Chico, o BQ


Estão vendo esse carinha aí da foto, né?! Sim, esse orelhudo rsrsr..., é o Chico BQ. – Ele, igual aos outros cachorros lá de casa, tem uma história, vou contar a dele agora..., mas antes quero comentar uma coisinha, bem rápido: "dizem que, quem nasce bom, já vem com uma estrela na testa, não importa de onde tenha surgido, vai brilhar de qualquer jeito, mas por óbvio, também faz por merecer".

Pois muito bem, esse gaiato não foge à regra, nasceu no abandono, no meio do mato, seus irmãozinhos morreram logo que nasceram, mas ele se arrastou até a beira da pista e por sorte a primeira pessoa que viu, foi uma mulher caridosa, ele olhou p’ra ela e o seu coração falou pelos olhos, pedindo ajuda. Ela entendeu e o socorreu. Mas a coitada não podia fazer muita coisa, também vivia na rua batalhando pelo seu pão de cada dia, “vendia coisas”. Foi aí que a estrela dele brilhou. Ele deve ter pensado: - "ih... com essa aqui eu não vou me criar não, mas vamos lá”. - Até porque, ela disse logo p’ra ele: - não posso ficar contigo não, mas vou ver o que posso fazer.

Ele se mostrou carinhoso e esperto, não parava de balançar o rabinho, mostrando que estava super feliz. Ela aos poucos foi se apegando ao "Chiquinho", foi assim que o chamou logo que o viu e Ele parece ter gostado do nome que recebeu. – Abreviando a história, foi por isso que ele apareceu lá em casa. E de fato começou assim: era uma bela manhã, o sol brilhava pelas vidraças do meu quarto, eu estava feliz, tive uma noite de sonhos lindos, acordei super empolgado. – Pois bem, ia eu descendo p’ra tomar café e vi um quarto fechado... estranhei. Bati, ninguém respondeu, mas pressenti algo, então abri a porta bem devagarinho. Ele parecia estar me esperando, bem pequenino, olhou p’ra mim e me encarou rosnando. Eu li seus pensamentos: - Não vem não, tô sabendo que vc não quer mais cachorros por aqui, mas também to sabendo que estou só de passagem, alguém vem me buscar. – P’ra me conformar pensei assim e completei meu pensamento: - Tá bom safadinho, mas você é muito bonitinho; tentei me aproximar dele, então ele correu p’ra debaixo da cama, eu fiquei chamando... ele se escondeu, então eu parei de chamar e fiquei observando, Ele veio bem devagarinho e botou a carinha pra fora, quando me viu, voltou a se esconder, e continuou rosnando; então eu falei: é né... pensa que é o tal, né?...
 
Não insisti, fechei a porta e fui tomar café, então ouvi meu filho dizer lá na cozinha: - Acho que ele descobriu é melhor falar logo; chegou perto de mim, me abraçou, beijou minha cabeça e disse: - Pai, tem um cachorrinho aqui em casa de passagem, nós vamos doar Ele p’ra alguém que possa criar, tá bom?! – Eu não falei nada, já temos quatro e todos com histórias parecidas, fiz minha cara de bobo, desconversei e fui p’ro escritório, mas fiquei pensando: - Só se eu não te conhecesse Vinni! É mais um que vai morrer de velho aqui em casa. Os dias se passaram, e sempre que eu me deparava com esse semvergonhinha, ele corria, latia e não me dava a menor confiança, eu o chamava, tentava brincar com ele, mas era em vão. Corria e se escondia. Eu ficava pensando: - eu, hein!, que foi que eu fiz p’ra esse merdinha; - tá... e deixei escapar a voz: - não quer, tudo bem, vou te mandar lá pro sítio.  Quando voltei d’uma breve viagem não o vi mais em casa, também não questionei, mas algo em mim estava inquieto, penso que me senti desprezado por ele e ainda pensava em conquista-lo, imaginei que já tivesse sido doado p’ra alguém, conforme eram os planos.
 
No sábado seguinte fui p’ro sítio, assim que estacionei, eu o vi correndo na direção da pic up, mas logo parou quando me viu descer, fiquei feliz em vê-lo ali, mas ele não me parecia nada contente; estava todo sujo e bem magrinho, tentei me aproximar dele e ele correu, ficou em cima de um monte de areia e sempre que eu tentava me aproximar, ele ia p’ra mais longe. Aí o “Bada” (caseiro) me falou: - Doutor ele é esperto, valente, mas não deixa ninguém chegar perto dele e também não come direito, só vive no portão, olhando p’ra estrada, mas não foge. Eu pensei: - Eu, no lugar dele estaria assim também, afinal ele estava tão bem lá em casa, brincava com todo mundo e era bem paparicado, praticamente nasceu ali. Aquilo me encheu de remorsos, mesmo não sendo eu o autor da façanha de tê-lo mandado p’ra ali. Então chamei o “moisés” o cachorro lá do sítio, também é novo, a diferença é que esse nasceu por ali, já estava acostumado com o mato e as coisas do tipo; fiquei brincando com ele; logo percebi que o “chuiquinho” ficou prestando atenção e encolheu o rabinho entre as pernas, ensaiou uns passos em nossa direção, mas parou, acho que lembrou de seu orgulho ferido... rsrsr...
 
Chegou a hora d’eu voltar p’ra casa e comecei a viver um drama, no meu íntimo queria leva-lo de volta p’ra casa, o Vinni meu filho andava meio capiongo, imaginei que fosse saudade do Chiquinho, mas quem queria mesmo era eu, não me conformava de ser desprezado. Tentei outra vez me aproximar dele, outra vez Ele correu. Então entrei no carro dei a partida Ele ergueu as orelhas e começou a latir. Eu pensei: - é, ele tá mesmo bravo comigo. Confesso que fiquei muito triste e sai com o carro bem devagarinho e Ele continuou latindo como que estivesse me mandando embora dali.  Então tomei a saída e fui embora.
 
Cheguei em casa e já fui chamando a empregada e perguntando: - Quem mandou o Chiquinho lá p’ro sítio? Meu filho ouviu e disse, fui eu Pai, o Baba passou por aqui p’ra pegar o rancho dele e eu achei que o senhor não queria mais cachorro aqui e mandei p’ra lá Ele me prometeu que iria cuidar bem dele. Eu fiquei intrigado e falei: - O Chiquinho ouviu você dizendo que eu não o queria mais aqui. Ele respondeu: - sim. Pronto, foi a medida da culpa. No dia seguinte liguei p’ro “Bada”, perguntando se estava tudo bem por lá Ele disse que sim, mas ressaltou: - Doutor, só o Chiquinho que não quer comer nada, depois que o Senhor saiu Ele chorou que não queria mais parar... Ele ainda correu atrás do seu carro, foi preciso eu ir chamar Ele de volta. Então eu decidi: - Vou buscá-lo. E foi assim, quando cheguei lá no sítio me pareceu final de novela, Ele correu p’ra mim e eu p’ra Ele, não conversamos muito... entramos no carro e Ele veio feliz da vida, e eu também. Penso que nessa história, temos culpa partilhada e um forte motivo para sermos bons amigos.  
 
Ah, Ele ganhou um sobrenome “BQ” (bem-querido).
 
 
 
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Antônio Souza
(Contos/Cotidiano)
 

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