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GLAUCIA - EM BUSCA DA JÓIA DE SETE FACES - parte 2

          Após desceram o topo de uma montanha, esgueiraram-se por fendas de rochas pontiagudas evitando fazer qualquer ruído brusco. A ave foi no ombro de Giz Ellen e os demais foram seguindo Gláucia. Ao descerem todo aquele declive, chegaram ao vilarejo abandonado e viram orcs com armaduras de aço enferrujado e espadas enormes. Os orcs tinham rosto de javali e corpo de homens, porém muito corpulentos.

          DeoMiro, como era o mais rápido, visualizou o local por cima de um telhado sem que ninguém o avistasse. Tendo feito isso, desceu rapidamente e disse que todos os orcs estavam grunhindo palavras não inteligíveis uns aos outros.

          Quando o grupo avançava pelos escombros dos muros, Gláucia sentiu outra pontada na cabeça e, na velocidade do brilho de um relâmpago que surge e logo desaparece, viu num relance dois olhos negros com a pupila vermelha. A dor da pontada e a visão assustadora fizeram com que ela desse um grito de agonia, o que levou os orcs a notarem a presença dos guerreiros:

- Droga, Gláucia! Eles nos viram. – disse com ira Augusto que estendendo as mãos em direção aos orcs que avançavam na direção deles lançou uma nuvem espessa, negra, como uma sombra, que os envolveu nas trevas, impedindo-os de continuar a se mexer.

- Rápido, DeoMiro. Não vou conseguir contê-los por muito tempo. Eles são muito fortes!

          Imediatamente DeoMiro lançou mão de sua espada e num salto cortou a cabeça dos orcs que estavam presos na nuvem negra.

          De repente do meio dos escombros surgiram mais orcs, todos com suas espadas e clavas nas mãos, babando e grunhindo. Nesse instante Augusto levantou as mãos ao céu e invocou os poderes da Lua, que ainda não aparecera com todo o seu brilho, visto que ainda era tardezinha.

- Pelos deuses! Está anoitecendo muito rápido! Mas como? Creeeedooooo!!!

          O céu foi enegrecendo ao ponto de tudo se tornar em escuridão. Esse foi o momento em que a luta foi travada o meio das sombras. Augusto, que podia ver no escuro, com sua espada feria os orcs nas fendas de suas armaduras e os matava. Enquanto isso DeoMiro girou rapidamente sua espada fazendo um vórtice cortante e lançou sobre as sombras. Quando as trevas se dissiparam, todos os orcs estavam mortos, restando apenas DeoMiro e Augusto em pé, que estendendo as mãos desfazia as trevas.

- Essa é a líder que precisávamos, não é? – disse com desgosto DeoMiro colocando sua espada na bainha.

- Gente, mas espere. Eu não sei o que aconteceu. Eu vi... eu vi algo horrível. Senti uma forte pontada na minha cabeça. Não sei o que está acontecendo.

- O que acontecesse é que se nós não estivéssemos aqui provavelmente a missão poderia ser abortada. Você sabe que mais orcs virão e agora sobrevoando sobre os dragões. Quando qualquer orc passar por aqui entenderá que existem intrusos na terra deles e irão aos milhares atrás de nós. Diga-me, querida “líder”, como pretende lidar com essa situação?

          Todos ficaram em silêncio e ninguém ousou dizer uma palavra, apenas olharam para Gláucia que não sabia o que dizer.

- Tudo bem. Somos uma equipe. Deixemos isso para depois que a missão estiver concluída – disse Augusto – A noite que provoquei afetou todo o lugar. Provavelmente teremos alguma dificuldade ao entrarmos na floresta. Eu não terei pelo fato de ver no escuro. Todavia florestas são traiçoeiras e muitas armadilhas podem ter sido preparadas para nós agora que sabem da nossa presença.

- Meus cavaleiros, eu tenho culpa por esse ataque. Peço perdão, porém ainda preciso que confiem em mim. O rei me confiou a vida de vocês e tenho certeza que nos sairemos bem nessa trajetória. – disse Gláucia enxugando as poucas lágrimas que verteu.

- Ei, amigos – disse o pombo – todos estamos aqui por um ideal. Não vamos criar contendas por isso agora. Precisamos estar preparados para qualquer coisa. Gláucia – voou até o ombro da líder do grupo – eu confio em você.

          Tendo visto isso, o grupo reanimou-se e prosseguiu a jornada.


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          Muitas perguntas vinham sobre a alma de Gláucia. Que olhos eram aqueles? O que tanto fazia sua cabeça doer cada vez que avançava? O que estava acontecendo consigo mesma? A dúvida começava a querer invadir seu coração e desmotiva-la.

- Cavaleiros amigos, eu estou muito cansado. Estou voando faz horas. Preciso urgentemente des...

          E num momento o pombo adormeceu, caindo do ombro de Gláucia. Giz Ellen tratou de cobri-lo com seu manto e o levou em suas costas como um alforje, cobrindo-o por completo e amarrando-o bem.

          Antes de chegarem até a floresta, viram um homem que corria gritando com suas roupas rasgadas:

- Socorro! Fujam! Fujam da floresta de Sereayis!
Hammorim segurou o homem que corria e viu em seus olhos algo que o fez estremecer:

- Profeta Petrus da terra?

- Hammorim? É você? O que faz aqui?

- Estamos numa missão em busca da joia de sete faces. Precisamos recuperar essa joia antes que foi roubada do nosso condado. Ela possui um poder misterioso e está de posse do dragão Maior-Medo. Mas o que você faz aqui?

- Ah, Hammorim, foi horrível. Os orcs me surpreenderam. Eu sou o último sobrevivente da incursão anterior que o Rei Andher Son enviou para resgatar a joia. Porém ao entrarmos na floresta, os orcs nos atacaram com os dragões. Foi um sem número de inimigos. Não tivemos tempo de reagir. Os dragões conseguem ver no escuro e iluminar tudo com o facho de fogo que sai de suas bocas. Eu estive fugindo deles até agora e graças aos deuses encontrei águem para me ajudar a escapar daquele lugar.

- Espere! – disse Olliveira – os dragões enxergam no escuro?

- Sim. Eles são adaptáveis. Cada orc que vencíamos era como se os outros resistissem aos próximos ataques. Não sabemos como.

- Mas eu não entendo. Você é um dos profetas mais fortes do condado de Litherátuhus. Como eles venceram você?

- Eu também não entendo Hammorim. Consegui destruir vários, mas a floresta tem muitos. Muitos. Se não fosse pelos meus poderes e eu não tivesse criado uma caverna subterrânea, há tempos estaria morto como meus companheiros que vieram comigo.

          Galva Negra se adiantou e olhou para a floresta:

- É aqui que você quer nos fazer entrar, minha “líder”? – disse com tom de ironia.

- Amigos, sei que parece difícil, mas meu coração me indicou esse caminho. Tenho conhecimentos de territórios muito amplos. Eu nunca errei. Todos os demais lugares dessa terra amaldiçoada estão repletos de inimigos. Precisamos ser fortes, porém prudentes.

- Eu só acho que...

          Antes que Giz Ellen terminasse a frase um dragão sobrevoou rapidamente até ela e a agarrou com suas unhas.

          Galva Negra deu um salto e com sua clava derrubou o orc que estava sobre o dragão. Giz Ellen invocou uma turba enorme de águias que cobriram o dragão e o atacaram até devora-lo. As águias que não atacaram o dragão fizeram o pouso das duas guerreiras se tronarem seguros:

- Eles estão chegando! Parece que já sabíamos que iríamos para cá. – gritou Augusto lançando uma nuvem espessa sobre os vários dragões que surgiam nos céus com orcs montados sobre cada um; a nuvem, porém, se desfez quando um dragão surgiu e um orc lhe atingiu com uma clava cheia de espinhos.

          DeoMiro correu até o companheiro para amortecer o impacto da queda. Após levantá-lo, Gláucia abriu o seu livro mágico e invocou um arco e flechas infinitas para lançar nos monstros. Várias flechas de fogo foram atiradas e muitos orcs que estavam montados caíam ao chão.

- Rápido. Entremos para a floresta! – disse Giz Ellen.

          Os cavaleiros correram levando agora o profeta Petrus com eles. Eles entraram e continuaram correndo até o meio da floresta.

          A floresta estava silenciosa. As arvores com formas de rostos humanos que sofriam olhavam com dor para cada um.

          Nesse instante uma manada de orcs surgiu de cima das arvores e vários dragões sobrevoavam a floresta. Eles estavam cercados.

          Giz Ellen juntou as palmas de suas mãos e quando abriu os braços tigres e gorilas apareceram de cima das arvores caindo sobre os dragões e derribando-os.

          Galva Negra, quando viu que os orcs que estavam em terra avançavam, brandiu sua clava e bateu com ela no chão, fazendo estremecer a terra. Jogou-se em direção aos orcs e os fazia em pedaços com cada golpe de sua clava.

          Porém quanto mais orcs e dragões eles derrotavam, mas apareciam.

          DeoMiro, que carregava Augusto, foi surpreendido por um sopro de fogo de um dragão. Ele tentou se esquivar, porém o dragão foi mais rápido que ele, fazendo-o cair. Hammorim e Olliveira se prepararam para lutar, quando Gláucia disse:

- NÃO! NÃO LUTEM!

- O que?  Você está ficando louca?– bradou Olliveira - Veja o tanto de orcs nesse lugar. Galva Negra e Giz Ellen não darão conta sozinhas. Petrus está fragilizado e já dois de nossos guerreiros foram atingidos.

- Esperem! Parece que estou vendo alguma coisa. Existem monstros mais fortes que esses no mar de sangue e precisarei dos poderes de vocês ali. Se vocês lutarem agora, não sei conseguiremos chegar até o topo da montanha com uma equipe forte o suficiente.

- Forte o suficiente? O que está insinuando? – reclamava Hammorim – que temos que deixar nossos amigos morrerem só pra você chegar até o topo da montanha?

- Não é isso, amigos. Cada um de vocês tem uma especialidade. Sei que podem ajuda-los aqui. Mas DeoMiro e Augusto foram atingidos porque os orcs se adaptaram aos poderes deles. Se vocês lutarem agora, o mar de sangue terá monstros já adaptáveis aos seus também e não conseguiremos vencer.

          Galva Negra estava muito ferida pela quantidade de orcs que a atacava, porém muitos despedaçou com sua clava. Enquanto isso Giz Ellen lutava nos ares montada nas águias invocando tigres e leões contra os dragões.

          Até que surgiu um orc gigante para lutar contra Galva Negra. Ele era rápido com DeoMiro, atingindo em cheio a amazona.

          Nos ares, surgiu um dragão de quatro cabeças, mas o mais assustador era que o fogo que saía da sua boca era um fogo negro que tudo escurecia em redor. Gláucia continuava a atirar suas flechas para o alto para gerar uma chuva de flechas que atingiria tanto os orcs quantos os dragões.

          De repente Petrus correu em direção ao orc gigante e do chão fez uma montanha surgir jogando o grandalhão para o alto. Em seguida fez voar o topo da montanha ao mover dos seus braços, fazendo o cume se tornar afiado como uma lança imensa.

          O orc gigante que fora jogado para o alto, agora estava sendo empurrado para baixo pela ponta da montanha que estava sobre ele. E fechando os braços, Petrus, o profeta, esmagou o gigante como uma prensa pontiaguda no meio da montanha. Após isso, desmaiou.

          Galva Negra, ao perceber que Petrus estava caído ao chão e que Giz Ellen precisava de auxílio, num salto, girou sua clava e acertou em cheio a barriga do dragão que explodiu no impacto do golpe.

          Já caindo desacordada, Giz Ellen invocou suas águias para segura-la, quando de repente um orc sobrevoando outro dragão a atingiu rapidamente fazendo uma nuvem de trevas no céu.

          As águias impediram a queda das duas guerreiras. Ambas se levantaram e viram que aquele orc desceu do dragão e começou a falar na língua delas:

- Uma maga e uma amazona. Será um prato perfeito para nosso pai. Galva Negra, da terra de Minérios; Giz Ellen, maga da tribo do Rio Pardo.

          As duas se espantaram por ver que aquele monstro as conhecia, mas elas nunca o viram. Quando o orc montou novamente no dragão e se preparou para avançar, uma flecha de fogo lhe atravessou o peito, porém ele não morreu.

          O orc se virou para trás e viu que era Gláucia quem lançou a flecha. Numa ferocidade intensa o dragão voou até Gláucia, Hammorim, Olliveira, lançando sobre eles uma nuvem espessa de trevas. Gláucia sentiu outra pontada na cabeça e ouviu uma voz sombria que dizia:

- Gláucia, Gláucia... quem diria que você finalmente chegaria até aqui. Era pra ter morrido antes de entrar na floresta. Eu ainda vou te encontrar, e quando matar todos os seus companheiros, te farei contemplar a destruição do condado de Litherátuhus. Prepara-se para o caos que...

          As trevas se dissiparam quando o orc teve sua cabeça arrancada por um golpe de Galva Negra. o dragão começou a ser controlado por Giz Ellen, arremessando-o no mar de sangue.

          Naquele cenário de morte, onde havia vários corpos de orcs e dragões despedaçados na floresta, viram Augusto carregando DeoMiro e Petrus. Galva Negra e Giz Ellen também estavam exaustas, fracas e muito feridas por causa daquela batalha.

          Giz Ellen soltou os panos de suas costas libertando o pombo que ainda adormecia. Petrus cai ao chão. Hammorim vai correndo em sua direção:

- Profeta Petrus, não se mova. Iremos protegê-lo e nenhum mal lhe acometerá.

- Hammorim – disse com voz sussurrada Petrus – você sempre foi meu amigo. Conhece bem melhor que eu a hora da morte, pois muito estudou sobre ela. Porém é necessário aceitá-la quando ela bate a nossa porta. Não sairei dessa floresta vivo.

- Pare de dizer besteira, profeta. Você vai sobreviver. Você vai. Não pode desistir agora. Contamos com você.

- Minha caminhada encerra aqui, nobre amigo. Seja forte. Você precisará de toda a força necessária para o que irá enfrentar.

- Quando vencermos o Dragão, e resgatarmosa joia, te levaremos para o condado novamente...

- Existe... um perigo maior... responsável pela adaptação dos orcs e dragões aos seus poderes. Ele é... ele é o...

- O que? Qual perigo?

          E num sorriso, Petrus, o profeta da terra, transformou-se em grãos de água, vindo a desaparecer nos braços do amigo Hammorim.

          Gláucia estava perplexa com tudo aquilo que estava vivenciando. Não sabia o que fazer, mas sabia que não poderia retroceder. Todavia a voz que ouviu no meio das trevas muito lhe abalou. Ainda mais agora que Pertus disse que havia um mal ainda maior, confirmando o que estava escrito na carta do Rei Andher Son.

          Hammorim enxugou as lágrimas e se levantou. Olhou para Gláucia e disse com os olhos vermelhos:

- É melhor dar um jeito de chegarmos todos até lá. Porque se eu perceber que essa missão é suicida, estarei abandonando o grupo, entendeu?

- Profeta, estamos quase conseguindo. Porém existe mais um inimigo... deveras estranho. Você não ouviu a voz?

- Voz? Que voz? – falou Olliveira – as trevas nos prenderam de modo que não conseguimos nos mover. Porém não ouvimos voz nenhuma.

O pombo ao acordar e ver aquela cena de morte se assustou correndo para o ombro de Giz Ellen:

- O que é isso? O que aconteceu? Que horror!

- Caro pombo – disse Giz Ellen – infelizmente não poderei mais prosseguir viagem com vocês. Voe até o ombro de Gláucia. Ela irá conduzi-lo até sua mãe em segurança.

- Mas... mas... vocês não irão conosco?

- Acho melhor eles ficarem abrigados em algum lugar. -  disse Gláucia - Essa floresta é perigosa demais e todos foram feridos. Galva Negra, fique responsável por guiá-los até o esconderijo que Petrus fez.

E lançando o pó para o alto, mostrou a localização do esconderijo que o profeta da terra fez para abrigar-se contra os orcs:

- Aqui eles não alcançarão vocês. É melhor que DeoMiro, Augusto e Giz Ellen fiquem. Não precisam temer, pois ali ninguém os achará.

Quando o grupo viu a firmeza no olhar de Gláucia, e a convicção em sua fala, tiveram confiança em sua líder pela primeira vez.

- Está bem. Deixe comigo, Gláucia. – exclamou Galva Negra.

- Sigam a trilha de luz que deixarei. Não está longe daqui. Iremos apenas eu, essa ave, Hammorim e Olliveira. Inimigos piores nos aguardam.

          Então o grupo se separou. Gláucia sabia que coisas piores do que as que presenciaram na floresta teriam que enfrentar agora. Saindo os quatro da floresta de Sereayis, chegaram à beira do mar de sangue.


Continua...

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Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 16/07/2019
Reeditado em 16/07/2019
Código do texto: T6697332
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Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
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