A última guerra (Primeiro capítulo de uma história em desenvolvimento)

“O estado de paz entre os homens que vivem juntos não é um estado da natureza (estatus naturalis), que é antes um estado de guerra, isto é, ainda que nem sempre haja uma eclosão de hostilidades, é, contudo, uma permanente ameaça disso. Ele tem de ser, portanto, instituído, pois a cessação das hostilidades ainda não é garantia de paz e, a menos que ela seja de um vizinho a outro (o que, porém, pode ocorrer somente em um estado legal), pode um tratar o outro, a quem se exortara para tal, como um inimigo.”

Immanuel Kant em “À paz perpétua”, L&PM POCKET, Porto Alegre – RS, 1989.

“Você foi um herói hoje, Varian, um herói” – diz a atriz Julia Ormond vivendo a personagem “Miriam Davenport” no filme Fronteira da Liberdade, cujo personagem “Varian” é estrelado pelo ator William Hurt.

“Não mesmo. Foi só encenação” – replica ele.

“Foi muito mais do que isso” – observa ela. “Acho você um grande homem, que tem coragem de encarar grande perigo, se necessário. Você disse que achava minha ‘fraqueza sexual’ agressiva. E eu respondi que era uma defesa. Bem... é verdade. Mas nem sempre. Às vezes, ela vem de um lugar mais profundo. Eu gostaria de dormir com você hoje”.

Ele a olha surpreso; ela o beija.

“É muita bondade” – ele diz, menos entusiasmado com a proposta do que ela espera. Ambos riem.

“Bondade?” – ela se surpreende. “Sou bem melhor que isso, Varian, pode apostar”.

“Eu tenho certeza disso”, reconhece ele, galante. “Sou um homem casado e tal; você sabe como é”.

“Sim, eu sei, mas estamos no meio de uma guerra” – ela lembra. “Navios passam à noite. E você é um homem especial. E eu coleciono homens especiais” – insiste ela.

E ele diz: “Talvez eu seja um pouquinho especial demais”.

Transcrito a partir de uma cena do filme Fronteiras da Liberdade (Varian’s War – The forgoten Hero), EUA, 2000.

“Não existem guerras boas ou más. A única coisa ruim a respeito de uma guerra é perdê-la”.

“Chinasky”, personagem do livro Misto Quente, de Charles Bukowski.

1

Aquele era um livro que a Imperatriz sempre gostava de reler.

Ele falava de relações entre sexos e estilos de vidas que, felizmente, já não mais existiam, mas cuja importância histórica a Grande Senhora Imperatriz do Mundo fazia questão de mencionar as suas muitas filhas discípulas, durante suas palestras ao redor do planeta, a fazê-las jamais esquecerem suas responsabilidades de manterem a atual feminilidade do mundo.

A Grande Imperatriz pegara o livro novamente.

Como dizia a introdução, o problema da subjugação feminina permanecera mergulhado durante décadas na mente das mulheres. “Era uma insatisfação, uma estranha agitação”, dizia o livro, “um anseio” de que as mulheres começaram a padecer lá pela metade do século XX. “E cada dona de casa lutara sozinha com ele, enquanto arrumava camas, fazia as compras, escolhia um tecido para forrar o sofá, fazer as cortinas, comia com os filhos sanduíches de creme de amendoim, levava os garotos para as reuniões de lobinhos e fadinhas e deitava-se ao lado do marido, à noite, temendo fazer para si mesma a silenciosa pergunta: É só isso”?

- Grande Senhora? – disse Psiquê, entrando de repente sem bater nos aposentos da Imperatriz. – Trago-lhe más notícias.

- Más notícias geralmente são prenúncios de boas. E não fosse tu uma de minhas mais queridas e mandaria suprimir tua porção do complexo da juventude. Já que estás aqui, diz o que houve para que eu saiba o que fazer e, então, receber de te as boas notícias. Teu escravo não está a satisfazer-te?

- Não é isso, Senhora. Hugo é um bom escravo.

- “Hugo”? Estás a chamá-lo por um nome. Esqueceste que é o primeiro passo para o apego? “Escravo” é o nome dele. Não te esqueces. Que outra má notícia traz-me além de me demonstrar estares atraída por um de teus servos a dar-lhe exclusivo afeto?

- Escaparam aqueles que perseguíamos – disse Psiquê, voltando a falar sobre o que a havia levado até ali.

- Gostaria de saber por que Deusa protege essas criaturas nefastas.

- Talvez por amor, Senhora – replicou quase sussurrando Psiquê, um tanto envergonhada de ter deixado escapar um comentário sobre o Amor, um sentimento sobre o qual a Grande Imperatriz tinha proibido todas de falar. – A despeito de que, como fêmeas, somos justas expressões primeiras da Vida, e apesar do artigo masculino que precede a palavra “Amor”, sempre nos falaste sobre ele como um sentimento feminino, referendando parte que caberia aos homens desenvolver em seus espíritos à finalmente tornarem-se completos e os sentidos humanos da Fêmea Suprema, ou da Vida que tudo gerou a plena expressão de Si mesma.

- O afeto – resmungou a Imperatriz – uma sombra do que poderia ser o Amor, é também sentimento de gênero masculino. Mas quantos homens outrora sentiam de fato afeto pelas mulheres que alegavam “possuir”? Ou afeto por si mesmos, por seus semelhantes machos, pelas crianças, pelo mundo que por tanto tempo pensaram dominar? E quantas vezes tentaram destruí-lo, a despeito das súplicas daquelas nossas ancestrais maltratadas pelos porcos chauvinistas, que urravam para que fossem estabelecidas boas relações entra o Amor e a Paz?

- Infelizmente não posso me demorar convosco a participar de conversa tão estimulante – observou Psique, que tendia a expressar perigosamente suas discordâncias das idéias da Grande Imperatriz – porque, como disse, escaparam dois dos que tentávamos capturar.

- Mais dois a vincular-se aos que atentam para o herético discurso daquele desgraçado bastardo filho da Vida. Deixa. Não te preocupes com eles. Mais dias menos dias, e estamos cada vez mais perto de erradicarmos o gênero masculino de sobre a face da Terra.

- Penso se não seria melhor se poupássemos os machos restantes para que...

- Pensas demais, Psiquê.

- Que queres que eu faça, Senhora? – perguntou Psiquê, aproximando-se mais da Imperatriz e de seu escravo, adormecido nu sobre a cama.

- Nada, por enquanto – disse a Imperatriz levantando-se, deixando à mostra seu corpo nu, exuberante de seios, curvas, coxas e o longo cabelo negro a escorrer-lhe sobre as costas morenas. – Deixa que se reúnam com o Grande Calhorda. Sinto os pensamentos dele. Ele sabe que não sobreviverão sem meu apoio e que jamais darei o apoio que precisam. Assim, será apenas uma questão de tempo para que morram.

- Tenho outra má notícia.

- Alguma boa?

- Um estoque do complexo da juventude desapareceu.

- Isso já é diferente – disse a Imperatriz. – Priva-a de sua cota a responsável por sua guarda e a destitui do cargo. Envelhecerá e morrerá dentro de uma semana.

- Mas...

- Ouve querida Psiquê: como fêmeas, somos adeptas da compaixão, outro atributo de gênero feminino, mas, para conquistar o mundo dos homens, temos ainda de agir como eles. E enquanto um único homem estiver livre sobre a Terra, estaremos em guerra com tais representantes desse gênero nefasto. Ainda não há tempo para a prática da compaixão.

- Compreendo.

- Compreendes, mas não concordas; eu sei. E então? Qual a boa notícia que tens a me dar?

- Perdoe-me, Senhora. Temo tê-la esquecido.

- Tu, esquecer? Estais a zombar de minha inteligência?

- Absolutamente, Senhora. É que...

- Vai, então, e procura lembrar-te logo o que tinhas de bom a me dizer.

- Com sua licença – pediu Psiquê, e então saiu, deixando novamente a Grande Imperatriz a sós com seu escravo e seus escritos da história de Suas conquistas.

Depois que dispensasse seu escravo, ela finalmente chegaria a escrever o capítulo onde narraria história da última grande guerra que houvera no mundo, aquela que ela comandara para conquistar o poder total daquilo que, outrora, tinha sido considerado “o mundo masculino”.

Depois que, em antigos contos sobre as histórias do princípio dos tempos, soubera que aquela chamada “Eva”, aquela primeira “costela” revolta não tivera sido somente “uma parte” daquele chamado “Adão” – que, na interpretação da Grande Imperatriz, não poderia ter sido moldado do barro por um deus bondoso, mas das fezes de terríveis monstros primeiros por um demônio – e que não era Eva ainda aquele “irmão” esperado que Adão teria mais tarde e aqueles filhos varões a jurarem-lhe fidelidade e devoção, como ao “Deus” que disseram ter-lhes criado.

Aquela, chamada “Eva”, pois, fêmea, “amiga de demônios”, como a tiveram classificado velhos patriarcas, que surgira diante de Adão depois daquela sua noite mal dormida cheia de dores e proféticos sonhos, de onde despertara “sem uma parte de seu corpo” – ou aquilo que mais tarde reconheceriam como sua “porção mulher” – aquela, pois, chamada “Eva”, era, de fato, outra criatura, de formas e odores outros, “tão atraente quanto o mal que se lhe tinha havido gerado” – como advertiam velhos patriarcas, tendo no tórax grandes massas de músculos arredondadas, com salientes bicos cor-de-rosa, de onde brotaria certo alimento primeiro a sustentar ao usufruto da Vida aquele chamado “Adão” e, depois, daqueles outros filhos que, saindo do útero de Eva, se espalhariam sobre a Terra como pragas.

Para Adão, ignorante de certas coisas – como talvez devesse ter permanecido – Eva era ainda apenas aquele outro dele mesmo, aparentemente isento de aparelho reprodutor, já que sem pênis ou testículos. Embora um tanto parecida com aquele pretendido “homem”, ela era “apenas uma mulher”, disseram depois, “de sabedoria tão duvidosa quanto de uma criança, um animal feito de cabelos longos e idéias curtas”; aquela que tinha sido feita “apenas” como abrigo das reproduções biológicas pré-humanas da Vida num amontoado de outros tantos atrativos, com seus jeitos e trejeitos. Aquela primeira, pois, como todas depois dela, tinha sido gerada com a finalidade secreta de encaminhar o macho humano, mais forte em músculos e imaginação, ao domínio final de seu desejo mais profundo: usar sua grande inteligência e descomunal força de trabalho a possuir os segredos das constituições das formas e transformações da Vida, dominá-las a imprescindível conquista de Seus segredos à criação complementar de tudo então presente no mundo.

Entretanto, naquelas épocas primeiras, embora ainda apenas somente tais fortes impulsos intuitivos guiassem os pensamentos, os desejos e ações das mulheres, nenhuma tinha consciência ainda de todo poder que lhe fora dado pela Vida à realização de Seu plano de conquistas e plena dominação de Si mesma.

*