"Querido"

Aquela palavra, "querido", havia sido o golpe final. Havia pelo menos cinco anos que Lenore Hemminger, anteriormente conhecida como Lenore Sydow, fazia os nós da gravata de seu marido Bruce, e a palavra cortante como faca havia sido desferida em um desses momentos. Mas não se engane, não houve insinuação ou intenção alguma quando ela deixou a boca da dedicada esposa, mas por algum motivo Bruce soube no exato momento que estava sendo traído. Ele não era o único "querido" de sua esposa.

Ela continuou a mexer as mãos habilmente, acostumada com a tarefa, enquanto sorria um pequeno sorriso, extremamente belo, satisfeito, simples. Bruce apenas encarava seus lindos olhos negros e soube também que tudo aquilo era automático. As conversas durante o café da manhã, os nós e até mesmo o sorriso. Sua esposa não estava mais ali, sua mente vagava por lugares que Bruce apenas poderia imaginar, e tudo o que ele via era apenas uma pequena parte, a superfície de um lago extremamente negro e profundo.

Quem seria o outro homem? Bruce teve vontade de chorar. O belo sol daquela manhã de sexta feira entrando pela janela, a poeira dançando levemente ao sabor do vento, o silêncio daquele ato secreto e sagrado, pelo menos para Bruce. E Lenore era tão bela. A visão de Bruce se embaçou, e ele levantou a cabeça para evitar que as lágrimas caíssem. Mas não foi rápido o suficiente, uma pequena gota pousou na mão clara enfeitadas de finas veias verdes de Lenore. Ela olhou para cima ressaltada, com a gravata ainda por arrumar, mas não teve tempo de fitar o rosto do marido, pois ele caminhou rapidamente até sua mala na poltrona da sala.

- Bruce, o que foi? Sua gravata...

- Preciso ir, Lenore. Não posso mais.

- Não pode mais? Do que está falando?

Bruce não respondeu. Caminhou até a porta, abriu-a bruscamente e foi de encontro ao refrescante ar da manhã, que com toda certeza logo se tornaria abafada e desagradável.

- Bruce, querido, o que foi? - Lenore gritou da porta enquanto ele entrava no carro.

Aquele "querido" novamente. Era cada vez mais óbvio, mas isso não importava de fato. Seu coração não queimava, suas mãos não suavam. Não havia raiva, era apenas uma estranha e cômoda dormência da mente. Ele conseguia pensar apenas em uma cor: azul cobalto. O estado cobalto, ele já o chamara uma vez, quando era mais jovem. Não havia nada a ser sentido. Por enquanto, pois ele sentia algo se avolumar em seu coração, e nada mais era que a boa e velha tristeza. Mas dessa vez era diferente. Obviamente não era sua primeira experiência como traído, mas por Deus... não Lenore. Não o seu tesouro, não o seu raro jardim, não seu último tesouro nesta terra.

Bruce ligou o carro e saiu sem olhar para trás. Tomou um caminho diferente do escritório e parou em uma loja de conveniência no caminho. Notou o olhar espantado do atendente enquanto pedia uma garrafa de gin as oito da manhã, mas honestamente estava cansado de notar. Voltou para o carro e tomou dois bons goles da garrafa de rótulo branco enquanto ouvia os passarinhos cantarem como se dissessem bom dia a um mundo surdo e prestes a desmoronar. Pensou em ligar o rádio, mas logo descartou a ideia. Ele precisava comprovar.

Abriu a porta do carro, retirou a gravata mal colocada, o paletó e desabotoou a camisa branca. Tirou também os sapatos, sem saber muito bem o por que. Colocou tudo na poltrona do motorista e trancou o carro.

Caminhou por dez minutos, pisando na grama agradavelmente refrescante de seus vizinhos, sentindo o sol da manhã esquentar seus cabelos negros e bem penteados. Era uma boa sensação, mas o álcool logo incomodou seu estômago e ele jogou a garrafa fora, assim como Lenore havia feito com seu casamento.

Bruce imaginava se conseguiria ver algo, como um carro parando em frente a sua casa e dele descendo um belo homem, de andar confiante e sorriso resplandecente. Entraria pela porta da frente ou pela de trás? Foderia sua esposa no sofá da sala, na mesa da cozinha ou na mesma cama onde ele fazia amor com ela? Sujariam a cama e inundariam o quarto de gemidos de prazer como tantas vezes Bruce fizera? E depois? Ela trocaria os lençóis, tomaria um demorado banho e faria o almoço como sempre? Sem um pingo de remorso, sem um pingo de ódio de si mesma?

Bruce retornou à sua casa. Encostou-se numa grande árvore como um bandido planejando um assalto e esperou. Esperou por uma hora, duas horas, e durante todo esse tempo não teve dúvida.

Eventualmente o carro chegou, exatamente como imaginara.

Um homem alto desceu e nem ele nem Lenore, que surgiu na porta poucos segundos depois, notaram um olhar e uma sombra grande demais em uma árvore.

Ele pretendia entrar pela frente, mas guiado pela sabedoria da esposa de outro homem ele terminou entrando pela porta dos fundos.