UMA XÍCARA DE CAFÉ PARA O DR. FRANZ

Precisava de um advogado. Questões trabalhistas. Achou-o naquele escritório num vigésimo nono andar de um edifício cujo elevador já veio o assustando, subindo, subindo; frio, o frio na barriga aquilo subindo.

Dr. Franz, fora o que indicara o próprio sindicato, onde recebera o seu parco soldo de rescisão. Cobrava honorários baixos. Trinta por cento do valor recebido.

Dr. Franz. Imaginava um homem franzino, muito mal ajambrado num terno velho, mas não imaginava encontrar aquele rapaz moreno, orelhudo, cabelo um pouco estilo militar, mas com volume na parte de cima, partido ao meio; vasto e negro cabelo assim como seus olhos espantados. Atrás da mesa percebia-se sua altura boa; os ombros largos, as mãos grandes, aquela que abandonou a caneta que escrevia para atendê-lo, e em seguida mostrando-lhe a cadeira a frente para que se sentasse.

Eu vim aqui, foi tentando com a voz tartamuda, encabulado. O Dr. Franz sorriu as orelhas pontudas destacando-se.

Estou a seu serviço meu bom rapaz, disse olhando os papéis sobre a mesa, a voz amena, mansa, dócil também.

Seus serviços, dizem aqui, atrapalhou-se buscando um pequeno panfletinho que veio do fundo do seu bolso acompanhado com farelinhos de biscoitos. Colocou o papelinho com o anuncio rosa em cima da mesa de tampo plástico preto. O Dr. Franz pegou com seus dedos longos o papelinho, olhou para os olhos humildes do seu interlocutor; olhos de peixe morto, e definiu: vinte por cento para você.

Por que, perguntou-se admirado, emocionado, mas nada disse, ficou apenas sorrindo bobo para o advogado orelhudo, de ombros recurvos, mãos grandes, olhos atormentados.

Roger dos..., meu nome, e pode apertar novamente a mão imensa do Dr. Franz. Aquela mão imensa engolia a sua tão pequenina.

O senhor fica sempre aqui, perguntou Roger.

Nem sempre às vezes fico no fórum, disse remexendo-se em sua cadeira. Roger abaixou os olhos e viu por baixo da mesa seus sapatos, aqueles pés grandes do Dr. Franz. Devia calçar 46. As pernas pareciam grandes também ali por baixo da mesa.

Pegou a caneta e num papelinho branco e bem recortado riscou o numero do telefone, não apenas do seu escritório como também de sua residência. Entregou-o desviando o rosto.

Que horas posso ligar para o senhor, perguntou Roger.

Uma hora que seja conveniente, respondeu ele sorrindo, pegando de novo o oficio que estava a escrever assim que ele chegara.

Está tudo certo então, disse de pé Roger, acanhado, olhando-o um pouco fixamente. As mãos apertaram-se novamente. Aquela mãozona engoliu a sua de novo. O Dr. Franz não se levantou acompanha-lo ate a porta, contudo pediu ao seu novo cliente se seria possível fazer a gentileza de pedir na portaria que o mandasse uma xícara de café. Sim, pois não, aviso, disse tremulo sem saber por que Roger, perguntando, se era para bater a porta, logo em seguida. Deixe apenas encostada, pediu levantando os olhos espantados do oficio.

Na portaria Roger transmitiu a mulher de meia-idade, muito maquiada, de cabelo preso com uma caneta em um coque, atrás do balcão da recepção, o pedido d do Dr. Franz.

Que judeuzinho folgado, disse ela num murmúrio irritado, sem ao menos olhar para o que lhe transmitia o recado; os olhos duros baixos pelas lentes grossas dos óculos.

É só uma xícara de café, pensou Roger e mesmo hesitou se dizia ou não o que acabara de pensar, mas viu que a mulher já interfonava transmitindo o pedido, laconicamente, para a cantina. Roger resolveu sair sem nada dizer, guardando bem guardado em sua carteira o papel com o numero do telefone do Dr.Franz.