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Romance interrompido: a solidão

Cap. 1 uma introdução bem confusa.

Estar-se isolado fisicamente isolado é bom para olhar o próprio umbigo. Mas, já cansado do umbigo que não muda com o tempo, afinal é uma cicatriz, se pos a perscrutar o mundo. Seria o mundo aquele reservatório de sofrimentos infindáveis que atingiam o ser através das notícias da imprensa? Não faltam desastres naturais para nos assustar, desastres não naturais, guerras, atentados, petróleo impregnado as penas de gaivotas, pingüins e outras avezinhas ingênuas que insistem em se esbaldar nas águas outrora limpas e cristalinas.
Não vi nada disso, pensou, deve ser uma invencionice para nos assustar.
Não, meu caro, você não foi notícia ontem, nem anteontem, nem em dia nenhum de sua vida. Parece que Deus passou ao largo de seus dias e te abençoou com o esquecimento. Afinal, não rezas, não o adoras. E ele te esqueceu. Podes ficar em paz.

Paz, paz, se soubesse o que é isso! Nem mesmo a falta de dinheiro me incomoda. Gasto pouco. Quando tenho fome acendo uma fogueira com folhas secas, cozinho raízes. Quando tenho sede, bebo da fonte. De noite, não tenho mais necessidade de nada. Minha mulher ronca do meu lado e não estou disposto a incomoda-la para me aliviar de meus incômodos penianos. Isso já pertence ao passado. Deus me esqueceu. Não vou morrer por castigo, vou morrer devido ao desgaste natural das células vitais. O coração bate cada vez mais debilmente, sem forças de impulsionar a massa viscosa que é o sangue estragado pelo colesterol. Que se dane! Afinal, para que viver muito tempo, 80, 90, 120 anos, para ficar encarquilhado em cima de uma poltrona usando fraldão e cheio de escaras, dando trabalho para os filhos? Melhor jogar tudo em uma única cartada, entrar em algum cassino com as parcas poupanças e apostar todas as suas fichas no preto 17, e depois passar uma noitada alegre na suíte presidencial, ali onde Getúlio Vargas comeu a Virgínia Lane, ou vice-versa. Depois, já que o Getúlio veio à memória, sair da vida para entrar para a história, pois esse povo de quem fui escravo jamais será escravo de ninguém. Lance de tragicomédia, Perón também fez, Somoza, todos os ditadores e salvadores da pátria gostam de cenas operísticas, sopranos com as veias do pescoço ingurgitadas, descabeladas gritando dentro das suítes de hotéis de luxo.

Será que alguém se deu bem na vida? Fulano se realizou, pode morrer em paz, fez tudo o que quis, um verdadeiro herói do povo. Afinal, o povo precisa de heróis, exemplos em que se espelhar. Vários jogadores de futebol se deram bem, políticos admirados pelo rouba, mas faz, que nunca foram pegos pela polícia tem fortunas no exterior que nunca vão gozar, industriais responsáveis por complexos de fábricas importantes para a humanidade, aqueles que arrumam trabalho para essa gente sofrida. Estarão eles realizados, olhando as suas vidas do alto de muitos anos e com um sentimento imenso de satisfação?

Não é o caso, não é o caso, ele entrou em depressão profunda após descobrir que sua vida havia sido um enorme fracasso. Não só nada fizera de importante, como se descobrira um inútil para qualquer trabalho, com uma pequena aposentadoria após todos aqueles anos de serviçal dos poderosos. Bem, mas não tinha mais grandes necessidades. Quando tenho fome cozinho legumes no fogo de folhas secas. Quando tenho sede, bebo da fonte.

Mas que fonte, meu caro? Legumes custam centavos, folhas secas não há em parte alguma. Um botijão de gás natural é isso que precisas. Vamos lá comprar esse gás. Vamos encher a barriga com a comidinha insossa, depois lavar os pratos.

Almeida saiu para comprar o gás. Depois se lembrou que bastava telefonar e vinha um gajo equilibrando o botijão numa motocicleta. Pronto, ligou e encomendou. Dez minutos depois já tinha fogo para esquentar um pão dormido na chapa e fazer café. Na sua sombria perspectiva de dia, lembrou também que tinha que tomar banho, fazer a barba e trocar de roupa, para poder sair às ruas sem ser confundido com um mendigo. Várias tarefas importantes apareceram, um dia ganho em que procurava manter a dignidade.

Posfácio:
Romances, novelas, obras de maior fôlego... Já comecei vários. Terminei apenas um, que permanece inédito. Afinal, por mais que se escreva, pode ser que ninguém se interesse em ler. Isso lembra uma dessas frases cheias de sabedoria que li em alguma parte. “Por mais que o bezerro queira mamar, muito mais a vaca quer dar...” Bem, não sou propriamente uma vaca, mas gostaria de dar muito mais. Por enquanto deixo o texto acima que apresenta o início de mais um romance provisoriamente interrompido.
Jacques Levin.
Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 19/07/2007
Código do texto: T571472


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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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Jacques Levin