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Meggie

No último dia em que a vi, ela se encontrava no mesmo lugar de sempre, só que sem a habitual vitalidade. Quando cheguei, já estava caída no chão com os olhos esbugalhados. Eu não conseguia acreditar no que via. Aproximei-me dela e pude perceber que o azul daqueles olhos ainda continuava sereno, dono de si. Ela pediu-me que sentasse ao seu lado, tinha algo para dizer-me. Sentei-me e fiquei ali contemplando aquela criatura tão querida, lembrando de tudo que me havia acontecido...

Um dia, perdi minhas esperanças e crenças, perdi meu rumo, meu caminho. Nada mais compensava... Afinal, de que valia amar se, depois, tudo mudaria de novo? De que valia me importar se nada mais tinha importância? Eu não tinha mais propósitos, muito menos metas. A vida era vagar sem destino, aceitando a lânguida calmaria de cada novo amanhecer. E assim eu ia (sobre) vivendo numa trajetória exclusivamente contemplativa. Eu via as coisas de longe. Nunca sentia nada. Acho que por isso, na verdade, eu não vivia. Pelo menos não até ter conhecido Meggie.

Meggie era uma pessoa encantadora. Era dessas que andam pela rua a procura de um pouco de comida e carinho. Ela tinha um Deus. Um Deus só seu, cheio de toda a ternura e justiça que um representante desse espécime deve obrigatoriamente ter. Confesso, era até uma coisa bonita de se ver ela falando Dele. Nessas horas, aqueles olhinhos conseguiam ficar ainda mais encantadoramente azuis. Ganhavam um brilho único, inigualável.

Durante dois meses, todos os dias eu voltava àquele mesmo beco, onde a conheci com o intuito de conversar um pouco mais. Meggie tinha sempre as palavras certas nas horas certas. Várias vezes, durante esse tempo, eu a chamei para morar comigo em meu apartamento, mas ela sempre recusava polidamente. E quando eu lhe perguntava o porquê, ela respondia calmamente “por enquanto, aqui é o meu lugar”.

Os anos, naturalmente, foram passando e a cada conversa, a cada lição eu passava a acreditar mais na vida e na felicidade. A cada sorriso eu acreditava mais na esperança. Eu havia aprendido a viver. Ela, Meggie, havia me ensinado isso.

Nossos laços eram cada vez mais fortes e sempre conversávamos a respeito de tudo. Tudo menos o passado dela. Eu percebia a sutil alteração na expressão, além da rápida e engenhosa mudança de assunto sempre que o ‘antes’ era suscitado. Nunca entendi o motivo e aquilo me torturava. Seria possível que ela pudesse ter feito algo muito ruim? Não sei, uma vida criminosa, drogas, um assassinato? Roubos? Seria Meggie alguém que fizera coisas desse tipo? Tudo era possível.

Agora, depois de todo esse tempo, ela estava nas minhas mãos, se esvaindo aos pouquinhos. O que ela teria feito no passado tão bem guardado? O que ela teria para me falar agora?
 
Nesse instante os lábios de Meggie moveram-se lentamente: “Nasci no dia em que te conheci e hoje tenho por cumprida minha tarefa. Tu já acreditas na vida, tu já acreditas em ti”.

DATA TEXTO: 02/04/2005
Mariana Serra
Enviado por Mariana Serra em 04/09/2007
Reeditado em 04/09/2007
Código do texto: T638769

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Sobre a autora
Mariana Serra
Teresina - Piauí - Brasil, 28 anos
13 textos (668 leituras)
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Mariana Serra