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JE T´ATTENDS

Até pouco tempo “Je t´attends” estas palavras francesas eram para mim ainda apenas uma lembrança de infância. Sempre me lembrei destas palavras, uma frase, porque mesmo sendo aluno de francês (obrigatório no Marista bem como o inglês), na época o meu pequeno conhecimento sobre a língua francesa, pequeno até hoje, não me propiciou de pronto sua tradução.
Os anos se passaram e guardei-a na memória como se guarda uma coisa muito importante. Pensando bem tinha sido, sim, um momento muito importante na minha infância.
Na verdade, era um aluno daqueles dos mais retraídos, que sentava assim meio escondido nas últimas bancas da sala de aula; tinha tremedeira quando os outros colegas mais “sabidos” me inquiriam, imagine ser o professor, era um verdadeiro pânico. Era tímido, reservado, sem muitos amigos, lembrou-me de todos como se hoje fosse. Mas amigo de conversar, de brincar, de sair junto do colégio só um: José Máximo. Acontece que ele também era possuidor quase das mesmas características que eu. Então, conversar era um tremendo silêncio. Brincar muito raramente. Sair Juntos e estar juntos há isto era sempre. Como se apoiar num igual para parecer mais forte e não pagar mico talvez.
Na época, as escolas ainda não eram mistas. Havia o Ginásio dos meninos com professores todos padres e o colégio das meninas sob o comando das freiras.
Os jogos eram dos eventos o mais aguardado por todos. Posto que, era uma festa mista. Meninos e meninas, professores e professoras. As exibições, os olhares, as fantasias, as fofocas. Nossa infância tão inocente. Em cidade pequena, meu Deus, tudo rendia até o próximo evento. Contava-se, gabava-se, mitificava-se nomes e ações até o próximo evento. Era uma festa antes, durante e depois. Corações partidos e apaixonados. Desejos e fantasias saltitavam dos olhos e se esparramavam pelo chão de minha infância tudo respeitosamente sem malícias.
O professor! Ou professora! Autoridade das mais importantes na vida da cidade. Um pedido era mais que uma ordem.  E é daí que vem o meu inesquecível “Je t´attends”.
Uma professora vizinha de minha casa. Pediu-me, enquanto estava de saída para o ginásio, que eu perguntasse ao professor de francês, que era um padre, uma tradução e me entregou um papelzinho escrito com a já referida frase. E eu naquele momento me senti o verdadeiro escolhido, caíra nas graças de uma professora. Quanta responsabilidade, quanta honra.
Parti às pressas para o cumprimento da missão. No meio do caminho, meio confuso da missão, abri o papelzinho e lá estava escrita a frase, escrita entre depois corações desenhados, entendi menos ainda.
Ao chegar ao ginásio ainda meio ofegante:
- Irmão! A professora Catarina me mandou perguntar ao senhor qual era o significado da frase que está escrita neste papelzinho?
Ao mesmo tempo, que lhe estendia o papelzinho. O professor abriu, me olhou severo.
-Abriu, leu?
-Não!
-Tudo bem!
-E o significado?
-Tudo bem, diga a ela.
-O senhor num vai escrever?
-Não! Tudo bem, diga a ela.
As aulas terminavam as onze e meia. José Máximo morava na quadra anterior à minha casa não entendi o porque e nem lhe comentei da minha missão. Conversávamos pouco como falei. Segui em frente e lá já estava professora Catarina me esperando, notei-a meio impaciente:
-Perguntou?
-Perguntei, sim senhora!
-E o que foi que ele disse?
-Tudo bem, diga a ela.
-Obrigado! Mano.
Ela e todos me chamavam assim.
Criança, ávida de vida, o sol inclemente de minha terra, brincadeiras, o tempo passou. Fez-me adolescente, jovem, adulto e de uns anos para cá está me fazendo a pré-velhice. Nessa idade lembramos muito de consultar aquelas páginas do passado que não passa e lembranças que o tempo muitas vezes as grafam em pedras.
Vi-me novamente abrindo aquele papelzinho. Aquele papelzinho - minha culpa - nunca me orgulhei de tê-lo aberto. Acho até que não me interessei pelo francês por conta desta motivação.
Outro dia, há pouco tempo, fui freqüentar um curso de francês oferecido gratuitamente pelo meu então trabalho. Não resisti a chance. Logo perguntei ao professor:
-Professor, O que significa “Je t´attends”
-Esperando-te. – respondeu-me!
Um raio de sol fugindo das folhas de uma árvore frondosa penetrou na sala iluminou meu rosto. Assisti um “pombo correio” da janela do Fórum onde eu estava, içar vôo para a imensidão, um vôo sem culpas, um vôo de liberdade, o vôo da minha libertação.
Crontei!
Depois eu cronto mais!
 
Manuel Oliveira
Enviado por Manuel Oliveira em 18/11/2007
Código do texto: T742141
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Sobre o autor
Manuel Oliveira
Olinda - Pernambuco - Brasil, 63 anos
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Manuel Oliveira