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O Rei Mestiço

Seus trapos suavemente deitados sobre o chão, como uma extensão de seu corpo. O rei mirava o horizonte do lugar mais próximo do firmamento, o topo do seu próprio mundo, uma colossal estrutura piramidal onde, no seu ponto mais alto, jazia um trono imponente como nenhum outro jamais fora. De sua base à posição ocupada pelo rei, a estrutura justificava seu título de baluarte do reino mais forte que já existiu no mundo.
O rei foi tomado pelos pensamentos nostálgicos e esperançosos que enchiam sua alma por dentro sempre que observava o horizonte que um dia já fora seu. Julgou o balançar das asas dos pássaros que um dia já foram seus, enxergou as nuvens e o mar que, igualmente, um dia já foram seus, e, repentinamente, o rei se viu ao horizonte e baixou o olhar.
Quilômetros abaixo de si, o rei observava seus generais comandando seu exército, a Armada Vermelha, para uma guerra que nem sequer era sua. Uma negociação malfeita, um acordo com governantes de índole duvidosa, e o que se tem como resultado é imutável: morte. O rei, então, em questão de segundos transformou-se em uma névoa negra e, como se parte do ar, deslizou na atmosfera até o campo de batalha, depois da muralha que protegiam a grande pirâmide, constituindo, assim, uma fortaleza impenetrável.
Os que avaliavam o rei por suas vestimentas e seu modo de agir, o subestimavam ao ponto de não terem uma segunda chance de julgá-lo. A uma primeira vista, seus trapos podiam representar pobreza e decadência, mas para o rei mestiço, quanto mais trapos constituíssem a sua capa, maior era seu poder. Dizia-se que cada pedaço de roupa adicionado à coleção representava uma alma à sua altura que perecera em combate com ele.
— General Mantys, reúna seus guerreiros e siga para o flanco direito, os homens da general Ferya cobrirão a sua passagem. Rápido! — Ordenou o rei ao chegar nas margens do campo de batalha, de onde os generais observavam suas tropas e coordenavam a movimentação de seus guerreiros.
Mantys de Kai Uhr era um homem extremamente forte e corpulento, com os cabelos brancos e a barba volumosa de mesma cor. Portava uma espada bastarda grande o suficiente para que ele fosse um dos poucos homens comuns capaz de manuseá-la. O general prontamente soou a corneta três vezes, sinal que indicava que suas tropas deveriam se reagrupar e mudar de posicionamento.
O rei logo se deslocou até a general Ferya e ordenou que ajudasse a garantir a estratégia passada para Mantys e em seguida convocou os irmãos Gutt e Tutt, generais da terceira tropa e deu ordens para que ambos reagrupassem seus homens e atacassem pelo flanco esquerdo. O que podia ser visto de cima era o exército inimigo sendo empurrado na direção das tropas da general Ferya por inércia e posteriormente sendo engolido pelos flancos, se desmantelando e sofrendo uma constrição de ambos os lados.
— Parede de escudos! — Ordenou Ferya, criando uma espécie de prisão para as tropas adversárias.
Depois de mais alguns minutos de batalha, arqueiros que, segundos antes, jaziam mortos no alto da muralha que rodeava a gigantesca pirâmide, voltaram a disparar flechas e mais flechas sobre o exército inimigo. Nuvens de flechas em chamas cobriam os céus sobre os adversários, e, triunfantemente, iniciava-se o que todos os generais subordinados ao rei mestiço denominavam de “o milagre do rei”.
Os homens comandados pelo rei mestiço não sabiam como e nem quando o rei fazia aquilo, mas seus parceiros de combate, mortos a pouco, voltam a lutar como se seus corações batessem sedentos por batalha e vitória.
O rei mestiço seguiu para o miolo da batalha, com o exército adversário já enfraquecido, partiu para o combate direto. Alternando entre sua forma humana e uma forma de névoa e sombras ele se esgueirava entre os guerreiros, cortando inúmeros com sua espada denominada Hel, a Amiga dos Mortos. Quando o rei entrava em combate direto, era como se seu exército tivesse dobrado seu contingente, o rei valia por milhares de guerreiros.
— Dispersar parede de escudos! — Gritou ao longe Ferya. Agora as tropas avançavam de forma mais dispersa, visto que o rei causara o desmantelamento da formação inimiga.
No campo aberto, outrora verde e brilhante, o sangue de corpos e mais corpos de homens e mulheres escorria pelo solo em um rio escarlate que fluía tão rápido quanto a espada do rei mestiço. Dentro de poucos segundos, o Mago dos Trapos, como também era conhecido, havia derrotado milhares de soldados, derrubado diversos cavalos e subjugado todo o exército inimigo. Seu rosto banhado em sangue, tal qual sua lâmina genocida, demonstrava desejar somente guerra e morte. Seus olhos fitavam os corpos desfigurados e membros decepados espalhados pelo campo de batalha.
O rei mestiço então ergueu os olhos e vislumbrou uma onda negra que parecia engolir toda a vida e luz por onde passava. Quanto mais perto as sombras chegavam, quanto mais seus infinitos braços e pernas a arrastavam adiante, mais fácil o mago dos trapos podia identificar quem eram seus novos e verdadeiros adversários. Criaturas esqueléticas, com partes em putrefação e faces em desespero, portando escudos e espadas avançavam sobre a armada vermelha. Gritos de fúria e agonia, cheiro de sangue e sons de espadas se chocando se mesclavam em uma sinestesia única de uma guerra onde um dos dois lados seria reduzido a nada.
E então o rei sentiu, antes mesmo de ver, a presença mais assustadora e opressora que havia sentido ou poderia sentir. O Deus da Morte, Mirtyr. Um ser que, mesmo se visto face a face, é difícil de ser descrito. Sua foice gigantesca de duas lâminas, com um lenço negro amarrado ao cabo e dois guizos presos no topo da arma, é sua marca principal. Mirtyr moveu-se lentamente em direção ao rei mestiço, que o observou se aproximar completamente paralisado. A pressão causada pela presença do deus era avassaladora, algo com que mesmo um humano extremamente forte e habilidoso em magia dificilmente seria capaz de suportar.
— O Rei Mestiço... — Analisou Mirtyr. — Você sabe quem sou eu? — Apenas o rei escutava o deus, e sua voz era agoniante, amedrontadora e profundamente intimidadora.
Sim. O mago dos trapos tinha certeza de que sabia quem era aquela entidade. Aquela energia. A simples existência daquele ser tornava toda a grandeza de seu reino em absolutamente nada. Mas qual o motivo disso? Por que vir até aqui tão de repente e avançar sobre o meu reino? Perguntava-se o rei, desesperado.
— O motivo? — O Deus da Morte sabia muito bem tudo o que se passava na mente do monarca. — Ora, não é difícil, esforce-se.
O rei continuou estático. Sem reação. Aquele deus era absoluto perante ele, e nada podia ser feito quanto a isso.
Mirtyr, três vezes maior que um humano normal, segurou o mago dos trapos pelo torso com uma mão e o arrastou para outra dimensão, uma dimensão na qual, até então, apenas os mortos e o próprio Deus da Morte haviam entrado. Vazio. Rochas. Frio. Uma escuridão eterna para onde os mortos vão para descansar. Um descanso com um motivo. No fim de tudo, esses mortos retornarão como o exército de Mirtyr, prontos para lutar a última guerra do mundo e recuperar a sua honra.
— Todo esse infinito é meu reino, rei mestiço. — Iniciou o deus. — Desde o início dos tempos sou eu quem decide o caminho e a função dos homens e mulheres corrompidos a partir do momento em que morrem. — Ele deu uma pequena pausa e então sua face inenarrável se tornou pura raiva. — O que você é, rei mestiço?
O monarca continuava sem reação, a pressão espiritual emitida pela entidade era inimaginável.
E então Mirtyr perdeu de vez as rédeas:
O que você é, rei mestiço?! — E a pressão aumentou. O homem sentia como se seu corpo fosse explodir a qualquer momento. — Um necromante! — E então todo o vazio que representava o reino do Deus da Morte estremeceu com a sua fúria. — O que você acha que acontece com os espíritos dos mortos quando você os revive para satisfazer seus anseios, mago? — Perguntou, retoricamente. — Eles ficam presos, em agonia! — Exclamou a entidade. — Mas isso você já sabia, não é mesmo? Quando tentou trazer de volta a sua mãe, você percebeu isso.
O corpo do rei tremeu de ódio e, com um grito de fúria, tentou se transformar em sombras para atacar o deus. Inutilmente. A entidade havia tocado em uma ferida escondida no âmago da alma do mago, mas a diferença de poder entre os dois era abismal.
— Dói? Eu sei que dói, eu também sinto a dor, rei mestiço! O que você fez foi uma afronta à minha existência. Invadir o meu reino com sua magia suja e apodrecida? Roubar o descanso das almas para garantir seus desejos humanos tolos e fúteis? Você errou, humano. Os mortos são responsabilidade minha, e você não respeitou a minha existência. Agora você há de pagar pelos seus erros.
Repentinamente o rei se viu de volta ao campo de batalha. Seu exército já havia sido praticamente todo derrotado, sobrando apenas alguns generais e poucos soldados lutando até a morte em uma guerra já perdida.
— No momento em que escolheu abraçar as ganâncias humanas por bens e prazeres físicos e a ânsia por glória e fama, abriu mão de todo o universo que poderia ser seu. Eu sei que sente falta de ser dono do mundo. Tudo era seu, certo? Agora você parece ter tudo ao mesmo tempo em que não tem nada. — Analisou o deus. — Isso só demonstra o quão egoísta é o ser humano, e o quão medíocres são os indivíduos dessa natureza. Agora você entende o motivo dessas almas virem até mim? Se você as prender no mundo dos vivos, elas permanecem prisioneiras dos defeitos humanos.
A partir daquele momento, o rei mestiço entendeu a diferença absurda de poder entre ele e o deus e aceitou seu destino infame. Então era isso, seu fim seria nas mãos de um deus. Até que não é um fim ruim para um homem. Conhecer um deus, e além disso, morrer pelas mãos de um, era uma experiência que poucos humanos tiveram ou poderiam ter na vida. Afinal, quem o culparia por ter perdido uma batalha contra Mirtyr, o Deus da Morte?
O mago se prostrou ao chão e aguardou sua sentença com determinação. Ouviu-se então um som de guizos, o único som que alguém escuta quando chega a hora de sua morte. Vazio. Trevas. Agonia. Agonia. Agonia! Apenas Agonia!
A punição dada pelo Deus na Morte não foi a simples morte do rei. A alma do mago dos trapos estava agora presa na realidade dos vivos até o último dia do mundo, o momento em que toda e qualquer alma poderá se redimir de seus erros e frustrações.
No fim das contas, o mago dos trapos não foi infeliz, mas se deixou cair nas garras do instinto e da natureza humana. Um caminho sem volta e dos quais se perdem as rédeas com a mesma facilidade com que as folhas navegam ao vento. O instinto e a ganância humana são como o mar de ressaca de Tjärd, o Deus dos Mares: se o homem se deixar levar, é engolido e arrastado para as profundezas, sem quaisquer chances de vitória, e, no fim, a agonia é tudo o que resta em um vazio infindável.
Leonardo M Botelho
Enviado por Leonardo M Botelho em 13/03/2018
Reeditado em 16/03/2018
Código do texto: T6279124
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Leonardo M Botelho
Belém - Pará - Brasil, 20 anos
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