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Verdade Absoluta

VERDADE ABSOLUTA
Era um povo feliz, era uma família feliz, viviam entre as brumas da ignorância num país de faz de conta. Havia festas, reuniões, todos se cumprimentavam, se elogiavam, dançavam, contavam suas peripécias, suas aventuras, se orgulhavam de serem quem eram. Olhando por alto ninguém poderia ver o que se passava através daqueles semblantes lindos, brilhantes, perfeitos, como elfos em uma floresta encantada, belos, luminosos e mágicos, rodopiando e distribuindo sorrisos com seus dentes brancos, sua fala macia, suas declarações de amor uns aos outros. Só tinham um objetivo maior, encontrar a verdade absoluta. Nada temiam, nada havia a temer a não ser o monstro do conhecimento que habitava fora dos limites da cidade, mas os anciãos o mantinham longe, tinham leis rígidas sobre isso, qualquer um que se aventurasse a sair da cidade e adquirisse conhecimento, tido para eles como uma doença gravíssima da qual não havia cura nem salvação, seria banido imediatamente e nunca mais poderia voltar. Isso era o que eles sempre acreditaram. Mas lá fora da floresta que envolvia a cidade, havia um mundo muito maior onde esse ser chamado de monstro do conhecimento habitava. E o monstro do conhecimento sempre tentava se infiltrar através das pequenas frestas entre as paredes, se escondendo em livros que eram adquiridos pelos anciãos, disfarçava-se de visitante e assim que se via livre passava sua sabedoria para aqueles que estavam por perto. Os livros eram proibidos ao povo, diziam que continham magia negra e que os envenenaria até a morte. O visitante assim que era descoberto era expulso. Mas um dia um viajante chegou e antes que os anciãos pudessem perceber, ele conseguiu espalhar entre um pequeno grupo uma ideia que ele chamava de verdade absoluta, imediatamente aquele grupo concordou com ele e passou a informação adiante, e outro grupo também repassou, e outro e outro e assim sucessivamente até que todos achavam que tinham finalmente encontrado a verdade absoluta e de repente como Adão e Eva no paraíso eles se viram nus e acharam sua nudez feia, os sorrisos de dentes brilhantes já não eram tão brilhantes assim, os dentes eram podres, as falas macias se tornaram ácidas e agora não haviam mais elogios e sim ofensas, grotescas, tristes, horríveis, as declarações de amor se tornaram declarações de ódio, as festas , as reuniões, as danças, as músicas acabaram. Aquele mundo que eles conheciam tão belo e mágico não passava de um amontoado de pedras, sujeira, fumaça. Algumas pessoas já começavam a questionar a verdade absoluta, se era tão boa, porque feria e fazia mal, se devia construir porque estava destruindo tudo, até que um perguntou: Afinal quem tem a verdade absoluta? E todos de repente foram acordados de seu transe hipnótico para perceberem que não existe verdade absoluta, que a verdade tem muitas faces, muitos pontos de vista, que o que parece verdadeiro para você pode não ser para o outro e que independente do que cada um acredita, dava para viver bem e feliz respeitando a verdade de cada um.
Claire Fraser
Enviado por Claire Fraser em 04/11/2019
Código do texto: T6787037
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Claire Fraser
Rio Claro - São Paulo - Brasil
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/11/19 21:05)
Claire Fraser