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A Dama e o vagabundo
 
Era verão numa cidadezinha perdida no meio do nada.
Joaquim estava quase beijando a Cibele, a menina mais linda da turma, quando foi despertado aos berros pela madrasta que o chamava para ir à escola.
Segurando a imensa vontade de soltar um palavrão daqueles bem cabeludos, ele levantou da cama, lavou o rosto e desceu as escadas mais desabando do que propriamente descendo.
Vera, a madrasta estava fritando panquecas e até lhe ofereceu uma, mas pra variar, Joaquim estava completamente atrasado.
A noite passada ainda estava fazendo efeito sobre sua cabeça e as dúzias de cervejas, tomadas as escondidas na casa do Thiago ainda eram donas da sua vontade.
O barulho da buzina do ônibus escolar acabara de selar o caixão da sua pobre cabeça de aborrecente e os solavancos do caminho fizeram seu estômago embrulhar.
Novamente despertado do breve cochilo pela parada brusca do transporte escolar, Joaquim se encaminhou para a entrada do “C-C”, como ele carinhosamente chamava o colégio de freiras onde estudava, graças à vocação religiosa da irmã, que havia lhe rendido uma bolsa de estudos.
(Nota do Autor: eu sei que geralmente essas notinhas vem no final da página, mas hoje vou fugir às regras... “C-C” significa Campo de Concentração para Joaquim, porém seu verdadeiro nome é Colégio Carmelita.)
Cada passo era uma tormenta para Joaquim e quando ele viu a Madre Superiora vindo em sua direção, pensou: - Mas que droga, lá vem problema!!! E logo hoje!
Irmã Tereza era a “Margaret Thatcher” do colégio e adorava aplicar os temidos “corretivos” nos alunos problemáticos. E para ela, Joaquim era um caso completamente perdido.
Depois de ficar mais de 40min levando um baita sermão da Madre Superiora, Joaquim só queria saber de ir para casa e esquecer que havia levantado da cama naquele dia.
Mas... O destino lhe reservara uma surpresinha...
Joaquim vinha caminhando a passos lentos, fitando os cadarços desamarrados dos all stars quando uma trombada fez o resto dos seus neurônios virarem fumaça.
Já pronto para briga, levantou do chão com toda a sua ira e bradou para a menina causadora de tamanho infortúnio:
- Mas que droga! Não olha por onde anda não é, sua tonta! Ta com o olho aonde hein???
E enquanto sacudia a poeira da calça, foi surpreendido pela resposta da menina:
- Ohhhhhhhhhhhh!!!! Perdoe-me, por favor. Eu não o vi.
Joaquim:
- Mas é claro que você não me viu, né sua lerda. Deveria ter mais cuidado!
Menina:
- Perdoe-me mais uma vez, por favor. Machuquei você? Oh... Estou tão embaraçada com essa situação... É que minha acompanhante foi ao toalete e deixou-me sozinha e eu não sei onde ela deixou minha bengala. Perdoe-me.
 Um Joaquim confuso:
- Bengala? – E só então ele notou que aquela menina, tão absolvida em pedir-lhe desculpas por ter gerado aquela situação, olhava o horizonte de maneira fixa. E só aí, percebeu que a menina era cega.
Arrependido, perguntou-lhe se estava sozinha e se poderia fazer alguma coisa para ajudá-la.
Ela pediu-lhe que a levasse até algum lugar onde pudesse sentar-se e evitar outro incidente como aquele.
O pátio da escola já estava praticamente vazio e ele levou-a a um banco perto das roseiras (um dos poucos locais em que Joaquim sentia-se em paz na escola).
Foi buscar um pouco de água para a menina, que estava corada de vergonha.
Ao entregar-lhe o copo, suas mãos se tocaram e ele notou como eram belos os olhos daquela menina.
Começaram a conversar. Ele descobriu que o nome dela era Sarah e que era cega desde que nasceu.
Descobriu também que os pais de Sarah haviam morrido em um acidente aéreo, há alguns anos atrás e que ela vivia com a tutora desde então.
Tinha professores especializados para auxiliá-la e uma enfermeira em casa para ajudar nas pequenas tarefas.
Descobriu também que como não possuía visão, Sarah desenvolveu seus outros sentidos de forma espetacular e era uma exímia pianista.
Também praticava balé clássico e gostava de sentir o cheiro da chuva e o gosto do morango no sorvete da esquina.
A tarde passou voando e quando percebeu, já era a hora do pôr-do-sol. 
Joaquim levantou-se e olhou em volta. Percebeu que a acompanhante da menina não estava em nenhuma parte. Resolveu levá-la em casa e assim o fez.
Após aquele dia, Joaquim e Sarah passaram a encontrar-se todos os dias. Sentavam-se no mesmo banco do primeiro dia e conversavam a tarde toda.
E todas as noites, Joaquim deixava Sarah na porta de sua casa.
A amizade e a cumplicidade entre eles crescia progressivamente e ao final de um mês de convivência, eles já eram como gatos siameses.
Ele passou a adorar a escola e ela passou a adorar cada segundo passado ao lado de Joaquim.
Um dia, Sarah não apareceu na escola. No dia seguinte também não. E no outro também não.
Triste e com o peito apertando de saudade, resolveu ir à casa dela.
Bateu três vezes na porta e já estava desistindo de esperar, quando uma empregada abriu a porta. Ele pediu para ver Sarah e a moça foi chamar a dona da casa.
Suzana, a tutora de Sarah, veio até a sala conversar com Joaquim.
- Olá. Então você é o famoso Joaquim. A Sarah me fala muito de você. Eu sou a Suzana, a responsável por ela. Muito prazer, Joaquim. Você aceita uma água ou um café?
- Não, D. Suzana, por favor eu gostaria de ver a Sarah. A senhora poderia chamá-la para mim?
- Não, Joaquim. Infelizmente não posso chamá-la. A Sarah contraiu uma forte pneumonia e está de repouso absoluto. Mas se você quiser visitá-la, posso levá-lo até o quarto dela.
- Ah sim, eu gostaria muito.
Joaquim entrou e fechou a porta cuidadosamente atrás de si. Olhou em volta, o quarto todo cor de rosa. Os detalhes nos quadros das paredes. A cômoda cheia de coisas de menina. Percebeu o quanto aquela menina havia sido cercada de carinho. E por um momento, sentiu falta de sua mãe.
Aproximou-se da cama.
Uma vozinha fraca sussurrou:
- Joaquim... Meu querido amigo... Que bom que veio.
Assombrado, Joaquim perguntou:
- Sarah! Como você sabia que era eu? Não fiz nenhum barulho!
Sorrindo, a menina respondeu:
- Ahhhh, Joaquim. É fácil reconhecer você. Você tem cheiro de chuva. De grama molhada. De jasmim. Você tem cheiro do único amigo que tive desde que nasci.
Emocionado, Joaquim sentou-se ao lado de Sarah e segurou-lhe as mãos.
Sarah pediu-lhe que a levasse até o jardim. Era quase hora do por-do-sol e da sua varanda era possível ouvir o sol beijando o mar quando ia dormir.
Juntos, caminharam de mãos dadas. Ele, amparando-a e ela, aninhando a cabeça no peito do amigo.
Como que para celebrar aquela tão bela amizade, o Sol deu um espetáculo especial naquela tarde e Joaquim sentiu o gosto salgado das lágrimas. Abraçou Sarah com força e lhe disse, com a voz embargada:
- Puxa, Sarah... O por-do-sol de hoje foi o mais lindo que eu já vi. Você adoraria ver. Eu queria poder te dar meus olhos agora para você ver isso...
Sarah levantou a cabeça em direção à voz do amigo. Seus rostos estavam tão próximos que somente o vento passaria entre eles.
- Meu querido... Você não percebe? Você já fez isso... Você já me deu seus olhos. Foi o por-do-sol mais lindo da minha vida. Porque pude vê-lo através da emoção em sua voz.
Juntos, voltaram para dentro.
Ao se despedir de Sarah naquele dia, Joaquim sentia-se diferente. Sentia a mãe (morta há mais de 5 anos) próxima dele. Sentiu a força daquele sentimento dentro dele. Sentiu que poderia ser o homem que a mãe sempre sonhou que ele fosse.
Afinal, ele tinha cantado a beleza do por-do-sol para uma menina que não podia ver...
Joaquim sentiu-se inundado por aquela quentura no coração.
Não mais sonharia com Cibele. Não mais odiaria levantar para ir à escola.
Havia conhecido um amor que não precisava de olhos para ver.
Sarah o havia ensinado a dar valor à sua vida.
E ele aprendera o que significava ser AMIGO de alguém...
 
 
 
J Butterfly
Enviado por J Butterfly em 28/09/2007
Código do texto: T671654

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Sobre a autora
J Butterfly
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