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A Parábola do Primeiro Pecado

Não estava quente. O tempo ameno pedia por um lanche especial. Demos voltas e voltas pelo jardim, até encontrarmos a refeição perfeita.

 - Não acho uma boa ideia. - Ele disse. - É dessa árvore que Nosso Senhor nos proibiu de comer.

Examinei o fruto vermelho com as mãos, a casca lisa, as sardas claras, contrastando com o escarlate do fruto proibido.

 - Se comerem desse fruto, certamente morrerão. - Citei o que lembrava da frase, floreando-a com estilo para que se tornasse tão bela quanto o fruto. - Pois te juro uma coisa, meu marido e companheiro. Quando nossos filhos caminharem sobre os jardins, quando meu último fio de cabelo se cobrir em prata, quando nada mais restar de minhas forças, esse fruto será minha despedida.
 - Você enlouqueceu, por um acaso? - Respondeu. - Deus nos deu todas as árvores e frutos, governamos sobre as aves e peixes. Por que é desse fruto que você precisa comer?

Olhei meu marido nos olhos, mas não encontrei nada para dizer. Sorri.

Naquela noite tive um sonho. Sonhei que era um fantasma, navegando o firmamento celeste de ponta a ponta. Na terra, via-se árvores das cores mais distintas, animais do pelo mais brilhante, quis navegar mais longe, quando tudo se cobriu numa névoa, e acordei assustada.

 - Minha mulher, o que houve?
 - Tive um sonho desagradável, vou dar uma volta.

Três animais vieram se encontrar comigo durante o passeio, o primeiro deles foi a lebre.

 - Sei pra onde vai, querida. Sei também o que deseja. Eu tenho uma e apenas uma coisa para lhe dizer: faça. Um desejo que não se cumpre não desaparece; torna-se maior, engole as virtudes dos homens e passa a atormentá-lo tanto na vigília quanto no sono.

O segundo deles foi a leoa.

 - Vocês homens. Quando vão aprender que nem tudo lhes é direito. Deus vos deu sua imagem e semelhança, todos os seres vivos, animais e plantas, para lhes servir. E eu, como tal serva, lhe aconselho: não coma do fruto. Deus lhes advertiu da morte, mas quem sabe que piores horrores poderão vir daquela árvore?

O terceiro animal que me cruzou o caminho foi a serpente, o mais astuto deles.

 - A morte. Que tamanho absurdo. O que há de encontrar ao comer aquele fruto não é a morte, senão algo muito maior: o conhecimento do bem e do mal. Vocês se tornarão como Deus. Coma, minha querida. Coma do fruto e garanto-lhe que não se arrependerá.

Cheguei até a árvore e novamente lhe examinei o fruto. Do dia para a noite, algo se transformara nele: as cores eram mais vivas, as sardas mais evidentes, a pele mais lisa. Passei algum tempo examinando-o cuidadosamente. Até que cansei e cochilei aos pés da árvore.

 - Perdão? - Ouvi enquanto acordava. - O que está fazendo aqui, minha mulher? - Era a face de meu marido, distorcida pelas areias do sono.
 - Tirava um cochilo.
 - Pois voltemos ao nosso leito. Está quase anoitecendo.

Naquela noite, não aguentei e pus-me a chorar. Algo aterrorizante me enchia o peito. Meu marido acordou.

 - Outro sonho ruim, meu bem?
 - Não. É o fruto, eu não consigo parar de pensar no fruto. - Ele levou os dedos à têmpora e abaixou a cabeça.
 - O que te atrai tanto naquele fruto? Que tipo de desejo a faria abnegar da própria vida?

Não respondi e voltei a dormir. Passei a visitar diariamente a árvore. Agora não apenas olhava o fruto, mas toda sua composição: a folhagem volumosa, a madeira escura, as raízes tão acolhedoras. Gostava de tocá-la, sentir seu corpo contra o meu, o conforto tão peculiar que ela proporciona. Adormecia quase sempre. Passei a convidar meu marido para fazer refeições ao seu lado. Incluí, pouco a pouco, a árvore no nosso convívio familiar.
Certa noite, acordei com o som de soluços. Meu marido chorava.

 - O que houve, meu amor? - Ele me olhou. Mesmo na penumbra, consegui ver seus olhos inchados e úmidos.
 - Tive um sonho ruim. Sonhei que você comia o fruto. Meu amor, por favor. Me prometa. Prometa não comer daquela árvore. Temo por você, e temo ainda mais por mim. Não suportarei uma vida de solidão.
 - Eu… - um desconforto ainda maior se formou em meu peito. - Eu não posso prometer nada. Aquele fruto me chama, noite e dia. Eu sei que é difícil pra você, mas peço que pense em mim, apenas dessa vez.

Silêncio, voltamos a dormir e nada mais foi dito.
Algum tempo depois, num fim de tarde, estava sozinha ao pé da árvore. Meu marido havia ido pescar. Levantei de um cochilo e subitamente me vi frente a frente com o fruto. Nunca antes suas cores estiveram tão vibrantes. Nunca antes suas sardas foram tão evidentes. Comi, e enquanto comia, a vida ganhou um novo significado para mim. Pela primeira vez, percebi que estava nua, e pela primeira vez percebi que gostava de estar nua. Abracei a árvore com toda a força do meu corpo e dei uma segunda mordida. Logo se seguiram uma terceira e uma quarta, e de repente tudo girou e me vi caindo no chão, perdendo completamente os sentidos. Quando dei por mim, meu marido estava à minha frente, com o rosto desfigurado de terror e desencanto.

 - Por quê? - Não respondi. Dei-o de comer. Ele hesitou, mas pegou o fruto de minha mão e deu uma mordida. Depois de engoli-la, finalmente proferiu: - A serpente nos enganou. Comi do fruto e não tomei o conhecimento do bem e do mal, pois percebi que dele já provara muito antes.
Marcelo Rosa
Enviado por Marcelo Rosa em 09/11/2018
Reeditado em 09/11/2018
Código do texto: T6498160
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Marcelo Rosa
São Paulo - São Paulo - Brasil, 23 anos
9 textos (308 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/11/18 03:06)