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Carta de um Sobrevivente

   Estava tudo perfeito aquela noite. Eu estava me divertindo como nunca. Os salões de Amarid estavam lindos. Lady Shivara estava belíssima, como sempre. A festa celebrando o acordo entre Trebuck e Sambúrdia era uma das melhores que eu já tinha participado.
     É fato que havia resistido muito antes de ir a festa, mas já estava arrependido de ter demorando tanto para sair da estalagem. Estava em Amarid em reunião com alguns comerciantes – tenho feito transporte de mercadoria. Estava acompanhado de Ziigal, um velho amigo que ia para Yron/Namalkah (meu próximo destino). Esta seria minha última noite na cidade… era o que eu achava…
     Eu estava bebendo a décima taça de vinho, minhas pernas começavam a bambear e minha visão estava um pouco embaçada. Foi então que surgiram aquelas nuvens. Deixei a taça cair instantaneamente. Vi as pessoas começarem a correr em todas as direções, procurando se salvar. Também corri para uma das saídas do forte e consegui sair em meio a uma multidão desesperada. Não demorou muito para que os demônios surgissem. Fugi ainda mais rápido ao ver aquelas criaturas nojentas surgindo, vindo em nossa direção.
     Eu estava tomado pelo medo. Consegui me distanciar, mas aí vi algo que me balançou. Eu um guerreiro corria desesperadamente para me salvar, enquanto uma pequena menina, de não mais  de 9 anos, corria em direção a Tormenta. Agarrei-a antes que ela pudesse cometer uma loucura. Ela ordenou-me que a soltasse, ela tinha que salvar os pais. Aquela cena me comoveu. Uma mera menininha amava seus pais a ponto de encarar a Tormenta (coisa que ela mal devia saber o significado) para salva-los, e eu corria amedrontado só de ver as nuvens se formando. Recomecei a fugir, dessa vez levando a garota.
     Consegui chegar ao local onde deixei minha carroça, montei em meu cavalo de guerra, que eu levava junto do de carga, e corri o mais rápido que pude. Devo ter gastado uns sete dias até Crovandir, onde deixei a menina aos cuidados da corte e me apresentei para enfrentar a Tormenta ao lado do exército de Trebuck. Estava seguro que era isso que eu queria, minha sede de aventura – o incansável combustível que move os Cavaleiros de Valkaria – estava cada vez mais forte e clara.
     Fiquei em Crovandir, numa estalagem junto com Nalia – a garota que eu salvei - durante os dois meses que se seguiram. Durante este tempo comprei alguns itens mágicos - se ia enfrentar a Tormenta deveria estar preparado. Comprei alguns pergaminhos de Proteção contra Tormenta, um anel de Invisibilidade e algumas armas mágicas. Enfim chegou o dia em que me reuni aos outros combates para rumar em direção a Amarid.
     Eu estava bastante apavorado, tentava esquecer que aquilo que eu estava prestes a enfrentar poderia ser meu fim. A Tormenta é algo inexplicável, não tenho palavras para expressar aquele horror, nem para explicar o que senti ao ouvir a voz de Lady Shivara ordenar que rumássemos para o desconhecido, para que partíssemos rumo ao nosso fim, ruma A Tormenta.

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     Pouco após o inicio de nossa marcha, quando já batíamos a porta do nosso inimigo, eu coloquei o anel de Invisibilidade e peguei um pergaminho, e utilizei. Sorte! Este funcionou – já havia testado dois e ambos haviam falhado. Quando entramos na área tomada por aquela praga eu vi grande parte da linha de frente do exercito cair, os demônios já haviam notado nossa presença. Dizem que quando vemos demônios da Tormenta ficamos loucos, mas não me preocupei, pois para estar ali dentro eu já devia ser bastante louco. Graças ao anel, eles não podiam me ver. Comecei a investida.
     Esses monstros são duros na queda, meus ataques causavam pouco ou nenhum dano nos malditos. Mas perseverança é algo que sempre tive, e foi assim que em menos de cinco minutos havia matado o primeiro. Comecei a atacar boa parte deles, afinal como poderiam me ver se eu estava invisível? Estava muito confiante de que podia vence-los, mas eu estava enganado…
     O efeito do pergaminho acabou e até que eu utilizasse outro sofri muito dano. A maldita chuva é de um ácido muito poderoso. A dor é inexplicável. Mas o pior ainda estava para vir…

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     Eu tinha certeza de que podia vence-los, um erro, coisa que nem um amador pensaria. Foi então que eles surgiram. Criaturas parecendo algo como um besouro misturado com tatu. Saíram da terra e atacaram nosso grupo com uma enorme ferocidade e com ataques surpresa. Mas o pior não era isso… Os vermes podem ver o invisível, ou seja, podem me ver. Fui atacado por um, mas consegui defender-me com meu escudo (ou seria ex-escudo). Não sobrou nada em minha mão: nem escudo, nem anel, nem armas. Eu estava desprotegido!
     A ultima coisa que vi foi a pata dessa grande criatura se erguer e depois se abaixar sobre mim.

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     Não sei como, mas eu sobrevivi. Acordei alguns dias depois numa cabana. Em pé em frente a um fogão estava uma jovem imensamente bela. Tentei levantar-me, não achei forças. Ela veio até mim ajudou-me a deitar direito. Era tão bela. Perguntou-me se eu sentia fome. Balancei a cabeça afirmativamente. Ela trouxe-me uma tigela de sopa e ajudou-me a beber. Contou-me que ela havia me encontrado as margens do rio vermelho. Eu estava em Namalkah. Aquela bela jovem era uma clériga de Marah, deusa da paz.
     Permaneci na casa dela por mais duas semanas, depois decidi partir. Eu estava confuso. Não conseguia lembrar direito do que havia acontecido. Provavelmente o demônio não tivera conseguido me atingir em cheio, a cicatriz em meu peito mostrava que ele não me atingira com muita força.  Na verdade acho que algo também o atingiu, mas o quê? O que poderia ter me salvado?
     Agora isso não me importava, já havia decidido uma coisa: Meu destino era novamente a Tormenta.

· · · · · · · · · ·

     Perdoe-me, meu irmão. Sei que eu devia desistir, mas não consigo. Espero que me entenda e, que pela primeira vez na vida, não venha até mim. Estou bem. A Tormenta já não mais me mete medo – acho que após o primeiro contato a gente perde a sanidade. Estou a caminho de Amarid. Escrevo-lhe da Capital de Sambúrdia. Quando você receber esta carta, poderei até já estar morto, mas espero que não. Espero poder, pessoalmente, receber de você uma bela bronca e um “bom trabalho, rapaz!”
     Adeus, querido irmão. Não me espere. Viva a sua vida, sem se preocupar com a minha.
 




Duo Acler Silfer, Cavaleiro de Valkaria,
em carta para seu irmão Keyzin Silfer,
Cavaleiro de Khalmyr.
Mestre Silfer
Enviado por Mestre Silfer em 21/11/2007
Código do texto: T746815
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Mestre Silfer
Ibirité - Minas Gerais - Brasil
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Mestre Silfer