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Elefante

Eu e meu pai estamos no zoológico.
Eu, um merdinha idiota, no meio de uma mundo de animais.
Isso aconteceu antes da minha primeira vadiagem e minha estadia na delegacia, antes dos investigadores deixarem eu usar o banheiro sozinho.
Meu pai diz:
-Você quer ajudar a libertar os animais?
Era a primeira vez que ele vinha me buscar.
Mais tarde aquilo foi chamado de "Ataque irresponsável à propriedade privada".
- Quero ver o elefante - digo a meu pai.
Todos os outros pais e filhos conversavam entre si.
A fila era enorme.
Enquanto isso eu esperava. Meu pai diz que é muito fácil levar a vida e que as pessoas governam a si mesmas.
Era mais uma informação importante para se viver.
-É só telefonar para mim quando tudo der errado. - Ele diz.
Ele deve ter se arrependido um tempo depois.
Animais de atração é o modo como o zoológico se refere aos animais. Pode ser um macaco, leopardo, coelho, mas jamais uma pessoa.
Minha mãe me diz que ninguém pode pedir para outra pessoa provar que era maluco, isso é discriminação.
Era mais uma informação importante para se viver.
-Quem é maluco não tem culpa dos seus atos. - o psiquiatra me diz.
Minha professora me diz que loucos (ou idiota?) tem preferência no atendimento e que eu seria o primeiro a ser atendido. Ela torce a boca e funga, depois vira para o outro lado e funga novamente.
A fila andava um pouquinho.
Papai diz que é um absurdo ficar tratando bem os bichos selvagens, pois eles não dão retribuição alguma.
Troquei "bichos selvagens" por "pessoas" e fez mais sentido.
Na minha frente dois macacos se acariciavam e mexiam em suas partes íntimas.
Papai diz que os animais do zoológico são ingratos, pois eles comem do bom e do melhor e vivem longe da luta pela sobrevivência, mesmo assim não servem para nada.
Troquei "animais do zoológico" por "filhos" e fez mais sentido.
Dez anos depois digo a papai que masturbação era a única diversão para eles.
O veado se esfrega no mato.
O golfinho na rocha.
O macaco com a cauda.
O elefante com a tromba.
Foucault diz:
-"Masturbação para felicidade".
Quando os cachorros fazem sexo, o pênis do macho incha e a vagina da fêmea se contrai, daí eles ficam horas intermináveis juntos e infelizes.
Não é muito diferente do casamento.
Mamãe diz que o fundamental para um homem é estar sempre em contato sexual com mulheres.
Dez ano depois digo a mamãe que ela deveria ser mais específica.
Eu sempre tentava dar a grana antes de tirar as calças. Ela me dizia que seu nome era Íris e:
- Pague depois. Não corra tanto. Não há pressa.
Depois fechava as cortinas e baixava as luzes.
Era assim que ela ganhava um montão de dinheiro.
Ela diz:
- Podemos começar?
Eram sempre 50 minutos. Eu precisava dizer o que queria antes.
Ou seja: as posições, o ambiente e os brinquedos.
Sempre que um cara quer emagrecer um pouco faz sexo. Isso vale também para parar de fumar, controlar o estresse, parar de roer as unhas, parar de beber, limpar a pele.
Sexo cura tudo.
Papai adorava carros novos, falava que o que contava não era o carro, mas o cheiro de carro novo.
Dez anos depois descobri que aquele cheiro era formol, usado para conservar cadáveres. Digo a papai que se ele quer entender o mundo, não iria conseguir com um carro novo.
Mamãe dizia que conhecimento poderia me deixar louco, mas também me proibia de usar drogas. Eu nunca entendia o que mamãe dizia.
O objetivo dos meus pais era desenvolver um tratamento que devolvesse a inocência às pessoas.
Se eu conseguisse usar 0,1 do meu cérebro estaria curado.
Digo a papai e mamãe que meu objetivo não é descomplicar minha vida. Meu objetivo é me descomplicar.
Eu já nem finjo saber como sou.
Ainda assim. É de mim que estou falando.
Plínio Platus
Enviado por Plínio Platus em 30/11/2007
Código do texto: T759294
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Sobre o autor
Plínio Platus
São Paulo - São Paulo - Brasil, 102 anos
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Plínio Platus