meio estrábica confunde meus olhos.
Todas as fragrâncias invadem-me as narinas, mulheres – moças – meninas em suas camisolas fatais; pesada maquiagem a recobrir os anseios mais íntimos de um dia encontrar um par, um alguém... Quem sabe um príncipe, marujo ou até mesmo um sapo, para dali as levar e, a aconchegarem em algum lugar... lugar qualquer que possua na entrada, lá bem no alto, perto do telhado a inscrição: LAR.
O rímel escorrido revela que alguma lágrima furtiva por ali rolou e o calor do lugar... atordoante.
E eu, aqui... permaneço sentado nessa cadeira de ferro com o encosto e o assento em palha trançada.
Meu grosso e bem cuidado bigode, amarelado pelo charuto da ilha de Fidel; agora molhado pelo gole no vinho tinto do tonel empoeirado, que é servido na grossa caneca de tosca porcelana branca. Contrasta com minha pele muito alva, avermelhada agora pelo calor do clima e do vinho.
O rústico dos móveis, caprichosamente oleados horas antes pelas meninas. Já possuem agora, novas manchas, profundos estragos, queimaduras de fumantes descuidados.
Arranjos de flores falsas – valor de totem para a dona do palácio
Sorrisos de falsas esperanças...
O que há de verdadeiro aqui além das paredes e do mobiliário? – penso. O coração das pessoas! Que com suas angustiantes incertezas pulsam nem que seja aos solavancos. Mais por teimosia do que por contentamento. – concluo o pensar.
A escada de madeira frouxa geme, como que a contar, cada casal que por ela sobe rumo à alcova de tigresas e leões.
Algumas mulheres passam por mim com pernas de fios puxados. Mas não perdem a pose, por detrás de suas maquiagens caricaturais.
O som alto na velha vitrola. Altemar Dutra desafinado.
Casais entorpecidos pelo alto teor de álcool e sofreguidão dos corpos serpenteiam pelos cantos e novas - velhas juras de amor são entornadas ao pé do ouvido.
Fazendo acreditar só por hoje, por agora somente... Encontrarem em outros abraços o amor que não existe em lugar nenhum.
Em meio a tudo isso percebo, num canto, numa mesa rodeada por um sofá em arco, de veludo vermelho. Um par de olhos que negros pairam sobre mim.
Observando mais atentamente percebo que esse olhar vai além de mim, atravessa as grossas paredes com mofo nos cantos.
Divago: Vai ver buscam o que só é encontrado além das aparências, além dos ombros alheios... o que vai por dentro... no âmago da nossa questão. Vai ver buscam encontrar onde perderam da vida a direção.
... Meu bigode coça... atordoado percebo... Dormi de novo no sofá!
Levanto, sonolento. Desligo a TEVÊ o canal chiando fora do ar. Tudo apagado... vou tateando o caminho do quarto e, repouso dos meus bordejos. Abraço o travesseiro, me entrego à cama.

Jaqueline Serávia
Enviado por Jaqueline Serávia em 25/10/2007
Reeditado em 11/06/2008
Código do texto: T709231

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Sobre a autora
Jaqueline Serávia
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Jaqueline Serávia