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O Círculo Branco

Nos confins das planíces de Sarom, ao norte da cidade de laurn, próximo aos abismos de hell, existia uma imponente cidadela remanescente de épocas antigas, sob cujos muros lutaram príncipes de nações contra um mal terrível e tão antigo quanto a própria criação.
Conta-se que aquele lugar à margem do abismo fôra durante muito tempo o campo de batalha, onde as tropas leais ao Rei dos reis, oriundas da aliança dos doze tronos ofereceram resistência ao imperador do caos, O Cavaleiro Negro.
Nos séculos seguintes a cidadela do abismo ficou completamente abandonada e tornou-se nada mais do que um monumento da lembrança de que os homens lutaram pela sobrevivência contra os deuses do submundo, soldados do cavaleiro negro. Ela servia apenas como rota de passagem para mercadores que rumavam para as cidades das montanhas; a paisagem que existia há uma centena de décadas, negra, rochosa e infértil deu lugar com o passar dos tempos a um belo descampado que se assemelhava a planíce de sarom do outro lado das bordas do abismo.
Na última vintena de décadas, pessoas de todas as partes das circunvizinhanças, mercadores, agricultores, ferreiros, fazendeiros, sacerdotes e muitas outras “castas” humanas acabaram se estabelecendo dentro das muralhas da cidadela, pois aquele solo oferecia toda a oportunidade de que precisavam para prosperarem; estavam perto o suficiente dos povoados que também se estabeleceram pelos caminhos entre planíces e montanhas; que eram seus maiores consumidores de produtos e serviços. Os impostos eram coletados a cada ano por uma comissão vinda da cidade mãe, que ficava a um mês de distância para os peregrinos que andavam a pé, ou quinze dias de cavalgada.
Tudo absolutamente transcorria perfeitamente naquelas bandas do reinado, mas existia também uma lenda rezando que todas as vezes que os deuses do abismo se erguessem e começassem a arregimentar suas hordas; eles fariam isso através do uso indiscriminado de magia; as terras nos limites da boca do abismo seriam as primeiras a sentirem os efeitos destrutivos e logo mensageiros tinham que ser enviados para alertar aos descendentes da aliança dos doze tronos que, por sua vez, deveriam se unir novamente sob a mesma bandeira para comandar seus exércitos caso o combate fosse necessário.
Aconteceu que o tempo cauterizou a memória dos homens sobre a face da terra e a grande maioria esqueceu-se do ocorrido em épocas longínquas, outros, porém encaravam os fatos contados nas antigas canções como nada mais do que fábulas inventadas para que suas crianças não dormissem direto à noite.
Os habitantes da cidadela viviam tranqüilamente sem perceber o perigo crescendo bem próximo das muralhas.
Felizmente um antigo eremita vivia em terras próximas da cidadela e sendo ele fiel as antigas Palavras sobre o retorno do cavaleiro negro e a batalha contra os herdeiros dos doze tronos, resolveu cavalgar para dentro do território das muralhas e comunicar a seu governador  tudo que tinha visto nos últimos dias.

“Meu lorde_ começou, dirigindo-se ao governador _ As forças do antigo Cavaleiro das Sombras começaram a se reerguer como previram as Escrituras”.

Mas todos que compunham a alta cúpula da cidadela não criam mais nas antigas palavras ditas pelos reis de outrora e seus heróis; e assim sendo, fizeram pouco caso do alerta dado pelo eremita.
Mas ele insistia:

“senhor governador, envie o alerta para a cidade mais próxima antes que seja tarde demais para cada homem e mulher atrás destas muralhas; vem a hora em que os habitantes da cidadela terão de lutar contra um mal com o qual nunca sonharam”.

Muito embora o governante do lugar não tenha dado crédito a nada que Elidwin o eremita tenha dito; ele saiu a falar pelas ruas da cidadela, em pouco tempo à pequena guarda constituída com o único propósito de manter a ordem nas pequenas vilas acabou prendendo-o e encarcerando nas baixas masmorras sob a acusação de perturbação.
Mas aí veio a noite e o vento que soprava desde as montanhas antes dos mares trazia consigo mais do que somente chuva. Quando a luz do dia já quase não brilhava mais simultaneamente os dois sentinelas colocados nas mais altas torres viram ao longe uma guarnição cavalgando impetuosamente rumo aos portões frontais da cidadela, embora não fosse uma força superior a cem homens, estavam bem armados e também utilizariam magia. Certamente era a vanguarda dos combatentes do abismo, todos em armaduras negras como a própria noite em uma formação triangular cujo primeiro cavaleiro trazia desfraldado ao sabor do vento o estandarte com a imagem medonha do dragão com cauda de serpente; rapidamente os sentinelas deram o sinal e a pequena força de defesa montada as pressas se reuniu sobre o grandioso murro; fazendeiros, marceneiros, agricultores, pescadores, religiosos e outras pessoas que viviam dentro das muralhas.
Do lado de fora os cavaleiros e bruxos começaram sua investida, um deles ergueu uma espécie de cetro e pronunciando palavras que morreram há séculos, invocou nuvens carregadas que derramaram suas lágrimas sobre toda a planíce de Sarom; assim, de repente.

Magia!_ gritavam os homens sobre a muralha_ Eles estão usando magia.

Os outros cavaleiros começaram cavalgando em círculos e em seguida avançaram rumo ao portão, por outro lado uma pequena cavalaria foi enviada para interceptá-los antes que chegassem ao grande portão ao mesmo tempo que todos aqueles que sabiam disparar flechas foram alocados sobre as ameias da muralha; a estratégia era derrubá-los na planíce e ganhar tempo enquanto mensageiros seriam enviados por um caminho seguro para além das montanhas afim de convocar o primeiro dos doze reis.
Quando os bruxos do abismo chegaram perto da fila de defesa despreparada os arqueiros dispararam e foram bem sucedidos; ficou claro que muitos dos soldados negros nada mais usavam do que finas cotas de tecido, mas a ganância de retornar a batalha era tamanha que ignoraram suas próprias fraquezas para empreender um combate inicial, muitos dos inimigos tombaram, mas ainda assim mais da metade chegou intacto ao portão, e entre eles os quatro verdadeiros bruxos do abismos, homens que corromperam-se de tal forma que venderam suas vidas para o Cavaleiro negro, a antiga serpente, e se tornaram seus acólitos. Um deles segurava imponente o estandarte do dragão; outro, o cetro das tempestades, outro envergava a armadura da escuridão e por fim o quarto trazia consigo o livro do medo.
Sob o comando destes seres a tempestade intensificou sua força; a resistência lutava desesperada mais souberam quando o portão caiu sob o efeito das magias que não passariam daquela noite; e arrependeram-se de não ter dado crédito aos avisos do eremita. A escuridão da noite já havia penetrado os corações dos aldeões e o medo já estava presente de uma forma violenta machucando as mentes de cada pessoa naquele local, exeto um.
Elidwin estava aprisionado em uma das antigas masmorras subterrâneas sob pesados grilhões e conformava-se em ouvir a fúria do combate.

“Enquanto as pessoas não verem os sinais não crerão, entretanto o tempo está se esgotando e pode ser tarde demais”._ pensava consigo mesmo desejando uma única oportunidade de mostrar que nem tudo estava perdido.

Alguns momentos depois um dos carcereiros veio correndo e trazendo as chaves da masmorra; abriu a porta pesada de ferro puro e disse:
_O governante precisa de todas as pessoas lá em cima para que defendam a cidadela das aberrações do abismo; estamos libertando todos os prisioneiros.

Elidwin sabia que os quatro bruxos já haviam passado pelos portões e agora caminhavam em solo mortal, trazendo após si o medo e o caos. Rapidamente ele e o carcereiro subiram para o combate, mas chegando no lugar da batalha a visão foi muito pior do que esperava, em pouco tempo uma segunda guarnição de soldados passou pelo lugar onde ficava o portão tombado, saqueando e destruindo tudo que encontrava pelo caminho; havia ainda poucos homens defendendo a cidadela numa tentativa vã de espantar os invasores, mas foi o suficiente para despertar a chama que queimava viva dentro o eremita. Ao ver o céu vermelho derramando toda aquela torrente de chuva o eremita lançou mão de uma das lanças partidas no chão e correu para ajudar seus aliados, mas ele não estava sozinho naquele ataque e uma luz branca, violentamente poderosa desprendeu-se da ponta da lança ofuscando os que ainda resistiam e amedrontando as forças invasoras, em segundos todos os habitantes da cidadela contemplaram a luminosidade fazendo com que os soldados do escuro recuassem, mas alguns deles que tentavam resistir a Luz acabavam sendo consumidos por ela, até mesmo os quatro bruxos forçando suas magias sombrias não encontraram forças para resistir e retrocederam sumindo ao longe dispersos.
As pessoas que ainda estavam ali puderam ver além da poderosa luz que conduzia de volta para os buracos de onde tinham saído às hordas da noite; sobre a cabeça de Elidwin havia se formado um círculo branco como uma aureola de luminosidade sem par. Todos sabiam o significado de tal fenômeno, ele era um dos portadores da luz que confrontou o imperador do submundo; Elidwin, o eremita, era descendente de um dos doze tronos.
A noite se foi e na manhã seguinte todos que ainda viviam estavam reunidos para ouvir as palavras daquele que os livrara dos fantasmas noturnos:

_ Cada geração tem a oportunidade de confrontar seu próprio mal, como nossos antepassados que tão bravamente confrontaram a antiga serpente nós agora somos chamados para fazer nossa parte, preparemo-nos e fortaleçamo-nos no tempo que nos resta porque o que houve ontem aqui foi apenas o princípio.

Tanto o governador quanto todas as pessoas sobreviventes gritaram em uma só voz.
_ Viva ao estandarte do Leão!
_ Viva aos doze tronos!
_ Viva ao Rei dos reis!

Assim começou o novo círculo histórico de combates nas terras longínquas e a busca pelos outros onze regentes.
Luiz Cézar da Silva
Enviado por Luiz Cézar da Silva em 03/09/2007
Código do texto: T636054
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Sobre o autor
Luiz Cézar da Silva
Nova Iguaçu - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Luiz Cézar da Silva