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A Voz




     A caminho do trabalho, todos os dias, fazia o mesmo trajeto, porém, como sou um incorrigível romântico, daqueles que perdem o compromisso, mas não perde um pôr do sol, percebi, que da avenida movimentada pela qual passava sempre, saia uma ruela, um beco, quase invisível, no burburinho do bairro.
     Foi irresistível. Entrei por aquela vereda, estreita e surpreendentemente calma, calçamento de pedra e casas de muros baixos, que deixavam á mostra, singelos canteiros de rosas e flores silvestres. Uma rua que vencera o tempo e mantivera a aura dos anos 50.
     Andei devagar, apreciando cada recanto, já mergulhado numa atmosfera quase irreal, até o céu parecia mais azul, com aquelas nuvens que formavam figuras, de flocos de algodão. Parei em frente a um palacete, pois de uma das janelas, vinha uma melodia arrebatadora. Um piano e uma voz.
     Encantado, encostei-me a um surpreendente jacarandá, que disputava o espaço com o muro e deixei aquela música tomar o meu ser. O celular me trouxe á realidade e o tempo, sempre o tempo, que urgia, levou-me dali.
     No dia seguinte, e nos outros que se seguiram, voltei religiosamente no mesmo horário e por infinitos minutos, minha alma ia ao paraíso, envolvida pela voz maviosa daquele anjo oculto.
     Passei a detestar os finais de semana, que me separavam da voz angelical.
     Ao cabo de dois meses, numa manhã de outono, parei diante do casarão e pra minha surpresa, a janela estava fechada e a voz silenciosa. A beleza fugiu do meu coração. Um profundo sentimento de perda tomou conta do meu ser e num ímpeto, passei pelo portão de ferro fundido e atravessei a alameda gramada até o majestoso portal. Sem pensar bati naquela folha de mogno e após segundos que pareceram horas, assomou entre os batentes, a figura altiva de uma senhora. Cabelos presos á nuca, deixavam a mostra o rosto, de uma austeridade traída apenas pela doce tristeza dos olhos mais azuis que eu já vira.
     Foi então que soube, que o anjo, cuja voz , abrira as portas do paraíso a esse coração romântico, calara-se para sempre. A nobre senhora, governanta da casa, acompanhara dia após dia, atrás das cortinas de renda, a minha devota audiência. Notando minha dor, disse apenas um nome – Júlia – e depositou em minhas mãos, a última partitura.
     Jamais voltei aquela rua estreita, mas aquela voz me acompanhará até a eternidade...
Luiz da Silva Rosa
Enviado por Luiz da Silva Rosa em 01/10/2007
Código do texto: T676652
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Luiz da Silva Rosa
Santa Isabel - São Paulo - Brasil, 61 anos
71 textos (6901 leituras)
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Luiz da Silva Rosa