O poder dos astros.

A enorme sombra se projetou sobre as águas límpidas do oceano pontuado por montanhas alvas que flutuavam levadas pelas mãos secretas das correntes. A nau brilhante que impavidamente fazia pouco caso da gravidade avançava morosamente com suas flâmulas e estandartes coloridos deixando atrás de si redemoinhos de fumos negros que recendiam a óleo minado das rochas. Homens envergando pesadas cotas polidas que rebrilhavam com a luz pálida do inverno faziam vigília no convés de cedro envernizado que rangia queixoso das constantes fustigadas que Bóreas lhe lançava. As sentinelas deixavam escapar nuvens de vapor ao fim de cada respiração e pequenos tremores faziam os anéis de metal de suas vestimentas tinirem como címbalos desafinados, mas elas não procuravam o abrigo no interior do Flagelo dos Infiéis, a nau do vizir Almir Bin Ademir, conhecido como “Almir: o Inquieto”, pois assim como sua sanha por conhecimento era vasta, o seu retaliar perante atos que desabonavam os fiéis era duro.

Nascido em uma próspera família de comerciantes de óleos minerais, o agora idoso legislador galgou searas ladeadas de perigos e traições até se tornar o segundo homem mais poderoso do Império Mhou’Ro, sua influência só era menor que a do próprio Imperador. Almir se destacou entre os homens de sua geração por possuir um espírito questionador e prático, o qual lhe fez seguir o caminho das letras e das ciências, trazendo glórias ao Império, fazendo a sua sagacidade e erudição serem comparadas as dos Antigos.

A inquietude que sentia ao desconhecer os segredos do mundo o fazia se lançar em empreitadas como a atual, a qual apesar de não aprovada pelo Imperador, foi levada a cabo, pois alguma coisa na alma do homem dizia que algo não andava bem com o mundo além das areias andarilhas dos desertos. Algo que escapava de sua percepção e pesquisa. Para sanar a questão Almir seguiu até as bordas do mundo em busca das lendárias cidades do ocidente. Cidades perdidas no pó da história. Lugares além-mar celebrados em tomos centenários como moradas de demônios, djins e ghouls.

O sábio idoso fumava seu narguilé de jade enquanto divagava sobre medos obscuros na alcova forrada por finas tapeçarias com imagens intricadas de batalhas míticas. O recinto era a materialização da suntuosidade do império, estantes do mais negro ébano se curvavam ante o peso de tratados científicos finamente encadernados, armários de cedro com intricados arabescos marchetados afastavam das vistas mais curiosas portentos da maquinaria cientifica e o piso forrado de moedas seculares de antigos reinos devastados, era recoberto por dezenas de almofadas feitas das mais caras sedas, cujos padrões eram verdadeiras obras de arte. Ajudada pelo fumo que dominava o ar da câmara privada, a cena parecia saída das fábulas contadas nos mercados por artistas e pedintes.

O vizir foi arrancado do vale de incertezas e teorias o qual seu pensamento vislumbrava quando batidas na porta ecoaram acompanhadas de uma voz rouca e máscula pelo quarto.

-Meu senhor, o erudito Gabriel roga por uma entrevista.

Deixando de lado o intrincado cachimbo, o vizir se aprumou.

-Deixa-o entrar Mohamed e que mais ninguém o siga.

As portas rangeram ao se moverem nas dobradiças de bronze permitindo a entrada de um rapaz de compleição frágil, madeixas da cor do trigo, pele alva, voz suave e trajando roupas modestas, a verdadeira antítese do homem deitado com sua pele azeviche, barba espessa e com salpicos de prata. As folhas de cedro voltaram a cerrar-se assim que o jovem colocou os dois pés no interior das acomodações do governante.

-Que a Luz o abençoe, Excelência. Espero que estejas bem.

O idoso sorriu ante o cumprimento. Um sorriso reprovador.

-Estou bem Gabriel e pelo que posso constatar a mania de professar sua fé aos servos do Fogo Vivo ainda não o abandonou.

O rapaz meio encabulado tentou expor sua visão.

-Penso que jamais perderei essa “mania” Excelência. Como devoto da Litania é meu dever.

O sorriso na face do idoso se alargou e gesticulando para que o cristão se sentasse, explicou o que pensava.

-Quem dera todo fiel fosse tão observador da fé no Fogo Vivo quanto tu és da tua Gabriel. Mas como bem sabe, a tripulação é composta por homens sem muita luz do conhecimento e não conscientes de que tememos o mesmo deus e por culpa dos ímpios do passado e sua maldita sanha por poder, O nomeamos de formas distintas. Essa falta de ilustração deles poderá te trazer algum “acidente” durante nossa viagem.

A face do rapaz se contorceu com a ideia e confuso ele perguntou.

-E o que devo fazer Excelência? Fingir ser o que não sou? Isso me parece um pecado hediondo.

O sorriso de Almir mudou para um de pura benevolência, como o de um avô ante seu neto mais querido.

-Faça o que todo fiel deve fazer com os assuntos da fé: ore, jejue e faça a boa obra. Para isso não necessitas da aprovação de homem algum ou tentar convencer qualquer outro a fazer o mesmo da forma que acreditas ser a correta.

Gabriel concordou com um aceno de cabeça, vendo isso, o vizir mudou o rumo da conversa.

-Agora diga o que deseja, pois acredito que não veio até mim para discutir teologia.

O jovem retirou das dobras de suas vestes um aparelho de leitura e o estendeu na direção do idoso.

-Perdão Excelência, realmente não vim roubar vosso tempo com esse assunto. A tradução está completa e como Vossa Excelência ordenou, trouxe-a logo que terminei o processo.

O vizir tomou o pequeno aparelho e olhando atentamente o visor brilhante, elogiou o jovem tradutor.

-Realmente você é um gênio Gabriel. Poucos são os homens no Império capazes de traduzir essa antiga língua com a rapidez e competência que demonstras. Eu não consegui amar essa língua bárbara como tu amas e acabei por apenas arranhar uma pequena parcela de seu entendimento. És um orgulho para teu pai.

O elogio trouxe um sorriso ruborizado de contentamento à face do jovem linguista.

-As suas palavras muito me alegram Excelência, mas são imerecidas.

O vizir, sem afastar as vistas da tela luminosa, deixou escapar uma resposta em um tom de voz soturno.

-Tolice, você é um prodígio. Agora me deixa só para que eu leia a tradução.

O jovem se ergueu e após uma reverência, deixou a alcova do legislador.

Novamente só, o homem passou o tempo lendo as linhas que rolavam na tela do aparelho e só terminou a tarefa quando a noite lançou seu manto negro pontuado de luz sobre o mundo. A face do vizir parecia roubar as sombras do próprio Abismo para si e um brilho sinistro emanava dos profundos olhos cinza. Ele pousou o aparelho sobre as almofadas e novamente levou aos lábios a piteira do narguilé. Entre anéis de fumaça, deixou escapar uma frase preocupada.

-Um pedido de socorro. Mas por que eles precisariam de ajuda?

Ignorando as divagações do sábio vizir, a nau continuou sua lenta caminhada pelas águas que espelhavam o céu noturno de inverno.

***

A manhã tocou o metal reluzente das armaduras das vigias postadas sobre o tombadilho com seus raios rosados enquanto o Flagelo singrava os céus. Na distância uma curiosa silhueta lentamente se formava no horizonte. Após semanas de viagem a expedição do vizir finalmente se aproximava de seu objetivo. Uma terra cujo nome se perdeu nas areias da ampulheta, onde os homens já não eram senhores.

A cada jarda vencida, a silhueta dessa terra mítica se despiu mais e mais das brumas que lhe defendiam dos olhos das vigias enregeladas, até que a sombra da calma nau deixou de escurecer as águas do oceano para cobrir as praias desertas e então continuar sua viagem sobre densas florestas recobertas pelo véu de neve soprado pelo céu.

Algumas horas depois, os olhos das sentinelas foram invadidos por uma visão fantástica, uma muralha de proporções ciclópicas, que ocupava o horizonte até quase se perder de vista. Sua sombra acabou por engolir a figura do Flagelo que se tornou ínfimo ante sua magnitude.

Vestindo um pesado manto de pele de urso, o vizir observava a fantástica construção junto do jovem erudito.

-Veja Gabriel! Como vos disse, encontraríamos as ruínas. Os antigos mapas estavam certos!

Maravilhado com a visão, o rapaz apenas sorriu e não percebeu a chegada de Mohamed, o comandante da guarda pessoal do legislador, que envergando uma pesada armadura fazia o tombadilho estalar ainda mais queixosamente do que o comum.

-Excelência, o pelotão de reconhecimento está preparado para desembarcar. Aguardo apenas o vosso comando para iniciar a operação.

Os sulcos da face idosa ficaram ainda mais pronunciados devido ao sorriso que se esforçava em escapar de sob a barba do vizir. Apesar dessa demonstração de satisfação, o brilho preocupado não morreu nas íris do velho e apontando para uma fenda no paredão, ordenou.

-Pois vá agora. Entre por aquela parte danificada da estrutura e retorne em duas horas. Você tem minha permissão para usar da força. Que o Fogo Vivo lhe sorria.

O soldado ouvindo a ordem fez uma pequena mesura e se virou para partir, mas sua saída foi interrompida pela voz do vizir.

-Espere Mohamed. Leve ele contigo.

As faces do rapazote e do guerreiro eram pura surpresa. Gaguejando, o linguista perguntou.

-Mas por que devo ir Excelência? Não sou um soldado, apenas irei atrapalhar a equipe do comandante.

Apertando o pesado manto contra seu corpo castigado pelo frio, o idoso olhou de forma dura para o rapaz.

-Por que assim eu desejo. Você será útil na busca, pois é o único que domina completamente a língua que era falada nessas ruínas e um pouco de aventura não fará mal algum a um homem jovem como você. Agora parta. Já perdemos tempo demais com sua falta de respeito para com minha autoridade.

Vencido, Gabriel após uma saudação de despedida, apenas seguiu o homem de armadura convés abaixo.

Sozinho sobre a proa do Flagelo, Almir observava os céus de forma preocupada e questionava-se.

-Estarei errado? Será apenas uma coincidência?

Os céus de cor plúmbea apenas despejaram seus flocos gelados como resposta.

***

Após um som pesado de metal movendo, o Flagelo se abriu e de seu interior como um ovo sendo cuspido das entranhas de uma ave, despencou uma embarcação menor. O Vento do Deserto, uma nau de combate, armada com as mais mortíferas maquinações do engenho bélico imperial que emitindo um rugido ensurdecedor, deixou para trás uma cauda de fumos cinzentos no horizonte gelado. Velozmente ela mergulhou na fenda da muralha, se perdendo dos olhos das vigias sobre o madeiramento amortalhado pelas sombras colossais.

No interior do Vento, o pelotão especial do vizir fazia os últimos preparativos da missão. Os soldados entraram nas enormes armaduras mecanizadas, bendisseram Alá, trancaram as escotilhas e deram partida nos motores das peculiares armas de guerra. Sentado ao lado de Mohamed na ponte de comando, Gabriel rezava para todos os santos que conhecia pedindo ajuda enquanto a embarcação fazia evoluções no interior da muralha para evitar os obstáculos no caminho.

O comandante sorria se divertindo com a preocupação do rapaz.

-Calma infiel, naveguei em lugares muito piores e ainda estou aqui. Em alguns segundos estaremos do outro lado e aí sim, você poderá ficar preocupado.

O linguista olhou horrorizado para o homem ao seu lado e em um tom de voz cheio de medo, perguntou.

-Por quê?! O que há lá?!

Gargalhando à custa do rapaz, Mohamed levou a nave até a luz invernal que se pronunciava no outro lado da fissura e lá, foram recebidos por quilômetros de ruínas arrasadas, cobertas pelo pó dos séculos e a neve mui alva despejada dos céus da tarde silenciosa.

Como um pássaro carniceiro, a nave deu voltas no ar procurando uma área livre para lançar seus tripulantes em terra. O estrondo dos motores ecoou pelas ruas vazias dando um ar fantasmagórico ao som da máquina de guerra. Após vários volteios sobre edifícios de rocha corroída pelos caprichos cruéis das estações, o veículo pairou como uma mosca varejeira sobre os resquícios de uma praça e abrindo uma comporta lateral, permitiu a saída do pequeno pelotão com quatro soldados mecanizados. Eles foram içados até o chão recoberto pela neve profunda através de poderosos guindastes e ao palmilharem o solo intocado durante séculos com seus pés de aço, debandaram tal qual insetos flagrados.

Mohamed, observando a movimentação de seus subordinados, perguntou ao linguista.

-E então? Tens noção sobre qual coisa o vizir anseia encontrar nessa ruína?

Ainda pálido graças à viagem, o tradutor tentou tomar para si uma postura mais centrada e menos vexatória.

-Peça aos seus homens que procurem qualquer inscrição com a palavra “zuflucht” ou “armee”. Pelo que pude colher do vizir, o que ele procura provavelmente se achará em algum lugar relacionado a essas palavras.

Usando o comunicador, Mohamed ainda sorrindo da atitude medrosa mostrada durante a entrada na cidade morta, instruiu seus homens a seguirem a diretriz sugerida pelo rapaz. Uma hora escorreu pelo vão da ampulheta antes de uma mensagem ser enviada pelo soldado Azis, o comandante em solo. Um homem de meia idade, truculento e afeito ao linguista.

-Não encontramos. Repito. Não encontramos qualquer inscrição que se encaixe no requerido. Não seria melhor nos informar o significado dessas palavras Comandante? Ou o cristão não deseja repartir seu conhecimento com os servos de Alá?

O piloto olhou de maneira divertida para Gabriel, debochando de seu pouco desenvolvido espírito prático, esperando uma resposta do jovem que no momento ostentava uma expressão contrariada.

-Diga ao seu subordinado que procure alguma construção militar ou abrigo para civis.

O militar repassou a informação para a equipe em solo e novamente Azis enviou uma mensagem.

-Perdemos tempo por nada Comandante, se o garoto tivesse tido o bom senso de nos dizer o que queria antes, já poderíamos estar adiantados na missão! Encontramos uma entrada meio demolida do que parece ser um abrigo contra bombas logo ao pousarmos no solo!

Mais sério, o piloto instruiu seus homens.

-Prossigam a missão adentrando o local. Liguem os emissores visuais.

Na tela sobre o painel de controle, surgiram imagens em vários tons de cinza, elas mostravam uma escadaria gasta pelo tempo onde a escuridão e ramagens vadias reinavam tendo o silencio como consorte. Cada metro percorrido pela equipe erguia nuvens de poeira lançada sobre o piso em épocas onde os avós dos soldados ainda eram meros sonhos esperando sua vez para entrar no mundo dos vivos. Poucos metros depois, o invento que lançava as imagens na tela em frente à Muhamed, descreveu uma imagem incomum, mesmo insólita. Em um salão arrasado, uma múmia estava agarrada a um esqueleto de um enorme animal recoberto por metal. Todo o recinto apresentava sinais de luta e algumas partes da estrutura estavam derretidas e vitralizadas, tal qual areias atingidas por relâmpagos. Os soldados do vizir deixaram escapar palavras supersticiosas sobre demônios e maldições ao entrarem nessa tumba incomum. Com uma ponta de medo na voz Azis entrou em contato.

-Comandante? O que houve aqui? O que procuramos nessa terra demoníaca?

O oficial, surpreso pelas imagens bem mais do que gostaria de se permitir, não demostrou isso em sua voz e ordenou.

-Peguem tudo o que possa parecer útil e voltem para o ponto de resgate. Sejam rápidos!

O piloto e o tradutor ficaram atentos ao que observavam nas imagens. Estavam ansiosos e preenchidos por uma sensação incomoda. Quando as correntes foram lançadas para puxar as máquinas de guerra até a segurança do bólido de destruição, correram para o hangar. Ao chegarem, encontraram Aziz já desembarcado de sua armadura mecanizada. O soldado trazia um intrincado objeto metálico semelhante a uma arma em suas mãos e jogados sobre o tombadilho ao seu lado, estavam um livreto embolorado e os ossos da bocarra do animal visto nas imagens.

Gabriel não dando atenção às demais coisas ou ao homem, saltou sobre o livreto e feliz traduziu em sua mente parte do texto. Perdido na tarefa, não notou a aproximação do Comandante, que tomando de suas mãos o objeto, passou a o avaliar.

-O que é isso Azis?

Cercado pelos demais soldados analisando a coisa em suas mãos, Azis deu de ombros.

-Não faço idéia Comandante, estava no corpo encontrado. Pensei que o garoto poderia nos dizer se é algo útil.

Olhando com descredito para o jovem, Mohamed estendeu o livro em sua direção.

-Pode?

Um sorriso triunfante invadiu a face do tradutor e pousando seus punhos na cintura em uma postura desafiante, ele quase gritou de tão cheio de si.

-Sim! Eu posso!

Ao verem a ação pueril do jovem os homens gargalharam e indo em direção da ponte Mohamed brincou.

-Ótimo, o vizir gostará disso. Agora voltemos para nossos acentos. É hora de voltar e sei que você adora rezar enquanto navego.

Gabriel empalideceu ante a fala e isso só fez os risos tomarem mais força. Quando todos encontram seus lugares, o Vento rugiu indo em direção da fenda e ao mergulhar na penumbra da defesa arrasada, deixou as ruínas sendo devoradas pelas primeiras sombras da noite invernal.

***

As portas da alcova do vizir se abriram ruidosamente e a figura de Gabriel invadiu o recinto. O jovem parecia exausto, desde seu retorno ao Flagelo que o linguista não descansou, pois a tradução do livro encontrado nas ruínas da cidade arrasada foi posta como assunto prioritário. Ele carregava um aparelho de leitura em suas mãos.

-Excelência, eis a tradução do documento encontrado. Penso que ficarás decepcionado com seu teor.

Deitado sobre os montes multicoloridos de almofadas, o vizir gesticulou para o jovem sentar-se enquanto expelia nuvens azuladas de fumo por suas narinas.

-Tua dedicação e capacidade não serão esquecidas Gabriel. Será meu secretário particular ao retornarmos a capital. És realmente muito competente na tua ciência. Por que pensas que ficarei desapontado?

O ar cansado do rapaz desapareceu por alguns instantes por trás de seu sorriso de alegria.

-Vossa Excelência é muito generoso, mas novamente me dirige elogios imerecidos. Apesar de termos encontrado os estranhos restos animais ao lado da múmia que guardava o livro e eles por dedução pertencerem a uma das criaturas descritas no mesmo, o texto me pareceu uma fantasia demente.

Ele estendeu o aparelho na direção do idoso, mas o vizir acenou negativamente com a mão.

-Estou indisposto demais para ler. Creio que o clima frio cobrou seu preço de mim. Leia você e não tenha pressa, pois preciso concluir se desobedecer ao Imperador valeu a pena.

Se ajeitando sobre um grande travesseiro de seda preta, quase como faria um gato e pousando o aparelho sobre suas pernas cruzadas, o tradutor após um pigarrear, começou a ler:

”Jamais poderíamos imaginar que nós, o Grande Império Maximilliano, nos veríamos prostrados ante um inimigo estrangeiro. Um inimigo que anos atrás era parte de nossa economia e cultura.

O primeiro relato acerca do inimigo surgiu entre os navios pesqueiros que aportavam em nossa capital. A maioria das embarcações retornava aos portos, parcialmente destruídas e com massivas baixas na tripulação. Os poucos sobreviventes remontavam histórias fantasiosas que na época eram tidas como meras bravatas insanas de homens cujos espíritos já muito supersticiosos haviam sidos impelidos ao limiar da loucura pela selvageria dos ataques.

Os relatos eram desconexos em sua maioria, a única coisa em comum entre os mesmos era o traje dos inimigos: pesados fatos para mergulho de linhas curiosas, quase alienígenas, que apesar do grande tamanho e estimado peso, permitiam seus usuários se moverem como estivessem envergando roupas leves de verão.

Rapidamente a indústria pesqueira teve suas atividades paralisadas, gerando um medonho desabastecimento dos viveres marinhos e aumentando o seu custo de forma absurda. Mesmo os Ossos Nadadores, um tipo de peixe de pouca carne e muitas placas ósseas, tornou-se escasso e quando disponível, seu valor de venda era fora do possível ao público geral.

O caos se instalou em todo o império, relatos semelhantes aos observados nos portos da capital começaram a surgir provenientes das colônias e após poucos meses algumas delas deixaram de enviar notícias. O imperador, ciente da gravidade da situação enviou toda a armada para averiguar o que poderia ter ocorrido e em caso de necessidade tomar medidas contra o possível inimigo.

Nenhuma das embarcações retornou.

Em menos de três meses o mar tornou-se um ambiente proibido aos homens. As pequenas embarcações de pescadores eram atacadas ao se afastarem da costa. Cada vez mais a distância segura entre a costa da capital e o mar aberto diminuía tornando proibitiva a prática da pesca. O império ficou literalmente ilhado ante as forças nebulosas que passaram a dominar os mares.

Mas o inimigo não se conteve em nos humilhar negando acesso aos mares, ele invadiu o solo sagrado de nossa terra. No início, apenas pequenos vilarejos costeiros foram atacados pelos exércitos de mergulhadores estrangeiros que dizimavam as populações com selvageria inumana em ações pontuais. Lentamente os ataques tornaram-se mais contumazes, forçando o povo a abandonar seus lares e correrem procurando abrigo no interior do país.

Cheios de um espírito combativo, nossos militares se jogaram em direção ao litoral, mas foram chacinados pelas forças inimigas. Arma alguma parecia ser capaz de ferir os invasores, mesmo a artilharia pesada se mostrava inútil. Quando alvejados por nossos canhões, os inimigos apenas tombavam ao solo para logo se erguerem com uma maior sanha assassina.

As baixas militares e de terreno foram enormes, nem mesmo os briosos Kristall Männer, com seus destemidos e celebrados centuriões, foram capazes de fazer frente aos soldados de armaduras azeviches.

Tudo parecia perdido até que durante um dia de tempestade a chama da esperança queimou no coração do povo por uma vez mais! Um dos invasores foi fulminado por uma bateria de disparos dos soldados de cristal e tombou abatido. Os seus companheiros ao verem tal cena, debandaram em fuga rumo ao mar sem se preocupar em resgatar o caído.

Mesmo sabendo que toda a glória da vitória se deveu a Luz, nossas tropas urraram de júbilo enquanto cercavam o guerreiro vencido.

E foi nesse instante que tivemos o maior de todos os assombros. Ao tentarem retirar o capacete do soldado, um jato de água marinha foi expelido e o insólito se desnudou ante seus olhos. Dentro da armadura não havia um homem, mas sim um peixe. Um maldito peixe.

Para tentar entender a situação, o “corpo” foi levado para a Academia Imperial de Ciências e Engenharia. Após uma minuciosa análise, ficou sendo do conhecimento público que os atacantes na verdade eram peixes que utilizando uma avançada tecnologia, pilotavam as poderosas armaduras cujo metal dava indícios de ter sido moldado a frio e até o momento era inédito na tabela periódica. As assombrosas máquinas propelidas por um avançado sistema bio-elétrico serviam como aquários móveis para os animais que presos por eletrodos pilotavam as mesmas para atacar o Império. O mecanismo foi nomeado de Lito-Fato.

Munidos desse espécime e dos conhecimentos adquiridos através dele, nossos melhores cientistas criaram armas que podiam combater os inimigos que desde então ficaram conhecidos como Lito-Escafandristas pelos eruditos e Rüstung Fisch pelo povo.

Uma nova arma foi distribuída entre as fileiras: Donner Beutel. Um genial armamento que consistia em uma bobina elétrica carregada por esforço mecânico gerado pelo movimento do centurião, capaz de disparar uma forte descarga semelhante a uma tempestade elétrica.

De posse dessa nova tecnologia uma nova brigada foi criada a partir dos remanescentes dos Kristall Männer: Der Fischer Ertrunken.

Foram estrondosas as vitórias sobre os Lito-Escafandristas graças ao avançado armamento usado pelas tropas de nossa nação, mas estas foram breves, pois um novo tipo de inimigo se apresentou. Um inimigo ferrenho e extremamente veloz.

Saindo das praias, peixes-espada com estranhas patas metálicas se jogaram em carga contra os valorosos Fischer Ertrunken e devido a sua incomum velocidade várias centúrias foram empaladas pelos abomináveis animais mecanizados. Novamente o grande Império foi posto de joelhos pela ameaça surreal dos mares. Como vagas, os peixes-espada que ficaram conhecidos como Wanderer Fisch, se jogaram sobre as tropas humanas perfurando a carne e criando um pegajoso mar de lama e vísceras. Os moribundos eram esmagados pelos Rüstung Fische que seguiam as velozes bestas marinhas em sua seara de destruição.

A investida da força assassina chegou até os portões da capital e tudo parecia ter chegado ao fim, mas novamente a Luz mostrou-se a favor do Império. O inverno começara e assim que as primeiras neves recobriram a terra, as aberrações marinhas retornaram ao seu reino profano nas águas plúmbeas do mar.

Em um esforço de guerra jamais visto antes pela humanidade, foi erigida a Grande Muralha Maxximilliana, uma maravilha da engenharia composta por aço, rocha e sangue. Em apenas um inverno, a muralha foi erguida e ao raiar da primavera, com o recomeço dos ataques, nossa pátria teve como sobreviver ante as hordas marinhas.

Em cada trecho da muralha foram instalados gigantescos arcos voltaicos e canhões em trilhos que se moviam ante a necessidade de se concentrar as defesas em algum ponto onde os atacantes se concentrassem. Por dois anos a grande muralha e os bravos centuriões conseguiram manter a segurança do povo, mas ainda assim a situação era desesperadora, pois a população confinada precisava de viveres e estes cada dia mais se escasseavam. Como produzir alimentos no espaço restrito e poluído da capital?

A cada dia a fome se tornava mais endêmica na cidade e revoltas populares começaram a ocorrer no interior dos muros de proteção. Uma guerra civil eclodiu e durante quatro meses o pior inimigo foi o nosso próprio povo.

A insuflação só teve termino quando a Academia de Engenharia Militar tornou pública a criação de um modelo de autômato baseado na tecnologia dos Wanderer Fische que seriam responsáveis pela produção de alimentos fora dos muros da capital. A alegria popular foi tamanha que os revoltosos largaram as armas e novamente o povo se uniu contra seu inimigo figadal dos mares.

Mas como transportar para fora das muralhas os autômatos (que popularmente passaram a ser conhecidos como Knüppeln devido ao seu peculiar formato cilíndrico) para fora das muralhas sem permitir a entrada das legiões assassinas?

Muitas propostas foram apresentadas, mas todas se mostraram infelizes na sua eficácia. Apenas quando um imigrante forçado (o governo passou a usar esse termo para designar as pessoas que ficaram presas em nossa capital graças à crise) apresentou um revolucionário projeto de aeronave que serviria como cargueiro e nave de guerra que o problema ruiu.

Assim foi criada a Luftbrigade e usando da sua mobilidade e poder, a crise alimentar foi remediada.

Fazendas foram restauradas, a produção se tornou recorde e com o uso das aeronaves (chamadas de Elektro Vögel graças aos seus canhões voltaicos e de suas bombas) a maré da guerra mudou em favor do Império.

Até o fim do inverno seguinte nossa nação conseguiu se estabilizar e entrar em contato com as colônias e para nosso pesar, descobrimos que a maiorias delas haviam sucumbido sob o julgo dos demônios marinhos. Poucas ainda existiam além-mar e sua maioria se localizava no oriente, entre as areias causticas dos desertos radioativos.

Um breve período de bonança recobriu nosso país, mas assim que as neves derreteram, nosso pesar recomeçou.

Um novo inimigo surgiu entre as fileiras submarinas e seu poder quase nos destruiu. Enormes tubarões brancos com dezenas de metros e munidos com pesadas armaduras irromperam velozmente nos campos de guerra com suas duplas fileiras de patas mecânicas no formato de braços humanos. Seu poder e velocidade faziam com que mesmo os Knüppeln fossem destruídos por suas presas metálicas.

Nossas forças terrestres foram dizimadas e mesmo nosso poderio aéreo se mostrou ineficaz ante os tubarões-máquina. Em poucos dias eles chegaram até a Grande Muralha deixando a morte e a desolação por onde passavam. Usando suas patas semelhantes a braços, escalaram a gigantesca estrutura e bairros inteiros da capital foram transformados em abatedouros antes que fossem vencidos por nossas forças especiais de defesa.

A situação mais uma vez se tornou desesperadora, pois as investidas dos monstros (apelidados de Maschinen Haien) eram constantes e quase impossíveis de serem contidas. O esforço de guerra foi pleno e mesmo crianças pequenas ajudavam nas fábricas de munições e de peças para autônomos. Os engenheiros e cientistas do Sacro Império trabalharam sem descanso em busca de uma tecnologia capaz de fazer frente aos novos horrores que chacinavam nossas tropas sem muito esforço.

Utilizando os conceitos criados para a construção dos arcos voltaicos e de antigos conceitos acerca de armas de antes do Falso Sol, as eficientes Maschinengewehren Volta'schen foram criadas. Essas maravilhas do engenho humano eram capazes de criar verdadeiras barreiras de chumbo eletricamente carregadas e propelidas na velocidade do som magneticamente pelas pesadas armas, foram capazes de equilibrar a guerra e dar novo folego a nossa combalida nação.

Nossas baixas sofreram uma queda gritante, mas ainda assim, todos os dias dezenas de bravos soldados eram transformados em pasto dos demoníacos tubarões. Essa situação continuou até o inverno, onde como de costume, as forças invasoras se retiraram para o oceano.

Novamente passamos os áridos meses gelados nos preparando para a chegada da primavera e o reinicio dos ataques de nosso inimigo insólito. Novos modelos de Knüppeln armados com Maschinengewehren Volta'schen e um sistema de auto detonação foram fabricados e barricadas móveis foram instaladas na Grande Muralha. A capital não dormiu uma só noite durante a última estação de paz e frio ocupada no esforço de guerra. Ao raiar do primeiro lume do degelo, estávamos preparados para vencer... Assim pensamos.

Os malditos invasores conspurcaram novamente o solo de nossa nação com um novo engenho de guerra, uma criatura monstruosa que somente o mais visionário dos homens poderia vislumbrar. Como behemoths marinhos, titânicos cachalotes albinos saíram do seio do oceano rastejando lentamente sobre infindáveis fileiras de patas de metal.

As bestas se mostraram imunes às nossas armas e usando de poderosos canhões de água marinha capazes de retalhar aço e rochas com sua pressão quase sobrenatural, arrasaram os postos avançados das forças de defesa e lentamente mergulharam nas sombras projetadas pela muralha escudo.

Neste mesmo instante em que escrevo essas linhas, elas forçam sua entrada na capital e em breve as hordas de tubarões, peixes-espadas e escafandristas com cérebros de peixe retalharão os corpos do povo. Todos os cidadãos da Capital se muniram com os engenhos de guerra e aguardam a batalha derradeira.

Meu nome é Klaus Lerner, sou professor por profissão e jornalista por paixão. Espero um dia poder ler este relato aos meus netos e que eles possam fazer o mesmo para os seus. Este é o décimo terceiro dia do quinto ciclo do ano de 2186 após a Queda do Falso Sol.

Que a Luz salve o Imperador!”

Ao terminar a leitura, o rapaz ficou em silêncio, esperando algum comentário do vizir, mas ele estava perdido em divagações. Após um longo tempo preenchido por uma total falta de palavras, Gabriel tentou expor novamente sua visão sobre o documento.

-Como disse para Vossa Excelência, o relato é fantasioso demais e...

Ele foi interrompido pelo legislador que se erguendo apontou para a porta.

-Você pode se retirar agora. Descanse e amanhã, tão logo desperte, venha até minha presença.

A face do linguista se tornou preocupada, pois a atitude do vizir demonstrava descontentamento, mesmo raiva e após se despedir com uma reverencia silenciosa, deixou o lugar.

Sozinho em seu aposento faustoso, Almir pareceu apequenar sob o peso de um sentimento de consternação que o invadiu. Um pensamento se formou na mente perturbada pelos episódios narrados e o mesmo escapou de sua boca quase como um sussurro.

-Não é uma mera coincidência. Que a Chama Viva tenha misericórdia.

***

A luz da tarde saudou Gabriel em seu despertar e apesar de ter dormido por doze horas, ainda sentia exaustão. O dia o encontrou preocupado e mesmo o repasto não lhe foi bem, pois temia que o vizir tivesse feito algo ao qual o Imperador tomasse como desrespeito e a possiblidade de todos envolvidos na expedição serem punidos era grande. Ainda era falado nos mercados sobre como por ter se engasgado ao comer um peixe mal preparado, o Imperador ordenou a morte de todos os cozinheiros do palácio. A imagem criada na mente do jovem o fez tremer.

Tentando afastar essa preocupação, ele se lavou e após trocar de roupas, caminhou até a câmara privada do vizir. O jovem encontrou os guardas na antessala em um estranho estado de espírito. Os homens pareciam perturbados, como se tivessem sido perseguidos por algo fugido de um recanto escuro da mente mais doentia. Mesmo Mohamed parecia incomodado e ignorou sua saudação, quase o empurrando aposento adentro.

Sem compreender o que ocorria, o rapaz encontrou o legislador sentado em uma grande mesa cujas formas e estilo destoavam com os demais móveis que decoravam o ambiente.

Ao perceber a chegada do rapaz, o idoso saltou da cadeira e se movendo de forma não condizente com um homem de sua idade, tomou Gabriel pelas mãos e o sentou na cadeira onde estava.

-Fico feliz em teres acordado, preciso de tua opinião e ouvidos. Preciso contar o que descobri ou enlouquecerei.

Os olhos do idoso emanavam uma chama selvagem, pareciam os de um demente. Isso deixou o linguista assombrado e a única resposta que conseguiu emitir foi um aceno nervoso de cabeça. Vendo isso, o vizir correu até um armário e ao retornar carregava um volume bizarro. Um tomo de aparência milenar, encadernado em couro escuro e mal cheiroso, cujo miasma exalado trazia ânsias. O legislador pousou a coisa sobre a mesa e sem entender o motivo, o rapazote se afastou até as costas estarem firmemente coladas no respaldar. Olhando para o livro, cheio de temor, Gabriel escutava a voz excitada do vizir.

-Esse tomo foi escrito por um feiticeiro muito poderoso que viveu nos desertos antes deles serem compuscardos pelo Fogo Frio. Ele fala sobre demônios e espíritos que vivem desde antes do homem existir. Coisas presas sobre as ondas por medo dos vapores lançados pelas estrelas. Essas criaturas só podem escapar de sua prisão no abismo quando uma configuração certa dos astros cessa o poder carcereiro o qual lhes domina.

Eu tive a oportunidade de amealhar textos esotéricos que demostravam as datas quando as estrelas ominosas estariam em seus lugares libertando essas bestas sobre o mundo e baseado no texto recuperado das ruinas, posso afirmar que em breve o horror será solto sobre o mundo por mais uma vez!

O tradutor olhou para a figura do idoso com puro medo. Ele temia pela sanidade do vizir.

-Mas Excelência, não acha que possa estar presumindo coisas? É apenas um texto de fantasia, uma fábula sinistra.

Um esgar de desdém invadiu o semblante de Almir e sua voz pareceu encavernar.

-Não é fabula alguma! A data prevista para o último alinhamento coincide com outros documentos!

Cobrindo o rosto com a mão tentando dominar seu espírito, o legislador continuou sua fala em um tom de voz mais contido.

-Eu também custei a me permitir acreditar e mesmo o texto encontrado não foi o suficiente, mas enquanto você dormia eu enviei uma nova expedição até as ruinas e quando os homens relataram o encontrado, a certeza do horror que se erguerá do oceano me invadiu.

Ligando um aparelho de leitura pousado sobre a mesa, o vizir atraiu a visão do jovem para uma imagem capturada pelos soldados. Uma visão de horror invadiu os olhos de Gabriel, fazendo seu maxilar tombar.

Uma gigantesca pilha de ossos humanos coberta pela neve cercava uma escultura onde um grotesco manequim talhado em rocha segurava um globo. O ser retratado era semelhante aos escafandristas descritos no texto traduzido, apenas sua cabeça era diferente. A cabeça retratava uma criatura semelhante um homem desforme. Era a face de Azrha’Al Zell, o irmão mais odiado de Bheli’Ahal.

A imagem trouxe desconforto ao rapaz e ele afastou o aparelho de si enquanto movia a cabeça negativamente.

-Não Excelência! Isso é mera fabula! O senhor está louco!

O ódio transformou a face do homem em uma carranca e tomando o tomo ancestral, ele mostrou uma iluminura retratando o mesmo ser grotesco.

-Loucura? Loucura é o que iremos enfrentar menino! Enfrentaremos um mal sem par que arrasou o maior império do ocidente milênios atrás e que retornará em poucos meses! Loucura é o que faremos!

Encolhido de medo, Gabriel deixou escapar uma pergunta.

-O que faremos?

Olhando no fundo dos olhos do jovem, Almir entre dentes vociferou.

-Vamos à guerra e que o Fogo Vivo nos ajude!

Ignorando os medos e sonhos que dominavam os tripulantes da morosa nau em sua marcha rumo ao lar, as estrelas corriam para tomar seus lugares e liberar o mal sobre o mundo.

Texto antigo retrabalhado para se encaixar no universo das Crônicas Maxximillianas. Um projeto que tenho trabalhado nos últimos tempos.

TTAlbuquerque
Enviado por TTAlbuquerque em 19/09/2015
Código do texto: T5387771
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