SAMANTHA

... entre meus familiares, incluo, com muita justiça e amor:

BOOK, cocker spaniel, falecido;

DIANA, cocker spaniel inglês, falecida;

DUQUESA, mãe de quatros lindos "rebentos", entre os quais a Diana, também cocker. DUQUE, cocker, falecido;

FITINHA, a única e linda "vira-lata" que já tive

e para o único doberman que tivemos, doado por amigos, vivo;

SAMANTHA, viva, a alegria e felicidade da nossa casa!

Notinha encontrada numa das gavetas de sua mesa de trabalho, na Pasta: HERDEIROS. Bens materiais e espirituais.

**********

MEU NOME?

- Osni,

sem r!

O NOME DELA?

- Samantha,

com th!

**********

Ouviram a buzina de um carro.

Ao mesmo tempo, comentaram:

- “Deve ser ela chegando.”

Dito e feito.

Era ela.

Seu nome é bonito, agradável de ser pronunciado. E é até mesmo chique: Samantha, com th.

Carinhosa, elegante, bonita e fagueira.

Chegou rebolando, sorrindo.

Seu corpo exalava um perfume suave, gostoso de se cheirar!

Foi logo entrando, desembaraçada e apressada.

Foi até a sala e depois para a cozinha.

Tinha para cada um da casa, a seu modo, um cumprimento muito agradável de quem está feliz!...

Eu observava tudo sem perder um detalhe daquele encontro familiar cujo personagem principal era a Samantha. Samantha com th!

O filho, muito feliz, da sala gritou para o pai que se encontrava no andar de cima:

- “Pai, a Samantha chegou!...”

- “Ok, meu filho, não demoro e desço”, respondeu o pai.

- “Pai... o moço disse que foi muito difícil cortar e ajeitar seu cabelo, perto da orelha”, gritou olhando ansioso para a Samantha.

- “Mas ficou bom?” Perguntou o pai.

- “Sim, pai, ficou ótimo, muito elegante mesmo!”

E a Samantha observava, atenta a todos, enquanto o diálogo ia terminando entre o filho e o pai.

E o pai, encerrando o bate-papo inesperado e em voz alta, com a chegada da Samantha, brincalhão e irônico, concluiu:

- “Filho, fala para a sua mãe colocar calcinha e sutiã na Samantha.”

E arrematou:

- “Estou descendo para dar e receber carinhos da Samantha!...”

Ao chegar perto, olhou firme para Samantha e para todos em volta e afirmou:

- “Sim, para mim, não existe uma cachorra mais bonita, inteligente e carinhosa como a Samantha! Loira, vivaz, bonita! Charme exuberante ao lar que a abrigou! E nós, de nossa parte, a consideramos como da família.

...

Descontração muscular...

Descontração mental...

Duas criancinhas, eu e ela, brincando com uma bolinha de borracha azul.

A posição dela que mais admiro é assentada, com as quatro patas e a cabeça erguida, mirando-me com atenção e simpatia.

Somos dois, num imenso e conturbado mundo, com alguns instantes de crianças inocentes. Eu e ela, despreocupados, “brincalhões”, diria alguém ao nos ver em nosso joguinho caseiro de jogar e buscar a bolinha de borracha azul.

Quando penso em consumismo sem freio rondando a vida das pessoas em seu dia-a-dia e olho para a figura tranqüila de Samantha, agradeço por sermos assim, brincalhões num mundo em que tudo é tão rápido, que deixa as pessoas tontas diante de seu ritmo acelerado. Elas não têm um minuto para se descontraírem, verificarem que podem perder o trem das inovações aceleradas. Mas se perderem a sensibilidade para o “belo” das coisas simples, estarão fadadas a um fim triste, solitário.

Samantha tem me ensinado que basta pouco, muito pouco para termos na face o sorriso do bem-estar... nem que seja por alguns momentos.

Quando demoro um pouco mais escrevendo, sem dar-lhe atenção, já observei: ela se deita por completo no chão, encostando sua cabecinha no solo.

Mas... é só chamá-la pelo nome e, rapidinho, ela se achega a mim!

Um ou outro barulho um pouco estranho a coloca em vigilância, como fiel escudeira!

Pára, já levantada, olha para um e outro lado, observa e retorna à posição inicial – não houve perigo iminente para o seu dono.

Seu dono sou eu. E sinto orgulho em tê-la ao meu lado, diariamente, mesmo quando, ela manifesta uma pequena demonstração de incômodo, por já está passando da hora de sua refeição. Mas não se irrita. Aguarda, pacientemente, ser-lhe servida a "bóia".

Mais do que possa falar dela? Muito... muito mais!

...

Quando vou para a mesa dedilhar as teclas da máquina, logo, logo, chega a Samantha. Traz consigo, na boca, a bolinha de borracha, a azul. Deixa-a cair e fica me olhando como se estivesse dizendo:

- “Vamos brincar com a bolinha?"

Olho para ela, digo algumas palavras amáveis, inicio meu trabalho, que interrompo de quando em quando, e fico admirando o jeitinho e o rosto de Samantha.

Ela é realmente linda! Sua maneira de se deitar, cabeça aprumada e olhar sincero, cativa.

Ela sabe o que estou fazendo: trabalhando. Sim, sabe muito bem e por isso nunca atrapalha. Enquanto vou raciocinando e escrevendo, ela se posta no chão, admirando-me!

Esta é a minha cachorra! E esta é a minha máquina de escrever, adquirida há muitos anos, bem antes de circular pela praça os diversos tipos de computador com seus milhares recursos.

Prefiro a máquina. Já somos fiéis, um ao outro, há longas dezenas de anos.

E quando a Samantha se levanta e sai, eu chamo baixinho pelo seu nome e, de imediato, ela atende, balançando seu rabinho e, posso garantir, muito feliz! Sente-se importante e amada ao ouvir-me chamando por sua presença aqui, ao meu lado. Até parece um discípulo muito atencioso durante a explanação do mestre. Sim, converso com ela...

E ela sabia ouvir e...

Sim, senhor, entende perfeitamente o que digo, pois já testei.

Quando dirijo-lhe palavras de reprimenda, ela fica séria, ouvindo; e quando minhas palavras são dóceis, ela abana o rabinho, seu rosto fica mais tranqüilo, e percebo que está feliz.

Sinto dedicar-lhe tão pouco tempo e assim mesmo só quando vou para a mesa escrever. Ela merece mais.

Costumo jogar bolinha azul com ela. Vamos para a área, pequena, mas de bom tamanho para o que queremos. Jogo a bolinha, com os pés, longe; e ela, rapidinho, corre atrás, abocanha a bola e a deposita aos meus pés. Praticamos, pois, juntos, alguns minutos de exercício e descontração.

Quando faço algum barulho diferente, ela se levanta rapidamente a se achega a mim, como em estado de severa vigilância na proteção ao seu superior. Sim. Superior? Não. Não me considero superior a ela. Pelo menos em sentimentos nobres, ela ganha de mim.

Vez ou outra, levanto-me e digo para ela:

- "A bolinha...”

Ela já sabe. Levanta-se também e saímos os dois, eu e ela, para jogarmos "a bolinha de borracha azul". O maior tesouro de Samantha é a bolinha de borracha azul!

Penso e aí indago para mim mesmo: “por que nós, humanos, não podemos, como ela, contentar-se com tão pouco?”

Apenas uma bolinha de borracha azul e nada mais!...

Não, nunca seremos iguais. O ser humano não se contenta. Ao atingir um desejo, surge mais outro, mais outro...

E a vida vai ficando repleta de problemas. Todos conseqüências de seus próprios desejos e conquistas.

...

E quando a Samantha corre atrás de alguma mosca, tentando pegá-la? É o “máximo!”, eu diria, usando linguajar de uma criança já alcançando a idade da puberdade.

E ela gosta mesmo de jogar bolinha. Sai em disparada atrás da bolinha e volta arfando, colocando-a perto de meus pés.

E assim continuamos nossa brincadeira tão rica de sentimentos nobres.

Quando paro com a brincadeira e retorno ao meu trabalho, lá vem ela, como sempre, com a bolinha na boca, como quem desejasse dizer:

- "Vamos continuar brincando?"

Eu paro e volto. Bolinha vai, bolinha vem em sua boca.

O mais interessante é que ela nunca perdeu a bolinha!

...

Acabamos de brincar e me volto para outras ocupações.

Surge a noite e outro dia.

Quando percebo, a bolinha está perto dela. Ela não perderá a bolinha, mesmo quando ela cair atrás de um vaso de flor, algum obstáculo ou outro empecilho. Ela dá um jeitinho e, quando menos percebo, vejo a bolinha de borracha azul ou em sua boca, ou perto dela! É mesmo impressionante como coisas tão simples na vida podem trazer sorrisos nos lábios e descontração!...

Busco tratá-la bem, pois reconheço seu merecimento, sua amizade sincera, sua proteção para mim, minha família e minha casa, mas... sobretudo, acima de qualquer dúvida, seu amor, sua feição por nós.

...

Além da água e da ração, acostumei-me, ao anoitecer, a ir para perto dela com um gostoso pão molhado no leite. E, para ser sincero, ela já sabe e espera ansiosa por esse momento. Antes de ir para a sua casinha, educadamente, fica assentada perto da porta da cozinha.

Sim, claro, tem os momentos em que ela perturba um pouco. É quando ela não late, ou melhor, imita gato, um som desagradável, pelo menos para mim. Não sei quem ensinou tal procedimento a ela. O fato é que não gosto e então, nesses momentos, ao anoitecer e ao amanhecer, vou logo gritando por seu nome, e ela já sabe: pára de incomodar! Sim, também, às vezes, vejo-a, pensativa, séria. E pergunto, então, para mim mesmo: “o que ela estará pensando, recordando ou premeditando?...

Mas não obtenho resposta, claro, ela não sabe falar.

Embora nosso relacionamento seja mais por intuição. E gosto de que seja assim. Pelo menos ficamos livres, eu e ela, do velho ditado popular "quem muito fala dá bom dia a cavalo". Converso o mínimo com ela, mas é o bastante.

Ainda agora, ela chegou perto de mim trazendo a bolinha na boca. Mas como estou raciocinando, não dei muita importância e, por isso, ela voltou com a bolinha.

Paro por um instante, chamo por ela e pergunto pela bolinha; logo, logo, vem ela com a bolinha de borracha azul na boca. Levanto-me e vou para a área para jogarmos uma “partida”.

Brinco um pouco com ela e retorno ao trabalho.

Uma coisa é certa: ela adora companhia, carinho e brincar. É muito sincera, honesta e fiel a minha boa e carinhosa Samantha!...

Devo confessar: gosto muito da Samantha! Tenho até dúvidas de quem gosta mais um do outro, se ela de mim ou se eu dela.

Brigas, discussões...

Entre nós não.

Tudo sempre correu muito bem, nossa amizade sincera deveria ser imitada por todos os seres humanos.

Mas não acontece o que seria mais correto entre nós, os seres humanos. Nossa vista, por incrível que pareça, não enxerga as coisas mais simples da vida, as mais saborosas.

Nós mesmos criamos os problemas. Quando um termina, surge outro e, assim, num círculo vicioso, vamos passando pela vida, e o sofrer vai ficando mais acentuado...

...

É mesmo ótimo. Eis ali a Samantha com a bolinha de borracha azul na boca, como se dissesse:

- "Vamos brincar?"

Olho para ela e digo:

- "Daqui a pouco brincaremos. Espere só um minutinho e lá iremos nós para o terreiro jogar bola. Eu jogo e você busca!"

E ela entende. E, calmamente, espera e aproveita para se coçar um pouco; enquanto isso, eu vou adiantando meu trabalho.

Somos assim, compreendemos os sentimentos um do outro.

Se ela fica magoada comigo? Acredito que sim, raras vezes. E percebo pelo seu olhar sério, parecendo dizer: "não estou gostando. Veja lá!"

Se fico magoado com ela? Não. Mas irritado, como já disse quando ela late imitando gato em momentos impróprios, pela manhã, acordando-me, ou bem à noite, incomodando-me também.

De resto, nada a reclamar, nem de minha parte, nem da parte dela. Somos bons de convivência.

Sempre lembro-me, ao anoitecer, de levar um pãozinho para ela, de preferência pão duro. Ela come a ração, mas aprecia um pão.

Somos todos parecidos, gostamos de comer certos alimentos e outros não. É comum. Conheço pessoas que não comem, por exemplo, quiabo e jiló, sem nunca terem colocado sequer um pedacinho na boca. Recusam e, em ambiente familiar, dizem: “não gosto!...”

Percebo o mesmo com a Samantha. Dependendo do tipo de alimento ou ração, ela cheira, cheira e sai quietinha, mas não come.

Todos temos nossas manias, boas ou não, desculpáveis ou não. Eu, por exemplo, aprecio torradinha bem-feita. Samantha já não come a torradinha! Tem pessoas que gostam da fruta manga, outras detestam. Assim é a vida quanto ao paladar.

...

Entro no escritório. Deixo a porta aberta. A porta que dá direto para a área, reduto de Samantha. Estou apressado e acho que nem olhei para ela. Fico ajeitando as coisas.

De repente, chega a Samantha trazendo na boca a bolinha de borracha azul.

Olho e nada digo. Continuo com os meus afazeres.

Ela sai e retorna, trazendo na boca outra bolinha com a qual costuma brincar. Percebo tudo e nada digo. Ela se coça, olha para mim e rosna em sinal de desagrado. Eu entendo o procedimento. Por isso, paro e vou lhe dar atenção. Ela merece. E, com isso, eu me distraio também e, ao voltar ao trabalho, fico mais tranqüilo, e os afazeres são concluídos em bom tempo.

De quando em quando, chamo por ela e sou logo atendido. Calmamente, ela vai chegando e lhe faço um carinho passando minha mão em sua cabeça. Ela gosta!

Disseram-me, certa vez, que principalmente os cães gostam de carinho e são muito atenciosos com seus donos.

A cachorra Samantha é de uma raça tida como excelente caçadora de aves.

O caçador, o homem, percebe, por exemplo, no caso da codorna, a sua presença em alguma moita, no campo, pelo procedimento sempre igual do cockie. E quando ele levanta a caça, o caçador atira e, rapidinho, o cão vai buscar a caça. Creio ser assim mesmo, sem certeza, pois nunca fui caçar. Um fato posso atestar. Se a raça é caçadora, muito mais digna de atenções é no lar.

Costumo até dizer aos amigos, desconfiados diante da presença da Samantha: “ela não morde, a criança pode até fazer travesseiro com ela de tão dócil e carinhosa!” O que, entretanto, não é regra geral, já que existem os cães de raça violenta e muito perigosos, inclusive para os seus donos. Alguns países proibiram até a sua criação, esterilizando os já existentes.

...

Olha ela ali, quietinha, observando-me. Se soubesse que escrevo a seu respeito, poderia até dar pulos de alegria!...

Quando bem higienizada, tosa, banho e pente, ela realmente fica linda, muito linda mesmo!...

As crianças de minha rua adoram a Samantha; e a recíproca é verdadeira! E gosto de que seja assim. Alegria para a Samantha, alegria para as crianças e alegria e orgulho para o seu dono, eu!...

Claro, é uma cachorra muito sadia!

...

Entretanto, até hoje, por falta de oportunidade ou mesmo por omissão de minha parte, ela não cruzou com nenhum macho de sua raça e muito menos de qualquer outra raça.

Olhando para ela, neste instante, estou pensando como fazer. Nenhum macho vai recusá-la, já que possui, por fora e no íntimo, uma feminilidade bastante acentuada. Com certeza, será uma excelente mãe. E mãe de uma prole exatamente como ela: bonita e carinhosa.

Vou pensar seriamente no caso. Buscar encontrar alguém que tenha um macho, de preferência loiro. Conversar, discutir o destino dos futuros rebentos, se ficarão aqui em casa para o devido cruzamento ou se na casa do proprietário do macho.

Não posso demorar em decidir, pois sei que ela sente falta de um amor em sua vida e de seus futuros filhotes ao seu lado. Mas...

Quando tudo acontecer e nascerem os filhotinhos, vai surgir um grande problema para mim e uma grande dor para os pais: a separação dos filhotinhos que, na certa, seguirão caminhos bem diferentes!

Só espero, se ela for dar crias, que siga o velho ditado "sem tirar nem pôr, tal fêmea, tal prole!" Garanto, muitos babarão de inveja!

...

Ei-la aqui, novamente, observando-me. Se pudesse adivinhar mesmo os meus pensamentos a respeito de seu futuro acasalamento, um "noivo" bem bacana, cansaria de tanto dar pulinhos de alegria!... Embora, eu, também, no momento, não consiga enxergar, ouvir o que se passa pela cabeça dela, não duvido que esteja pensando: "o que este babaca, meu grande amigo, companheiro e protetor, estará pensando? O que estará matutando a meu respeito, pois vira e mexe espia para mim de uma maneira diferente, enigmática!... Ah!... Ah, patrão! Você é o máximo!..."

E, mentalmente, do mesmo modo que ela, respondo: “obrigado, Samantha, você é ótima!”

...

Tenho observado, graças à Samantha, que a minha mania de utilizar meus rascunhos, amassá-los e jogá-los ao chão, se consolidou. É que, neste momento, percebi que ela apanha os papéis com a boca e fica esparramando-os pelo escritório onde trabalho, aqui perto da área que é de seu domínio completo. Sim, porque, se descuidarmos dos vasos de plantas, deixando-os ao seu alcance, ela os derruba, dando-nos enorme trabalho para ajeitar tudo de novo.

“É, Samantha, você gosta mesmo de chamar a atenção. Agora você está aqui, ao meu lado, com a bolinha de borracha azul. Tá bem, vamos lá fora brincar!...”

...

Num de nossos regressos, eu e minha família, ao chegarmos, logo ouvimos sua alegria através de seu latido. Pouca atenção demos, pois nossa preocupação era desarrumar as malas.

...

Abri a porta, e você entrou, toda molhada.

Estava chovendo e, por isso, de imediato, foi posta para fora.

Subi para o meu quarto e lá fiquei, como os outros, ajeitando as roupas.

Você chorava.

Não suportei aquela situação e desci para a área. Levei comigo dois pedacinhos de pão.

Ao perceber minha presença, tamanha foi sua alegria! Como a história do retorno do filho pródigo!

Entrei para o escritório e percebi que você procurava a bolinha de borracha azul.

A procura foi rápida. Logo, olhei e vi, em sua boca, a já famosa, para nós dois, bolinha de borracha azul.

Enquanto eu escrevia, você lambia as patinhas e, ao seu lado, como algo muito importante para você, notei a bolinha de borracha azul.

Eu mal podia andar, mas brincamos um pouco na sala de meu escritório. Você, toda fogosa, e eu, sentindo dores nas pernas!...

Ah, Samantha! Você não perde um lance meu! Fica observando cada movimento que faço. Se levanto da mesa de trabalho, você levanta a cabecinha, apanha a bolinha de borracha azul com a boca e fica esperando meu próximo lance. Se vou ou não brincar com você. Geralmente brinco, sim.

...

Ela sabe. Eu sei. Ela prefere mais o pão do que a ração. Mas é tratada com ração, mesmo. Sempre que desço para a área, levo comigo um pedaço de pão, de preferência um pouco duro. Abro a porta para a escada que vai dar na área; ela já olha para a minha mão e desce correndo, na minha frente. Eu percebo claramente: ela sabe que levo na mão um pedaço de pão!

Muito alegre, faceira mesmo, ela abocanha o pedaço de pão e segue comigo para o escritório. Fico escrevendo, e ela apreciando o pedaço de pão.

De repente, olho para ela. O pedaço de pão já era. Comeu-o e já está com a bolinha de borracha azul entre suas patas dianteiras.

...

Olha!

Olha ela aqui!

Ao meu lado!

Enquanto eu escrevia, ela veio.

Chegou de mansinho, pois não notei. Eu não percebi sua presença bem aqui, ao meu lado. Agora que ia saindo, ouvi o arfar. Olhei e a vi, segurando na boca, a bolinha de borracha azul.

Já sei. Ela quer brincar.

Olha para mim, como que insistindo: "vamos brincar, amigão?"

“Sim, querida amiga, vamos lá fora, para a área, brincar. Eu jogo a bolinha e você busca. Vamos lá!...”

Brincamos um pouco e fui fazer outras obrigações.

Mas nem por isso esqueci: ela gosta de um pedaço de pão. Prefiro dá-lo envelhecido, um pouco duro, mas não excedo, pois ela tá ficando gordinha. É preciso, para o seu bem-estar, ficar com o corpinho normal, nem magra nem gorda, esbelta.

...

Quando escrevo, costumo errar...

Retiro o papel da máquina, amasso e jogo no chão, atrás da minha cadeira. Samantha costuma brincar com o papel. Tudo bem, mas quando começa a mastigá-lo é momento de reprimenda. Porém, nossa amizade não é minimamente abalada.

Minimamente?

Com quem e quando aprendi essa palavra? Sei lá, parece que foi com um amigo italiano. Sim, deve ter sido com ele. Claro, já tem tempo, pois muitas vezes eu a utilizei.

- “Samantha, deixe o papel aí, pára de mastigar!”

Ela compreende perfeitamente e sai de mansinho. Dessa vez, ela saiu e voltou com a bolinha de borracha azul na boca. E já sei. Está me convidando para brincarmos.

...

E não é só comigo, não! Todos aqui em casa entendem e são entendidos por ela. Ela aprecia muito o carinho que todos dedicam a ela.

Quando viajamos, de vez em quando, no momento da partida, o seu latido fica diferente. Tenho convicção: ela sabe que vamos ficar ausentes, é a saudade antecipada, costumo dizer. Até seus "miados" são diferentes diante de situações novas. É muito interessante mesmo. Enfim, ela é parte da família desde o primeiro momento em que entrou em nosso lar.

...

Perfeitamente bem. Sabemos compreender, até através do olhar, o estado de espírito um do outro. Convivemos bem. Aceitamos, cada qual, sem repreensões, o deslize um do outro. O mau humor, a alegria, a necessidade de carinho, a irritação, o entusiasmo, a tristeza e muito mais são situações do estado de espírito muito bem compreendido por mim e por ela.

Estamos unidos, “na alegria e na tristeza”, como dizem. O nosso enlace não nasceu de repente. Foi ao longo de muitos e muitos dias. Consolidou-se! Até o seu modo de arfar sempre me diz algo! Somos uma dupla perfeita!

Pelo menos, assim penso!

Claro!

Claro!...

Sempre existe algum desajuste, mas nada que possa desfazer nossa amizade.

Eu compreendo!...

Ela compreende!...

E assim vamos vivendo unidos.

...

Escrevi alguma coisa.

Revisei outras.

Levantei-me para sair e Samantha saiu na minha frente, andando e olhando para mim. Olhei para o chão e vi a bolinha de borracha azul. Chutei-a e exclamei:

- “Samantha, olhe a bola!”

Ela parou, olhou para o chão e saiu correndo atrás da bolinha de borracha azul.

...

Um dia, aconteceu um fato interessante que nunca mais vou esquecer.

Período de férias. Fomos passar alguns dias fora.

Não levamos a Samantha. Ela ficou sob os cuidados da empregada.

Ao regressar, quando abrimos a porta da rua e fomos entrando, ela ouviu nossas vozes e de imediato começou a latir. Abri a porta da área, e ela entrou, saudando a todos com esfuziante e contagiante alegria e bom humor. Nunca vi igual! Se fosse homem, eu diria: “ela está assim porque encontrou o caminho do céu...”

Mas não. Era mesmo alegria, amizade, saudade, tudo misturado num buquê exuberante de carinho e amor sincero!

Sim. Eu acredito. Não tenho a mínima dúvida!

...

O cão entende, o cão fala através de seu latir.

Sempre percebo, em certas ocasiões, a mudança do latir de Samantha. Já percebi os diversos tipos de latidos dela e sei que ela tenta, em muitas ocasiões, diante de fatos diversos, conversar comigo. Absurdo, dirão! Não, não estou supervalorizando a cachorra Samantha. Muita gente diz que o melhor amigo do homem, o cachorro, é bem mais esperto do que imaginamos ser. Pelo latir de Samantha, sei quando ela tenta me dizer alguma coisa!...

Bem, seja como for, o fato é que amo Samantha! Tenham ou não razão os cientistas da Universidade da Califórnia que publicaram na revista New Scientist, matéria afirmando que o cão, através de suas várias modalidades de latir, pode está tentando dizer alguma coisa.

Tudo bem!

Ok!

Tá legal!

Etc.!

...

O “auê” é importante para mim, é Samantha e o modo como convivemos pacífica e ordeiramente, recebendo e dando carinho. Entendemo-nos muito bem.

É raríssimo. Mas acontece.

Por alguns segundos, você ficar irritada por poucos segundos. E logo você reassume seu bom astral, sem nenhum ressentimento com alguém. Você não sabe, nunca desejou, magoar ninguém. Você, Mone, é uma ovelha do bom rebanho do Senhor!

Diariamente, sou testemunha. Você trata todos com muito carinho. As frases "muito obrigada" e "por favor" estão sempre presentes em seus lábios.

...

Está chovendo. Vou ao escritório trabalhar um pouco. Abro a porta.

Eis que vejo, encostada nela, a minha querida Samantha. Só por mim querida? Não. Querida por toda a família.

- “Não, Samantha, você não pode entrar agora. Vamos descer. Vamos para a área. Venha, venha, tenho um pedaço de pão para você guardado lá no escritório.”

Eu desço os degraus e logo atrás vem ela toda fagueira.

Entro no escritório.

- “Samantha, cadê o pão? Tenho certeza que deixei em algum lugar.”

Procuro...

E não encontro.

- “É, Samantha, sumiu mesmo”.

Ela fica me olhando como quem dissesse:

- “Vá lá em cima e busque outro pedaço”.

- “Vou. Vou lá em cima, Samantha, e volto com outro pedaço de pão para você. Depois coloco pedaços de jornal em sua casinha para você ficar bem quietinha. Ok?”

Lógico, ela não respondeu. Não sabe falar. Mas compreendeu através da alegria em seus olhos e pelo jeito com que me olhou fixamente.

- “Vamos? Então vamos. Não vou trabalhar mais hoje. Vamos lá, vou buscar o seu pãozinho. Sei que você gosta muito. Vamos lá...”

Subimos as escadas. Procurei pão. Não achei. Tinha biscoito e torradinha. Não a deixei entrar em casa. Ela esperou do lado de fora. Descemos juntos as escadas. Coloquei em sua vasilha de comida. Não sei se ela vai gostar. Amanhã terei resposta. Se a vasilha estiver vazia é porque gostou!

...

No dia seguinte...

Se gostou, não sei. Nem saberei.

Porém, sua vasilha está vazia. Gostando ou não, ela comeu.

...

Hoje, voltei a lhe dar torradinha, é mais leve, ela não pode engordar. Seu peso atual é o ideal.

Falando em peso, uma de suas posições que admiro muito é quando, trabalhando, paro de escrever, procuro por ela e a vejo, deitada com as patas para a frente, olhando firme e pensativa para mim.

Pensativa? O que ela estará pensando? Não sou bonito, não sou cachorrinho. Afinal, eu pagaria para saber em que ou no que ela estará pensando quando fixa seu olhar firme e pensativo em mim. Nunca, com certeza, terei a resposta. É o mesmo que perguntar: "Deus criou tudo. Quem criou Deus? Ou. Um só, Pai, Filho e Espírito Santo. Como entender?”

Eu posso, ignorantemente, conjeturar: “eu sou!” Ou: "eu sou tudo, sou o universo, astros, forças etc.”

Mas, e daí? E eu mesmo respondo: “coisa de ignorante...”

Ah!... esqueci de comentar: ela adora, como cães de outras raças, mastigar um pequeno osso.

...

Hoje, mês de maio, houve comemoração de uma bonita data. Escondido de todos, levei um pedaço de bolo para ela. Com adorou!... Queria mais. Não dei com medo de atrapalhar sua digestão, o que não é nada bom!

...

No outro dia, desci para a área, após Samantha ter latido muito, parecendo exigir minha presença perto dela, para levar-lhe um pedaço de pão molhado no leite.

Ela adorou!

Brincamos, após o meu trabalho, com a bolinha de borracha azul.

Sinto-me bem, descontraído. Ela também.

Eu chuto a bola, e ela vai buscar, apanha-a com a boca e traz para mim.

Algumas vezes, ela fica com a bolinha na boca e não quer me entregar. Levemente, com a ponta do pé, tiro a bolinha de sua boca e continuamos nosso lazer. É bom para "chuchu!", como dizem na gíria.

...

Amanhã, se não me esquecer, vou fazer um pãozinho especial para ela. Parto o pão ao meio, coloco azeite, tempero e leva ao forno. Tenho certeza de que ela vai gostar!

...

Tenho uma pilha de quadros atrás da porta do escritório. Ela, quando está um pouco assanhada ou ansiosa para irmos brincar, fica correndo prá lá e prá cá. De quando em quando, esbarra com força na porta e lá se vão os quadros para o chão. Sem prejuízo. Só dá trabalho em recolocá-los na posição anterior.

...

Estou escrevendo. Olho para o lado e já vejo a bolinha de borracha azul. Samantha foi lá na área buscá-la.

Continuo o meu trabalho. Daqui a pouco vou chamá-la para brincarmos.

E assim, gostosamente, vamos vivendo, cada um, inclusive os familiares aos quais dedico o meu maior amor, nossos dias. Vivendo cada dia.

À noite, ajoelho, fecho os olhos e agradeço o nosso dia e peço para o dia de amanhã: segundo a Sua vontade que sejamos merecedores do que necessitarmos. Não peço iate, carrões, nem muito dinheiro. Uma vida simples, bons amigos e amigas, união entre os familiares e fé.

Tenho pouca fé, principalmente aquela relacionada com a religião, mas acredito em meu Pai. Vou juntando experiências, erros e acertos, meditando, lendo, observando, objetivando que à "minha” fé, nem que seja aos pouquinhos, migalhas sejam somadas a cada dia vivido.

...

Novo dia.

Ao entardecer, como sempre, desci para o escritório. Fui fazer, como sempre, o meu trabalho.

Assento.

Começo a escrever.

Samantha está ali, como de costume, deitada no chão com as patas esticadas para frente. Olhei para ela e disse:

- “Samantha, você está triste!”

Sim. Claro, ela não respondeu. Não sabe falar, porém conheço as suas emoções, seus gestos. Exprime emoções através dos olhos, pelo rabinho quando alegre fica mexendo-o. Enfim, conheço Samantha muito bem também por todo o seu semblante.

...

Hoje, notei outro detalhe. Além de sua posição normal, está com o rostinho colado ao chão. É... sem dúvida, uma nova postura. Não olha para mim. Parece olhar para o chão, para as patas, ou está cansada e tenta cochilar.

Já escrevi o tanto que basta por hoje.

Vou fazer como Samantha. Recostar-me na cadeira, em postura de um provável descanso para a coluna, colocando-me em posição reta, sem curvar-me, o que faço quando escrevo. Vou fechar os olhos e meditar...

...

Novo amanhecer.

O sol brilha, brilho lindo!

O padeiro, como sempre, bate na janela, no mesmo horário de sempre, quando é prontamente atendido.

Bate novamente.

Mais uma, duas e mais vezes.

Nada.

Ninguém atende.

Decidi olhar pela fresta da janela.

Vejo um homem caído no chão, papel na mão e uma linda cachorrinha, chorosa, deitada ao lado do homem, imóveis ambos. Ela, a cachorrinha, chora!

...

Depois daquele dia, nunca mais foi ouvido o barulho das teclas da máquina de escrever. Nunca mais foi usada.

Deve estar enferrujando, sem pretendentes, em algum ferro velho para ser vendida, por preço irrisório, como ferro vendido em quilos.

Sim, com certeza!...

Quanto à cachorrinha, desapareceu.

Nunca mais foi vista!...

Karuk
Enviado por Karuk em 06/06/2006
Código do texto: T170620