Registros de um velho caçador - Parte 03: "Questão de fé"

Saudações,

Escrevo para relatar os resultados de minhas empreitadas no último mês. Recebi sua carta quando estava passando por Beira Mata, acredito que tenha se lembrado que há dois caminhos que levam à Vale da Fé: A estrada que leva à capital da província, costeando a Baía dos Desesperados e o caminho mais longo, passando por Beira Mata, ao leste.

Devo admitir que me conhece muito bem, pois sabes que evito transitar pela capital (tenho meus motivos, com é de seu conhecimento). Como dizia em sua mensagem, deveria procurar por Eridu, um sábio de Vale da Fé que supostamente teria um contrato para mim. Sem tardar retorno minha “peregrinação” ao noroeste, rumo às montanhas.

Meu caro amigo, como nunca colocaste sua bunda velha na região, devo descrever essa joia rara no meio de pedras e terra: Após uma árdua caminhada (tive que desmontar de meu fiel cavalo para não levá-lo a exaustão) por um caminho sinuoso e íngreme, eis que chego no cume de uma montanha e avisto o vale em sua magnitude.

Parecia outro lugar: um pequeno riacho corria do Norte, das montanhas em direção à cidade, árvores das mais diversas espécies e campos verdejantes (em tons de verde que nunca havia visto nada igual em lugar algum). Naquele momento ficara claro o motivo de os pioneiros exploradores batizarem o local com o seu devido nome. A inexplicável vista, de uma terra fértil e bela rodeada pelas montanhas cinzentas e ameaçadoras, é a recompensa perfeita para todo viajante. Um ensaio paradoxal da vida.

Extasiado, tratei de descer rapidamente em direção à cidade, pela estrada que já não era sinuosa e estreita, e sim um largo caminho bem definido e com pedras assentadas no solo de forma precisa. Confesso que são excelentes construtores, pois só havia encontrado pavimentações de tal magnitude nas cercanias da capital. Sua arquitetura é de excelente qualidade, proporcionando uma belíssima vista para quem adentra no território urbano. Espero que algum dia possa conhecer essa preciosidade do Norte. Agora devo retornar o foco no trabalho...

Logo tratei de perguntar onde encontraria Eridu e descobri que meu contratante era um sábio líder de uma ordem religiosa local. Aparentemente, os seus seguidores cultuam a figura dos três exploradores que descobriram este local há séculos, transformando-os em figuras “divinas” por presentear a humanidade com o Vale da Fé. Sabes o que penso sobre lendas e religiões, são culturas locais que devem ser respeitadas, independentemente de suas crenças pessoais. (Sorte que não eras tu que estavas aqui, pois sei que não possui paciência para essas formalidades, de alguma forma, ira ofendê-los certamente: consigo até visualizar sua carcaça velha sendo expulsa da cidade enquanto recebe xingamentos e juras de morte).

Quando finalmente encontro o sábio em um templo muito bem construído e bem localizado (fora fundado em uma região alta da cidade, sendo possível sua visualização de qualquer parte da cidade), com jardins internos belíssimos e bem movimentados, acompanho-o até seu escritório para discutirmos o serviço requisitado.

O que dizer sobre Eridu: Um homem de traços leves e calmos (além de uma calvície galopante), portador de uma voz aveludada, falava de modo centrado e pausadamente, sempre analisando em sua mente muito bem antes de proferir qualquer palavra ou gesto (como todo religioso).

Após uma longa conversa com meu anfitrião, eis os detalhes do contrato: A cerca de um mês, um grupo de jovens caçadores desapareceram após uma “caçada esportiva” na localidade de Beira Mata, essa que é famosa pelas suas vastas e extensas floresta, as quais são importantíssimas para a sobrevivência do povo local.

Eridu me contratou para averiguar a situação, visto que é bem provável que o desaparecimento de seus jovens caçadores esteja relacionado à algum encontro com alguma criatura “exótica”. A probabilidade de eles estarem mortos é alta e, como meu dever, tive que informar minha análise ao velho sábio, o qual já imaginava tal destino. Para dar um desfecho digno a essa história, devo encontrar e identificar os corpos dos rapazes e trazer um anel, que um dos rapazes utilizava, visto que era um futuro sacerdote, pupilo e protegido do velho Eridu.

Meu desejo é de permanecer nessa belíssima cidade rodeada pelas montanhas, que agem como mãos calejadas que guardam uma formosa rosa, ainda mais depois de acabar de voltar de Beira Mata. É quase como se algum ser maior estivesse me pregando peças. Essas longas viagens estão me matando.

Depois do adorável encontro com o sábio, rumei ao centro da cidade para arrumar um local onde possa descansar e molhar a garganta com a melhor bebida que Vale da Fé possa oferecer. Foi então que tive um choque de realidade, os habitantes eram evasivos, ríspidos e raramente desfaziam o semblante desconfiado que preenchia seus rostos. Como podem viver de tal forma com uma cidade tão bela a sua volta?

Eis o motivo:

Conversando com poucas almas bondosas as quais retribuíam minhas saudações cordiais, descobri que o povo ama tanto a região que querem manter a existência do local apenas para si, por isso detestam visitantes e andarilhos estrangeiros. Os únicos tolerados são comerciantes e pessoas altamente recomendadas pelo velho Eridu e sua prole. Sabes como é, seres humanos e suas religiões, ditando regras e semeando o pavor à pluralidade. As crenças mudam, a humanidade não.

Em dois dias partirei para Beira Mata novamente, de onde devo relatar as descobertas e atualizações do presente trabalho. Espero que com a ajuda local consiga localizar as pobres vítimas com sucesso. Não será uma tarefa fácil mas meus cabelos brancos estão de prova de quantas vezes realizei tarefas difíceis e triunfei. Terei que me preparar muito bem para eventual encontro com a fera responsável pelo desaparecimento dos jovens.

A floresta sombria, como é chamada por todos, na realidade possui outro nome (bem menos ameaçador) para os habitantes de Beira Mata. Esqueça! Lembrei o quanto detesta lições de história e geografia locais. Pouparei-lo dos detalhes.

Nota: Eridu prometeu pagar o dobro do valor previamente estipulado caso eu obtenha sucesso em recuperar o anel de seu protegido, ou no melhor dos casos, trazer o jovem em segurança até Vale da Fé.

Passar bem e que o fio de vossa lâmina nunca gaste.

Mestre Ur

Felipe Manzoni
Enviado por Felipe Manzoni em 05/07/2022
Código do texto: T7553291
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