— Eu? Quem disse? Por que teria?

Assim responde Maria ao ser perguntada, por mim, se tinha medo de passar a noite no escuro do tipo breu.

E complementa:

— Sabe do que tenho medo mesmo? É de não enxergar, no meu cotidiano, diferentes possibilidades de agir ao ver desigualdades sociais, humilhações, discriminações e tudo que incomoda a quem se importa com o outro.

Maria continua a falar sobre o fenômeno da escuridão:

— Há situações que, na verdade, são horripilantes, menos pela falta de luz e, muito mais, pela ausência de visão da sociedade. Tomo, como exemplo, a ignorância, não aquela causada pela falta de conhecimentos, mas a originada pela carência de bom senso, que cresce com a disseminação da arrogância, e do poder que poucos exercem sobre muitos, culminando com o breu que impossibilita a vida em um mundo melhor.

Ah, nesse diálogo investigativo descobri uma situação que causa uma espécie de pavor a Maria, que a faz passar noites em claro. Quer saber?

— Ela confessou ficar apavorada quando quer produzir algo sobre um tema que lhe surge da leitura de um livro, de uma paisagem, de uma imagem ou de uma vivência e, mesmo diante do insight provocado, quando se senta para escrever, dar-lhe um breu daqueles que apaga a inspiração que iluminaria o seu pensar criativo para a composição de um texto brilhante.

Aí Maria conclui:

— Essa falta de clareza de ideias me faz perder não só o sono, mas o humor. Em contrapartida, “o escuro da criatividade” me faz ver que a beleza de um texto não está, nem na métrica nem na rima, mas na arte de transmitir sentimentos e emoções por meio da prosa e da poesia.

 

Iêda Chaves Freitas

12.04.2022

 

Tema da semana: Noite de Breu