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O cavaleiro esquecido

Quando acordei no hotel, na manhã seguinte, percebi que alguma coisa estava... diferente. O quarto, por exemplo: além de nitidamente menor, parecia ter saído de uma gravura sobre o Período Ajishan: cama de madeira, cobertor de lã, um colchão e um travesseiro que deveriam ter sido enchidos com palha, e uma lâmpada de cobre a óleo, apagada, pendendo por uma corrente dos caibros escurecidos do teto. Junto a porta, havia uma cadeira com assento de tiras de couro, e uma mesa com um jarro e uma bacia de estanho. Na outra extremidade do quarto, uma lareira, igualmente apagada como a lâmpada, e um cabideiro de chão, de madeira escura, com algumas roupas penduradas, uma bolsa de couro, e um par de botas engraxadas. Afastei o cobertor e sentei-me na cama, tentando entender a mudança radical de cenário; como eu fora parar ali? Teria sido sequestrado durante a noite?

Eu estava vestido com um camisolão de algodão, e havia um par de chinelos de palha no chão. Calcei-os e fui até a mesa com a bacia e o jarro, que estava cheio d'água. Lavei o rosto, para ver se focava meus pensamentos, e depois fui revirar as roupas e a bolsa pendurados no cabideiro. Não eram obviamente as roupas que eu vestira no dia anterior, mas trajes que poderiam ter ficado bem num amanuense do reino da Blaochenia, inclusive o poncho castanho com capuz e um chapéu de pano verde, com uma pena de faisão costurada nele. Tirei o camisolão e me vesti, antes de examinar o conteúdo da bolsa de couro: nela estavam o dobrão de prata e o saquinho com os 50 coralis de bronze, além de um rolo de pergaminho selado com lacre vermelho, um pente de osso, um pequeno espelho redondo de metal polido, uma pedra de pederneira, uma caneca de estanho, um garfo de dois dentes e uma faca pequena. Numa bainha de couro presa ao cinto das calças, havia ainda uma adaga de lâmina triangular.

Guardei tudo de volta na bolsa, inclusive o camisolão e os chinelos, e saí do quarto. Eu ainda estava no primeiro piso, como logo percebi ao ver a escadaria de madeira que descia para o térreo, mas o hotel convertera-se numa estalagem praticamente vazia. Ao menos, foi o que deduzi ao entrar no salão principal, que deveria ser utilizado também como local de refeições pelos hóspedes. No momento, havia ali apenas dois homens tomando o desjejum, os quais felizmente me olharam com reduzida curiosidade; tudo o que eu não queria naquele momento, era chamar a atenção.

Sentei-me à uma das mesas, próxima da porta da cozinha, no momento em que por ela saía uma mulher gorda, com um avental branco encardido sobre um vestido preto.

- Bom dia, senhor Pazonir! - Saudou-me ela com satisfação. - Pensei que havia desistido de pegar a estrada hoje.

- Bom dia, boa mulher - respondi cautelosamente. - Acho que ontem estava mais cansado do que esperava... nem vi o tempo passar.

- Bem, o seu cavalo já foi escovado e arreado - declarou ela. - Vai querer o de sempre para o desjejum?

- Sim... o de sempre - murmurei, tentando me lembrar o que comiam pela manhã nessa época. Minhas dúvidas foram sanadas pouco depois, quando a estalajadeira colocou diante de mim uma bandeja de madeira com um prato de papa de arroz com leite, uma caneca grande de cevada quente, um pedaço de pão de centeio e uma fatia grossa de queijo amarelo. Comi com satisfação, apesar da óbvia falta de açúcar para adoçar o leite e a cevada.

- O senhor estava com fome! - Parabenizou-me ela, ao voltar para recolher os utensílios.

- Acho que dormi demais mesmo - avaliei. E mexendo no saquinho de moedas da bolsa:

- Quanto lhe devo, a propósito?

Ela abriu um sorriso.

- Nossos preços continuam os mesmos, senhor Pazonir! Apenas cinco coralis pela hospedagem, alimentação e cuidados com o seu cavalo.

Contei cinco moedas e paguei a mulher.

- Bem, acho que agora vou seguir viagem - informei. - Poderia pedir para trazerem meu cavalo para a frente da hospedaria?

- Naturalmente! - Acedeu a mulher, virando-se para a porta da cozinha e gritando:

- Jaruel!

- Diga, Sarani! - Gritou uma voz de rapaz em resposta.

- Leve o cavalo do senhor Pazonir para a entrada principal, ele está de saída!

- É pra já! - Respondeu Jaruel.

- Grato, Sarani - disse para a estalajadeira, erguendo-me da mesa.

- Pensei que houvesse esquecido meu nome, senhor Pazonir - aprovou ela.

- Minha cabeça está meio embaralhada, e olha que não bebi nada ontem à noite - argumentei.

Saí para fora da hospedaria. A arquitetura ao meu redor também havia mudado drasticamente, como era de se esperar: não avistei construções com mais de dois pavimentos, quase todas em madeira e mais raramente, em pedra de cantaria. E, erguendo-se acima da bruma matinal, a silhueta dentada do maciço das Clermans, com seus picos cobertos de neve; pelo menos, aquilo não havia mudado na paisagem.

- Senhor Pazonir?

Virei-me para ver um rapaz vestindo uma túnica e calças cinza, trazendo um cavalo baio pelas rédeas. O meu cavalo, presumivelmente.

- Eleros parece ansioso por voltar à estrada - anunciou Jaruel.

- Acho que ambos estamos - redargui, apanhando as rédeas. Bem, eu não tinha grande experiência em equitação, mas ao menos sabia como montar num cavalo, consolei-me. Mas, para onde eu - ou Pazonir - estava indo?

- Cuidado ao se aproximar do Passo de Pohecira - advertiu o rapaz, enquanto eu me aboletava na sela. - Comentam aqui na cidade que as tropas do Arquimago estão indo naquela direção.

As tropas do Arquimago! Engoli em seco, compreendendo finalmente onde viera parar; aliás, quando.

[Continua]

- [07-01-2021]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 07/01/2021
Código do texto: T7154461
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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 58 anos
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Alex Raymundo