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Apoteose

Para ele, desde os quatorze anos, o ano se dividia em antes e depois do carnaval. Era assim que contava os dias. Daquela vez, contudo, já com dezesseis anos, as coisas começaram a mudar.

Foi com Juquinha e Robson para Arraial do Cabo, onde diziam que o carnaval era muito bom. Na primeira noite, dispensou a fantasia de astronauta que tinha combinado com os amigos usar. Optou pela cara limpa, sem fantasia, sem disfarce.

A meta de Juquinha era superar seu próprio recorde e beijar 19 garotas. Robson era mais modesto – ou seria mais dedicado? Queria beijar somente cinco, uma por cada hora que durasse a brincadeira. Já ele, naquele ano, pensava diferente, queria só uma.

Quando chegaram à praça, a festa já rolava animada. As fantasias prateadas de Juquinha e Robson fizeram o maior sucesso. A primeira garota que o olhou por mais de três segundos, Juquinha já partiu para o abraço. Robson escolheu um pouco mais, mas logo já estava também atracado com uma menina num cantinho escuro.

Ele não. Olhou, olhou, fingiu que não percebeu alguns olhares em sua direção, fugiu de um trenzinho, foi se refugiar num ponto estratégico da praça, onde podia ver quem chegava e quem saía.

Foi então que aconteceu. Quando bateu os olhos em Ludmila, uma moreninha de cabelos castanhos, cacheados, seu coração bateu mais forte do que o bumbo. Estavam a cinco ou seis metros um do outro, entre eles dezenas de pessoas. Uma chuva de confetes cor-de-rosa caiu sobre os dois. Mesmo de longe, ele sorriu e ela sorriu de volta. Depois, cada um deu dez passos em direção ao outro, dançando, braços agitados no ritmo do samba.

Parecia que já se conheciam há muito tempo, tal foi a afinidade que descobriram existir entre eles. Conversaram muito, pularam juntos, riram, brincaram a valer.

Nas noites seguintes, enquanto Juquinha e Robson empenhavam-se em quebrar seus recordes, ele e Ludmila se procuraram mesmo sem terem combinado nada.

Na última noite, porém, aconteceu algo inesperado. Uma grande briga, seguida de uma enorme confusão encerrou mais cedo a festa do carnaval. Houve tiros e correria. No tumulto, acabaram se perdendo um do outro.

E agora? Iludidos pela fantasia de que o carnaval iria durar para sempre, não se lembraram sequer de trocar telefones, e-mails, msn, nada. Ficou arrasado. E o pior de tudo: onde arranjar motivação para ir à aula? Como se concentrar em conjunções e equações se só pensava em Ludmila?

Na sala, no primeiro dia de aula, estava triste, cabisbaixo. De repente, num breve instante de lucidez, ouviu o professor anunciar que ia apresentar os novos alunos. Essa aqui é a Ludmila, disse o mestre. Ou teria sido impressão, traído pelos próprios sentimentos?

Levantou a cabeça, seus olhos brilharam, seu coração bateu novamente no ritmo do bumbo de Arraial do Cabo. Era ela.

Os olhos dos dois se encontraram.

Ele levantou da carteira e, como se não tivesse havido aquele breve lapso de tempo, começou a sambar e sambando foi em direção a Ludmila.

Como se tivessem combinado, ela fez o mesmo, começou a requebrar e foi ao seu encontro.

O espanto durou poucos segundos. Alguém bateu o apagador no quadro-negro, fazendo uma poeira de giz cor-de-rosa pairar no ar. E a turma toda começou a batucar nas carteiras, transformando a sala de aula numa autêntica Praça da Apoteose.
Carlos Eduardo Melo
Enviado por Carlos Eduardo Melo em 13/09/2007
Reeditado em 13/09/2007
Código do texto: T650533

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Sobre o autor
Carlos Eduardo Melo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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