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O Encantador de Pássaros

Capítulo 1

Uma trilha de tijolos vermelhos cortava o gramado e subia rumo a uma casinha que soprava fumaça pela chaminé. Fumaça brilhante, como pó de estrela, dançante e vagarosa. A pequena Melissa subia a colina seguindo o caminho de tijolos, trazia um cesto pesado nas mãos. Vinha com um sorriso orgulhoso no rosto, adorava quando sua mãe lhe confiava alguma tarefa. Ela estava levando a comida que o Encantador de Pássaros encomendara.
Ele vivia na casinha da colina e descia de lá apenas uma vez por semana. Melissa não o conhecia pessoalmente. Mas já ouviu muitas histórias sobre seu trabalho e as apreciava bastante. Todas cheias de mistérios e sonhos.
Depois do longo caminho de tijolos, ela encontrou um imenso campo verde aos pés de uma montanha de pedra azulada que acomodava sobre si uma nuvem preguiçosa e carente. Ela sentira-se tão pequena quanto um grão de areia, como uma lágrima em um oceano. Melissa olhou para a casa, não estava longe, precisava apenas atravessar um campo de flores coloridas. Havia muitas delas, de todas as cores e espécies. Seus perfumes se misturavam e brincavam com a brisa que vinha do alto da montanha. Ela continuou a andar, estava encantada, nunca vira flores tão bonitas e tão vivas. A casinha ficava no meio das flores e ela mal acabara de passar por elas e já estava diante da porta, era de madeira e estava empenada por causa das chuvas. Havia um sininho dourado pendurado em um prego. Ele estava muito alto e, provavelmente, ela não conseguiria alcançá-lo. Colocou o cesto no chão, tomou distância e saltou. Ela sentiu quando seu dedo indicador tocou de raspão no sininho. O barulho frio e estridente fez as flores balançarem, como se respondessem ao chamado com suas vozes cheirosas e macias.
- Ele não está em casa – Melissa pôde ouvir.
Ela voltou-se para as flores, sentou-se no degrau que levava à pequena varanda e pregou os olhos no horizonte. Não demorou muito para que o Encantador aparecesse. Primeiro ela viu apenas um pontinho cinzento que se movia devagar, mas insistentemente. Depois de algum tempo ele se tornou a silhueta de um homem, de um homem e uma bengala. Ele chegou mais rápido do que Melissa imaginava. Era um senhor com cara de avô. Olhos azuis, barba rala e branca e barriga redonda. Vestia uma calça de suspensórios e um blusão de algodão. Andava com a ajuda de uma bengala e não ia a lugar algum sem ela.
- O que faz aqui, pequena? – ele abrira um sorriso ao ver Melissa, apoiou-se na bengala. Parecia um pouco cansado por causa da caminhada.
- Eu trouxe sua encomenda.
- Que ótimo! Por que ainda não deu para eles comerem? – seus olhos reluziram.
- Para quem? Não tem ninguém aqui! – ela disse sem entender.
- Venha até aqui.
Melissa desceu até o jardim. Nunca sentira tanta confiança em alguém. Nem em suas amigas ou em sua mãe. O encantador possuía algo que lhe confortava, algo que diminuía suas inseguranças.
- Traga o cesto – ele acrescentou. – Se sua mãe preparou o pedido direitinho, deve ter um punhado de pães de milho aí dentro.
Ela retirou o pano que cobria o cesto e sob ele havia dezenas dos mais saborosos e fofos pães de milho que existem em todo o mundo.
- Tem um monte deles aqui! – ela exclamou. – Vai comer isso tudo sozinho?
- Não, não! Claro que não – ele sorriu outra vez.
- Então, o que vai fazer com tanto pão?
- Pegue um deles e esfarinhe até sobrar apenas pedacinhos bem pequenos.
Melissa fez como ele dissera. Ficou com as mãos cheias de pedacinhos de pão.
- Agora olhe para o céu, para o mais alto que você puder olhar e jogue as migalhas para cima, mire nas nuvens.
Ela olhou para ele e depois para o azul, o sol continuava brilhante e, com certeza, assim como o Encantador, tentava conter um sorriso. Melissa jogou os pedacinhos de pão para o alto e no instante em que eles ganharam o ar e atingiram o céu uma revoada de passarinhos se desprendeu das nuvens, da montanha, do sol. Eles vinham de toda parte para comer as migalhas que ela jogara. Eram centenas, milhares, milhões. Ela pegou outro pão, esfarinhou e jogou para o alto. Melissa perdera a voz, era maravilhoso. Eles voavam como um grupo de bailarinos e cantavam como a mais famosa das orquestras tocava. Rodopiavam ao seu redor, brincavam com seu cabelo e arrancavam seus sorrisos mais puros. Todos eram brancos, pareciam passarinhos de neve ou de nuvem. O sol os fazia brilhar, como pequenos anjos velozes.
  Quando os pãezinhos acabaram os passarinhos pousaram nas flores do jardim. Melissa continuava sem dizer nada. O Encantador lhe estendeu a mão, ela segurou nela e juntos caminharam até a casinha. No céu não havia mais nuvens, apenas azul e mais azul. O branco dos passarinhos se misturou às cores das flores e o sol os iluminou.
- Você quer entrar? Podemos conversar um pouco antes da noite cair.
- Posso voltar outra hora? Talvez amanhã?
- Sim, claro. Será uma alegria. Esperarei por você então!
- Pode esperar sim – ela lhe deu um abraço.
- Espere um minuto, Melissa. Tem uma pena no seu cabelo – ele a pegou entre o indicador e o polegar.
- Obrigado.
- Leve ela para você, penas brancas trazem sorte.
- Obrigado outra vez – ela disse sorrindo, pegou o cesto vazio e saltitou rumo a trilha de tijolos vermelhos.
Os passarinhos levantaram vôo. Todos juntos e voltaram para seus lugares. Nuvens, sol e montanha. Melissa olhou para trás, o encantador ainda estava de pé na varanda. Ela abanou a mão e ele retribuiu com um aceno. Ela desceu a colina seguindo os tijolos, sentia-se leve e livre, como um passarinho.

Capítulo 2

A casa onde Melissa morava não era muito bonita, mas era espaçosa. Embora houvesse muito espaço, a casa ainda era pequena para tanta gente, aliás, para tanta criança. Ela vivia em um orfanato. Sua família desapareceu em um incêndio e desde então ela vive com sua nova mãe, Isabela.
As crianças mais velhas, garotos e garotas, trabalhavam na confeitaria que sustentava o orfanato. Ajudavam Isabela da melhor maneira que podiam. Melissa gostava quando podia fazer algo útil e sempre procurava algum trabalho para fazer. Mas como ainda era pequena, não recebia muitas tarefas por isso passava a maior parte do dia sem ter o que fazer.
Quando o dia amanheceu ela já estava prontinha para ir visitar o Encantador. Tomou o café da manhã como um relâmpago, escovou os dentes, penteou o cabelo e correu para a trilha de tijolos.
A casinha estava no mesmo lugar, entre as mesmas flores e sob o mesmo céu. Ela correu até a entrada e com esforço tocou o sino. A porta abriu-se rapidamente e os olhos do Encantador acertaram seu rosto.
- Como você veio cedo! – ele bocejou.
- Me desculpe!
- Não tem problema. Fico feliz em ter companhia para o desjejum – estava descalço e com o rosto amassado. – Entre, não fique parada aí fora.
Ela escorregou para dentro. A casinha era pequena, apenas um cômodo. Ficava tudo junto, lado a lado. Cama, armário, mesa, fogão, pia. Havia um tapete muito sujo que cobria quase todo o assoalho. Vários poleiros se seguravam nas vigas do telhado e havia um enorme caldeirão no fogo.
- Estou cozinhando isso desde ontem e acho que ficará pronto só amanhã – ele olhou para o caldeirão com desânimo.
- O que é?
- Uma surpresa. Quando ficar pronto você saberá.
- Vou tentar esperar – eles sorriram.
- Vai querer comer algo, pequena? – ele puxou uma das quatro cadeiras da mesa e fez uma mesura. Ela foi até lá e se sentou.
- Vou querer uma maçã vermelha, um pêssego e seis uvas.
- Você acha que dizendo baixinho assim eles vão trazer o que você quer?
- O que?
- Você precisa gritar – ele encheu os pulmões. – Bananas, ameixas e amoras – o Encantador gritou. – Agora é sua vez.
- Maçã, pêssego e uvas! – ela gritou também.
Tudo ficou silencioso e quieto.
- Acho que não funcionou – Melissa disse.
Quando ela fechara a boca o sininho da porta tocou repetidamente. Quem quer que fosse estava com muita pressa.
- Eles chegaram – o Encantador sorriu – Abra a porta para eles.
Melissa se levantou e abriu a porta. Seis pássaros entraram. Cada um trazendo uma das frutas que eles pediram. O primeiro trazia um cacho de seis uvas no bico, ele tinha as penas do rabo longas e avermelhadas. O segundo trouxera o pêssego, era azul e tinha o bico curto. O terceiro e maior deles trouxe as bananas, tinha as garras fortes e as penas amarelas. Os últimos três eram idênticos, trigêmeos eu diria, e trouxeram as outras frutas. Ameixas, amoras e uma maçã. Eles voaram até a mesa e colocaram as frutas em uma grande fruteira de vidro. Pousaram por um segundo nos ombros do Encantador e depois saíram pela porta. Melissa estava boquiaberta.
- Então, vamos comer!
As uvas estavam um pouco azedas, mas a maçã estava deliciosa.
Ela estava muito curiosa para saber como ele conseguia encantar os pássaros, entretanto não tinha coragem o suficiente para perguntar.
- Está delicioso. É muito difícil encontrar destas frutas nessa região.
- É verdade, por isso tivemos que procurá-las bem longe daqui.
- Você vive aqui sozinho?
- Sim. E você? Mora com quem?
- Eu moro no orfanato. Com a Isabela.
- Você sempre morou lá?
- Não! Eu já morei com meus pais. Mas o incêndio os tomou de mim.
- Como eles se chamavam?
- Eu não me lembro.
O Encantador ficou triste. Queria muito poder ajudá-la e tratou logo de pensar em alguma coisa.
- Agora que já comemos, venha até aqui fora que quero lhe apresentar a alguém.
Eles se levantaram e foram até o jardim. Entre as flores havia um pássaro marrom e cinza.
- Esse é um pássaro mensageiro muito especial.
- Não vejo nada de especial nele.
- Ele não leva cartas ou recados – o Encantador se abaixou. – Ele leva o que está em seu coração.
Neste instante o pássaro mensageiro abriu as asas e voou até a varanda trazendo o aroma das flores consigo.
- Estique o braço, Melissa.
Ele pousou delicadamente, suas garras eram redondas e curtas, por isso não a machucaram. Era uma ave maravilhosa. Olhos redondos e negros, penas brilhantes e bico curvado. Ele olhou para o Encantador e o cumprimentou abaixando a cabeça. Melissa estava imóvel e hipnotizada pela beleza do pássaro. Respirava fundo e com cuidado.
- Agora, Melissa, ele irá levar a mensagem de seu coração e com toda certeza ela chegará ao seu destino.
Ela o soltou. O mensageiro ganhou o céu e desapareceu rapidamente no meio das nuvens levando consigo o coração de Melissa.

Capítulo 3

Durante uma noite, Melissa teve uma surpresa encantadora.
Sua cama ficava debaixo de uma janela, a única janela do quarto. Ela acordou assustada com um barulho que veio lá de fora, como se algo houvesse batido no vidro. Embora tivesse acordado, continuou enterrada nos cobertores. Apenas esticou os olhos para fora, mas não conseguiu ver nada. Ela ouviu outra vez e agora pôde ver alguma coisa no beiral da janela. Reuniu toda sua coragem e colocou a cabeça para fora dos cobertores. Havia um passarinho do lado de fora. Era muito branco e brilhante. Melissa abriu a janela e antes de saltar para fora conferiu se todos continuavam dormindo. Olhou cama por cama e depois escapou. Pendurou-se no canteiro sem flores e desceu usando a trepadeira que crescia ao lado da janela como escada. Durante a descida, o passarinho planou ao seu lado e ela descobriu que ele não era branco. Era prateado, como se suas penas fossem de metal reluzente. Seus olhos eram pequenos e verdes. E ao seu redor havia uma aura de brilho, como a luz amarelada de uma vela.
Ela estava descalça e vestia apenas sua camisola. Mas o passarinho não se importou e logo que ela pulou no chão voou marcando o caminho com seu brilho. Melissa foi atrás dele andando sob o céu completamente estrelado. Não havia nenhuma nuvem e o céu resolvera mostrar todos os seus segredos e acendera todas as suas estrelas. O passarinho levou Melissa à colina, até o jardim do Encantador de Pássaros.
Ele já estava à sua espera. Havia mais quatro passarinhos como o que havia ido buscá-la ao redor dele. Eles voavam vagarosamente, como se apenas flutuassem. O Encantador estava sentado no meio das flores e tentava equilibrar sua bengala sobre seu dedo indicador. O perfume das flores era quase visível e se pudesse vê-lo ele seria uma manhã ensolarada, seria leite com chocolate no inverno, seria um sorriso. O passarinho voltou para junto dos outros e Melissa se sentou ao lado do Encantador.
- Os outros já estavam aflitos.
- Quem? Por que?
- Os outros, oras. Não existem estrelas de apenas quatro pontas.
Ela olhou apreensiva. Os cinco pássaros Estrela estavam em festa e voavam um ao redor do outro. Voavam tão vagarosamente que o tempo não importava mais para eles. O tempo não podia mais levá-los e num cintilar se tornaram apenas luz. Uma única luz perolada e riscaram o céu como uma estrela cadente, ao melhor, uma estrela ascendente que agora expulsara o escuro de um recanto da noite e o enchera de brilho.
- Agora que a última estrela está no céu podemos ir fazer nosso passeio.
- Aonde vamos?
- Dar uma volta, dar uma olhada nas coisas.
- A noite está linda, parece que todas as estrelas estão olhando para nós.
- E elas estão mesmo. Vieram todas só para ver você.
Ela sorriu.
- Já está na hora de irmos – ele olhou para o pulso sem relógio. – Por favor, pegue aquele trapézio – ele apontou para a varanda.
Melissa foi até a varanda e lá havia um trapézio daqueles de circo só que estava desmontado e jogado no chão. Parecia um balanço que ainda não havia sido dependurado. Ela voltou correndo.
- Eles já estão nos esperando. Corra.
Sobre eles havia dois pássaros bem grandes. Eram pretos e tinham os olhos vermelhos. Mesmo voando e a muitos metros do chão, as penas de suas caldas quase tocavam as flores. Um deles mergulhou e agarrou a ponta da corda que devia sustentar o trapézio quando ele estivesse amarrado. Ele prendeu a corda no bico e voou.
- Segure-se firme.
Melissa fechou os olhos, respirou fundo e deixou-se levar. O encantador levantou a bengala e o outro pássaro a segurou com uma de suas garras. Quando Melissa conseguiu abrir os olhos novamente ela já podia tocar as nuvens se esticasse um dos braços. Ela se sentara na barra do trapézio, tremia, mas depois de um tempinho começou a se divertir.
- Leve-nos para as nuvens da montanha – o Encantador disse.
Os pássaros obedeceram, fizeram uma curva longa e começaram a subir cada vez mais. Melissa podia sentir os fios da noite entre seus cabelos, o frio corou suas bochechas, mas ela não se importou, tudo aquilo era mágico. Os pássaros os levaram até o topo da montanha, para o Vale das Nuvens. Melissa saltou do trapézio e o Encantador pousou suavemente apenas deslizando a bengala pela garra do pássaro. As nuvens formavam grandes torres esbranquiçadas e disformes que em um minuto se tornavam ondas de algum mar distante e em seguida uma floresta de árvores de algodão. Tudo se movia, respirava e se movia outra vez. O Encantador segurou forte na mão de Melissa e a levou para passear entre as esculturas das nuvens sobre os terraços de pedra azul.
- Elas parecem tão tristes – Melissa disse.
- Elas não estão tristes, estão apenas dormindo – ele sussurrou.
De repente as nuvens balançaram e revelaram uma pequena casa em chamas, como se ele estivesse embrulhado em seus braços de névoa.
- Você se lembra de sua casa?
- Não. Eu já morei aqui?
- Não exatamente – ele sorriu. – Mas em uma casa como essa em algum lugar da cidade.
Eles se aproximaram. O Encantador abriu a porta e foram entrando por ela. O fogo já se alastrara por todo o segundo andar e já começava a descer para o térreo
- Eu estou me lembrando – seus olhos brilharam. – Morávamos eu e o papai, sentíamos muita saudade da mamãe. Ela nos enviava cartas sempre que podia.
Melissa tentou se aproximar da escada, mas o Encantador a puxou.
- Já vimos o bastante – ele a abraçou e seguiu na direção da porta por onde haviam entrado.
As nuvens afogaram o incêndio e ele desapareceu.
- Você não se lembrava porque se feriu na cabeça – ele lhe fez um cafuné. – Ficou muito tempo no hospital e deve ter perdido algumas memórias.
- E o papai? – seus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Ele se tornou um passarinho – o Encantador se agachou e ficou da mesma altura dela. – Todos nós nos tornaremos passarinhos algum dia.
- Você sabe onde ele está? – ela ficou curiosa.
- Está voando, esperando o dia em que você poderá ir voar com ele.
O Encantador lhe deu um abraço que espantou um pouco do frio.
- Precisamos ver outra coisa, venha até aqui.
Eles andaram mais um pouco entre os espirais nebulosos e mais uma vez eles revelaram outra paisagem quando abriram seus braços. Era o quarto de uma princesa, ela estava na escrivaninha escrevendo uma carta. Algumas lágrimas já haviam molhado o papel e apenas uma vela a protegia da noite. Era linda. O rosto delicado, os lábios finos sob o nariz pequeno e arrebitado. O cabelo trançado era comprido e quase tocava o chão. Ela colocou a pena no tinteiro e começou a reler a carta.
“Meu pai está cada vez pior. Ele só pode estar louco. Pelo menos conseguimos salvar nossa filhinha de suas garras. Mesmo estando longe, fico feliz por saber que ela está com você. Não suportaria vê-la em um internato estrangeiro, vivendo longe de nós. Seria mais doloroso do que a saudade que sinto agora. Papai me culpa por tudo, mas sua raiva irá passar e quando isso acontecer irei correndo para os seus braços. Nem mesmo o rei, meu pai, poderá nos impedir. Dê um beijo em nossa pequena e cuide bem dela. Amo você”.
Ela colocou a carta dentro de um envelope e o entregou a um pequeno passarinho azul que estava dentro de uma gaiola sobre sua cômoda. Abriu a janela e o empurrou para a noite.
As nuvens se fecharam novamente e tudo se tornou neblina. Melissa estava chorando, emocionada. Mas estava feliz, se lembrara de sua mãe.
- Vamos voltar para a cama? – o Encantador perguntou.
- Acho que sim, já estou ficando com sono.
As nuvens revelaram a cama de Melissa. Ela se deitou e o Encantador arrumou seus cobertores. Em um instante ela já estava dormindo e quando acordou estava em seu quarto, como se nada tivesse acontecido. Havia apenas uma pequena pluma branca em seu travesseiro e muitas novas lembranças.

Capítulo 4

O cavalo enfrentava o vento com suas passadas firmes e velozes. Nicolas segurava a capa ao redor do pescoço e mantinha sua filhinha bem próxima de si. Ele estava fugindo. Olhou rapidamente para trás, o castelo com suas sete torres espiraladas e suas luzes violetas continuava de pé, cercado pelo deserto de areis brancas. Deu um último adeus para sua amada e voltou-se para frente. A noite engatinhava rumo ao céu e aos poucos iluminava suas estrelas. Seus pensamentos apontavam para o futuro, para as possibilidades que surgiram diante dele. Passaria por tempos difíceis, por obstáculos. Mas nenhum deles poderá diminui o que ele sente pela princesa, nenhum deles será maior do que o amor que une sua família.
Da sacada de seu quarto, a rainha madrasta assistia o cavalo se perder entre as dunas. Ela tinha um longo carretel de linha nas mãos, uma linha invisível, fio de ar. Um beija-flor infeliz passou voando e ela rapidamente o prendeu em seus dedos em forma de garra. Ele lutou para se livrar, mas não conseguiu. Ela o levou até a boca e disse alguma coisa em seu ouvido, o passarinho ficou imóvel e suas penas empalideceram. A rainha pegou a ponta da linha de ar e a amarrou na pata esquerda do beija-flor. Deu um nó apertado e o soltou. Rapidamente ele seguiu na direção que o cavalo havia ido. Ela prendeu o carretel em um suporte de ferro e voltou para o quarto.
De outra sacada, a princesa também observava o cavalo desaparecer. Estava aos prantos, soluçava e tremia. Parte de seu coração havia partido. Sua filhinha e seu grande amor. Aquilo era um pesadelo que aos poucos se tornou realidade e engoliu toda sua alegria. Não poderia deixar que o rei levasse sua filha. A única solução que encontrara foi afastá-la do castelo e para longe dos ideais mesquinhos do rei. Pelo menos ela fugira com seu pai, o grande amor da princesa, Nicolas. Ela nasceu do amor puro que seus pais sentiam e irritou o rei e sua rainha, madrasta da princesa.
Nicolas e sua filhinha cavalgaram durante toda a noite. Pararam em uma cidade que ficava sob a sombra de uma montanha azul. Eles compraram uma casa e começaram sua longa espera. Ansiavam pelo dia em que poderiam voltar a ver sua amada e sua mãe. Eram tão feliz quanto podiam ser. Parte de seus corações estava adormecida e só despertaria quando estivessem juntos novamente.
Movida por sua maldade, a rainha planejou destruir de uma vez por todas a família de sua enteada. Ela foi até sua caixinha de jóias, procurou entre centenas de brincos, anéis e pulseiras. Depois de algum tempo pegou um anel com uma grande gema vermelha. Pegou também uma tesoura que estava sobre sua penteadeira e foi até a sacada. Carregava o anel com cuidado e tinha um brilho malicioso nos olhos. Ela segurou a linha que há algumas semanas amarrara na pata do beija-flor e a cortou com a tesoura. Ficou com a ponta em uma das mãos e passou o anel por dentro dela. O anel emitiu um brilho vermelho e chamejante e deslizou pela linha até sua outra ponta. A rainha ficou observando até a estrelinha vermelha sumir no horizonte.
O beija-flor seguira o cavalo até a casa de Nicolas e sua filha sem que ninguém percebesse. Ele ficara pousado no telhado, como sua contratante, a rainha, lhe mandara. O anel percorreu toda a linha até encontrar a outra ponta e quando tocou a madeira do telhado explodiu espalhando brasas e faíscas para todo o lado. Até mesmo o beija-flor não pudera escapar, tamanha fora a explosão. O fogo se alastrou pela casa. Nicolas viu a fumaça e tentou fugir com sua filhinha, mas ficou preso entre as chamas para poder salvá-la. A pequena correu na direção da porta, estava assustada e em pânico. Uma viga do telhado se soltou e caiu em suas costas, ela bateu a cabeça no chão e desmaiou. Ela não viu mais nada. Acordou alguns dias depois no hospital. Sem casa, sem família e sem lembranças.

Capítulo 5

Quando acordou o café não estava pronto. Não havia brasas no fogão e a confeitaria ainda estava fechada. Havia um silêncio incomum enchendo toda a casa. A manhã estava fria e cinzenta. O mundo pareceu-lhe dolorido, cheio de dor e sem sentido. Havia um medo em seu coração, um resquício de incerteza tão frágil quanto uma pluma, tão mutável quanto uma nuvem que se transforma ao bel prazer do vento. Mas em algum lugar existia um pequeno grão que irradiava algo novo. Um grão feito de sentimentos felizes e de esperança. Sua mãe estava viva.
- A Isabela está doente – alguém gritou lá de dentro.
Melissa subiu até o quarto de sua “mãe”. Ela estava na cama, enrolada em uma porção de cobertores felpudos. A janela estava fechada e um ar denso e doentio a rodeava. Estava pálida e rouca. Melissa a abraçou e lhe deu beijo. Estava fria e trêmula.
- Acho que estou doente, pequena.
- Isso não vai ser nada, vou buscar seu café da manhã.
Melissa desceu até a cozinha. Esquentou leite e partiu algumas fatias de pão. Pegou um pote de geléia de morango e alguns biscoitinhos de chocolate. Arrumou tudo em uma bandeja e levou para o quarto. Tentou fazer com que Isabela comesse, mas ela nem tocou no café. Melissa fez companhia a ela durante todo o dia. Contou suas histórias e tentou distraí-la. Mas ela estava cada vez mais fraca, mal conseguia abrir os olhos. Todos estavam preocupados e com medo. Decidiram chamar o médico, mas não tinham dinheiro para pagar. Então chamaram a feiticeira que sempre estava pronta para ajudar. Ela veio imediatamente.
- Ela precisa de um remédio muito difícil de preparar – ela disse depois de examiná-la.
- Você não tem esse remédio? – uma das meninas perguntou.
- Infelizmente, não – ela abaixou os olhos. – E se ela não tomá-lo a tempo, acho que podemos perdê-la.
Melissa não podia acreditar, precisa encontrar uma maneira de salvá-la e única pessoa que poderia ajudá-la era o Encantador de Pássaros. Sem dar qualquer satisfação aos outros, ela correu para a trilha de tijolos vermelhos. Atravessou a cidade num pique só e subiu a colina sem descansar. Atravessou o jardim e tocou o sino. O encantador apareceu para atendê-la.
- Preciso de sua ajuda – ela disse assim que ele apareceu pela fresta da porta.
- Claro – ele sorriu. – Por que está tão preocupada?
- A Isabela está muito doente.
- O que houve com ela?
- Está muito doente e precisa de um remédio.
- Acho que, talvez, eu possa ajudar você – ele tentou acalmá-la. – Entre.
Ela entrou. O caldeirão que antes estava no fogão descansava sobre a mesa e um ninho de fumaça se movia no ar, sobre ele.
- Eu sabia que seria útil para alguma coisa.
Ele pegou uma concha na gaveta de talhares e uma garrafa vazia no armário. Foi até o caldeirão e mexeu seu conteúdo com a colher. Melissa não podia ver o que havia dentro dele, estava muito alto. Mas o cheiro era muito doce. Ele encheu a colher e despejou dentro da garrafa. Tampou com uma rolha e a entregou para Melissa. O líquido era vermelho e cremoso.
- Este é o remédio que você precisa.
- É verdade?
- Sim. Eu sempre soube que você precisaria dele algum dia. Vá logo.
Melissa sorriu e lhe deu abraço. Voltou correndo para o orfanato. Quando chegou foi logo para o quarto onde Isabela estava. Havia umas dez pessoas ao redor dela. Em sua mão havia um pequeno pássaro azul. Ele olhou para Melissa quando ela entrou e a seguiu com os olhos. Ela se aproximou com o frasco do remédio e o pássaro voou. Isabela apertou os olhos e uma onda de alívio percorreu seu corpo. O pássaro deslizou pelo ar até a janela fechada e posou no beiral. As pessoas estavam desesperadas, choravam e tentavam trazer Isabela de volta. Melissa colocou o frasco no chão e foi até o passarinho. Ele continuava olhando para ela, havia algo muito especial em seus olhos, carinho. Ela abriu a janela. O vento empurrou o frio para dentro, o sol insistia em ultrapassar as nuvens e a cidade começava a se movimentar. O pássaro olhou uma última vez para ela e voou para fora. Ele desapareceu no meio das nuvens, como se tivesse tornado parte do céu, como se tivesse sido consumido pelo azul. Isabela havia morrido.
Os dias que se seguiram foram os mais tristes que Melissa consegue se lembrar. Aos poucos o orfanato foi desmanchando. Ninguém quis assumir a frente dele, fecharam a confeitaria e incentivaram a adoção das crianças. Um a um os amigos de Melissa fora se despedindo. Tudo parecia gelado e perdido.
Um dia veio uma mulher que queria adotar a pequena Melissa. Era uma velha corcunda, usava óculos redondos e tinhas os dedos compridos. Tinha fama de bruxa e de maldosa.
- Sempre quis uma filha como você – ela apertou uma de suas bochechas.
Melissa não podia fazer nada. Se não fosse adotada teria que viver na rua. Ela apenas sorriu meio sem graça. A velha pegou na mão dela e a arrastou para o lado de fora. Um medo muito grande pesava em seu coração, tinha medo de seu próprio futuro. Começou a chorar. Olhou na direção da montanha, mas não viu nada além das nuvens. A velha continuou puxando e a levou até a calçada. Uma carruagem alta puxada por quatro cavalos vinha na direção do orfanato. Os cavalos tinham penas vermelhas em suas cabeças, o cocheiro vestia o uniforme real e toda carruagem era prateada. Ela parou lentamente na frente da velha impedindo que ela atravessasse a rua. Melissa olhou admirada, nunca vira algo tão bonito. O cocheiro desceu e abriu a pequena portinha. Por ela desceu um anjo. Uma mulher tão bonita que só poderia ser um anjo. Usava uma tiara de brilhantes e um vestido branco feito com fios de pérolas. Ela segurava um pássaro em um dos braços. Ele tinha penas marrons e cinzas, seu olhar era negro e profundo. A princesa abriu um sorriso.
- Eu recebi sua mensagem – ela disse para Melissa.
Melissa ficou calada, não sabia o que responder.
- Estou aqui para buscá-la – ela se abaixou para ficar da altura da garotinha. – Minha querida filha.
Elas se abraçaram. O tempo parou por uma eternidade. Estavam juntas e nunca mais se separariam. Melissa foi morar no castelo e passou muito tempo sem voltar a ver o Encantador de Pássaros.
Fillipe Evangelista
Enviado por Fillipe Evangelista em 28/01/2007
Código do texto: T361118
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Fillipe Evangelista
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