Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Pacto

Jamais esquecerei da tenebrosa feição de seus olhos : órbitas cadavéricas, geladas como globos de neve - um prismar de coloração fria, mortificação atrelada nalguma brecha do tempo que se entorpecia, e se esvaía.

Eu, vendo tudo aquilo: minha lenta aniquilação através do afastamento gradual daquele olhar do centro de nossa torpe realidade comum - abandono tácito, sub- reptício, fatiga retarda de minha veleidade incurada.

Quisera fosse: que o abandono fosse físico, com direito àqueles trejeitos arquetípicos das pequenas tragédias domésticas - próprio fundilho da existência para torpes como eu, que teria podido então me escangalhar todo de lágrimas e me rastejar feito um rato cretino com um ramalhete despetalado atrás dela.

No princípio: a pressa, em acabar de dizer, em acabar de ouvir, nossa fala desarticulada, nosso olhar de espelho, nossos milhares de dedos a tatear eu e ela na mesma periferia, desatentos desatinados, só querendo incorporar-se no fluxo mágico da conjunção de nossos sentidos em sentinela.

Perdi.

Isso se fosse amor, não seria desse jeito dizia ela, a quem na aragem da eternidade tiveram os cretinos serafins soprado de suas estúpidas boquinhas celestes a sugestão de um amor sublime demais para minha estultice.

 E aquele olhar( jamais esquecerei este olhar): se fixava naquele lugar que eu não chegava, onde minhas imundas manzorras não podiam encostar, incólume e resguardado de meu vil sortilégio de felino matreiro, de deus telúrico que se definha no solo fétido de onde surgiu.

Nem na auto-afirmação do meu empenho eu encontrava em minha sofreguidão ansiosa, em meu esquadrinhar obsedante naquelas matizes fulgurantes e incessantes de cores daqueles olhos opacos, que então sofriam de paralisia e que já estiveram em mim, um dia, com uma liquidez diáfana, suplicante, repletos de gentileza de amante um agonizante elo.

Que motivações deitadas no fundo de seu mistério precipitam em resíduo na sua voz e caem em minhas mãos, feito um contrato no qual selamos o pacto de nosso silêncio e das nossas aparências? este é seu prêmio de consolação, expressão da sua piedade, da sua digna e tortuosa abnegação.

Eu o aceito: aceito e reafirmo meu áspero pedido com os olhos, e ela toda quieta sabe, sorri e se afasta.

Assim aprisionamos a ambos: ela a mim, em sua infinita nobreza, no excelso amor que foi capaz de um dia me dar, e eu em minha vexatória covardia, na vileza de um torpe amor que não cessa de ser.




Tatiana Ferreira
Enviado por Tatiana Ferreira em 14/11/2005
Código do texto: T71414
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Tatiana Ferreira
Curitiba - Paraná - Brasil
4 textos (151 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/01/19 23:48)
Tatiana Ferreira