KAFKA

Tarde cinza em Praga. Por ruas fechadas vou andando, olhando apenas meus passos, ou meus sapatos fechados, ou as pedrinhas das ruas. Por que em qualquer lugar que se ande existem pedrinhas nas ruas, assim pelas calçadas, distribuídas como se alguém as tivesse espalhado?

Coloco ambas as mãos no bolso do sobretudo – é um sobretudo? – pode ser, fica sendo; ando assim com cada passo comedido, com aquela morna sensação de medo dentro de mim.

Agora olho para frente, e aos poucos a atmosfera cinza vai se abrindo aos meus olhos sem que se desfaça sua nebulosidade cinza. É um dia de verão, embora não se pareça. Junho. O verão está no começo. Virão dias mais quentes, tépidos – posso acreditar, enquanto ganho com meus passos comedidos uma pequena pontezinha que atravessa um ribeirinho pouco barulhento.

Lá esta ele, de sobretudo cinza, chapéu preto na cabeça. Vejo-o de perfil, encostado sobre o batente da ponte, olhando o curso do ribeirinho?, Se me parece. Não, ainda não posso avançar. Quanto custa avançar? São dias desse meu silencio doido, olhando-o ali sempre no mesmo lugar. Às vezes vi-o de tão perto, tão perto: suas sobrancelhas negras e grossas, seus olhos tão fundos que se nos olha entra na gente, despedaça-nos, porem nos escapa sempre tão humildes.

Hoje, decididamente hoje, criaria coragem e lhe diria “oi”, simplesmente “oi” como quem não quer nada mais que duas letras em resposta. Todavia vendo aquelas mãos ossudas, grandes, de dedos longos, unhas roídas?, Ah queria, mas ele parece nem tocar o batente da ponte, as mãos entrelaçadas, fechadas uma na outra parece segurar algo que não quer deixar cair de jeito algum no ribeirinho.

Aproximo-me cautelosamente, meus passos parcimoniosos, mas no peito arde algo que me faz haurir o ar sofregamente. Estou ao lado dele, mas ele parece paralisado como uma estatua. Será sorriso aquilo de repente em seu rosto um pouco escaveirado? As orelhas grandes e um pouco pontudas se mexendo diante do possível sorriso, o sorriso que parece sangrar dos lábios tão finos daquele rosto moreno, daquela face casmurra, mas não de um casmurro, Casmurro, apenas um casmurro que afeita humildade e pede silencio.

Será para ouvir o silencio que ele vem aqui?

Sim, pareceu sua resposta quando olhou para mim, e afastei meu rosto com medo. Não medo dele. Medo disso. Disso. Tenho medo desta estranheza aguda.

Afasto-me. Desistindo? Acho que sim, e vou atravessando a ponte em rumo ao outro lado, mas relanço os olhos por sobre os ombros para ver se ele continua ali. Se não, estará amanhã. Estará? Ele vem vindo na minha retaguarda; diminuo os passos. Angustia. Opressão. Medo. É tudo isso, mas o que não se nomeia. Um arranhão de leve, mas ardido no âmago. Bem no centro mole do âmago.

Ele acaba de me alcançar. Esta ao meu lado, virou seu rosto para mim. Tirou o chapéu em sinal de respeito. Devolvo-lhe o sorriso, mas é seu sorriso que eu quero continuar vendo.

_ boa tarde - sua voz e tímida.

_ boa tarde – respondo com vergonha, porque é inacreditável que esteja falando comigo. Sempre acreditei porem nunca achei que fosse mesmo possível.

Estanco. Estancas ao meu lado, e suas mãos ganham os bolsos do sobretudo; seu semblante abaixa. Será um sonho? Encafifo. Quero suas mãos; mãos grandes de homem que escreve atormentado. Dir-lhe-ei que tenho seu livro: A metamorfose. Mas não acho que Gregor Samsa seja ele. Não, não pode ser. Ele nada se parece com um inseto.

_ Gosta também desta pontezinha, desse ribeirinho? Indagou-me.

Vamos lá, não, não, venho aqui só porque descobri que você esta aqui todas as tardes – mas até quando?

_ Venho para te ver.

Ele enrubesceu. Enrubesceu, e os lábios pareceram tremer, os olhos piscarem. Não, não, eu não poderia ter dito – senti um amargor vendo seus olhos piscarem daquele jeito atônito, seus lábios tremerem, o moreno da sua pele tornando-se mais baço.

_ Perdão – balbucio que escapou com a mão débil que sustentei no ar, inutilmente tentando o agarrar, porque ele escapulira, assim, correndo, virando de costas, sem ao menos olhar para trás.

Ate mesmo Kafka eu perderia. Eu perderia sempre. Sem saber como iniciar. Aquelas mãos que se abriram, dependuradas no batente da ponte, aquelas mãos jogaram rio abaixo algo que não era bem meu, que eu tinha ilicitamente, mas perdi, e perdi, e ele parecia segurar bem firme para mim, só para mim.

Rodney Aragão.