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O Coração da Mãe

O CORAÇÃO DA MÃE

Um homem está de joelhos na poça de lama. Um sacerdote. Tateia. Enterra as mãos na lama cinzenta. Olha em volta. Ao seu redor, resquícios de um avião monomotor. Ainda há muita fumaça. O jovem piloto está morto. Ainda está segurando o manche. O padre sente que o ombro está deslocado. Com o impacto, seus pertences foram jogados juntos com ele para fora do avião.

— Por favor, Mãe... Por favor... onde está a pedra? ONDE ESTÁ A PEDRA???

Ouve um grupo armado que se aproxima marchando.

— Malditos fae! MALDITA PONTARIA desses selvagens!

Um disparo.

Não há dor. Só sangue. O Irmão Thersis cai. Não há dor. Lama. Um último pensamento antes de perder a consciência. “Onde está a pedra?”.

...

(Cerca de um ano antes, em Glifos, Ilha nº 26) fæ

— E que espécie de crença eles podem ter?

— Não faço idéia, Irmão Thersis. Nunca nenhum fae falou sobre isso. Mas existem livros que...

—...que dizem que eles crêem nos espíritos da floresta. Também li os clássicos.

— Bem. Há livros que dizem... que dizem que ELES são os espíritos da floresta, Irmão.

— Terrível. Sem o menor cabimento! É uma crença vaga.

O Sacerdote leva a mão à cintura. Da faixa verde puxa uma corrente fina de prata. Ele continua falando, enquanto o jovem esboça uma feição de curiosidade ao professor.

— A fé na Mãe-Montanha sim é que pode ter toda a autoridade. O quê esses espíritos da floresta fizeram por seu povo? Permitiram que se tornassem escravos, e que hoje vivam em miséria. O quê a Mãe-Montanha fez por seu povo? Os acolheu e deu a luz a uma grande civilização. Temos os fragmentos de Seu coração.

Ao dizer isso, abre a mão, revelando o cristal que luzia claro e branco. Continua:

— Nossos grandes sacerdotes, os pais e mães do clã sagrado, habitam dentro de seu coração: Lumísia, a Cripta de Cristal. De lá, de nossa cidade sagrada é que vem o Fogo! Essa sim é uma crença que tem autoridade! Uma fé viva! Percebe? O ambiente onde estamos não fica claro e o ar não fica limpo na presença da pedra? Cada um dos membros do Clã Sagrado carrega um fragmento: o Fogo do Coração da Mãe-Montanha.

— É, padre... não há como negar. Desde pequeno eu acreditava só por hábito. Tenho todos os 9 sacramentos infantis — respira fundo e passa a mão sobre o sobrecenho — mas só passei a crer com meu coração quando o senhor me salvou de ficar cego.

— De forma alguma, Gen. O fogo da Montanha arde sempre. Precisou que os olhos do seu corpo fossem ameaçados para que passasse a ver com os do seu coração. Agora, em você a chama arde verdadeiramente, não é?

— Sem dúvida alguma. Daria a vida pela Igreja e pela Montanha, padre.

— Bom ouvi-lo falar assim. Vê como a pedra brilha com mais intensidade quando alguém de fé verdadeira fala com seu coração? Pois esse é o assunto que vim tratar com você, Genahr. A Cripta deseja que eu assuma uma capela no continente daqui a alguns meses. A linha de trens está prejudicada naquelas paragens. Por isso, recomendei seu nome para conduzir a missão até lá em seu avião.

— E o que disseram?

— Que não há ninguém melhor na congregação. As asas que você controla levarão o fogo da Montanha para além do Arquipélago! Agora eu é que lhe pergunto. O que você diz disso?

— Irmão Thersis. Não sei como agradecer!

—Seja grato. Sempre. Mas não a mim. — e olha, em sinal de reverência, para a janela a oeste, onde era possível ver Avvena, e no centro dela, o esplendor da Mãe-Montanha — Agradeça a Ela.

...


Tiros. Está frio. O sacerdote está nu. Os tornozelos estão amarrados. Tiros. Os pulsos estão atados a uma das vigas que sustenta o teto rústico. O ombro atingido está coberto com um curativo. Sem dor. Tiros. Homens, talvez cinco, gritam impropérios do lado de fora. Tiros. Alguém entra na prisão improvisada onde está Irmão Thersis. É um fæ. Ele traz uma lâmina, a ponta de uma baioneta. Terror em seu olhar. Sangue espirrado no queixo e nas mãos. Veste um casaco militar maior que seu torso. A lâmina vem na direção do tornozelo. O fæ cai de joelhos, e corta as amarras. As pernas estão livres. Tiros. Muitos homens gritam. Muitos tiros. Os pulsos estão livres também.

— Fuja, homem. — grita o salvador do sacerdote. O fæ volta por onde entrou.

O sacerdote fica em pé. Há uma janela. Não há dor. Irmão Thersis pula a janela, e está em um capinzal. Para trás fica um vilarejo de três ou quatro casas que ora ardem em chamas. Corre sem parar, saltando as ondas de capim na escuridão.

Os tiros cessam.

Os homens não gritam mais.

...


— A capela está linda!

— Que bom que gostou. Quer vê-la por dentro?

— Será que o Irmão Thersis não vai se importar?

— É claro que não, menina. Ele adora vê-la por aqui.

— Mas... e a Pedra? Ela vai me queimar mesmo?

— Claro que não! Claro que não! Além do mais, o Irmão carrega-a sempre. Venha. Olhe a pintura que eu fiz por dentro.

Gen e a menina da aldeia vizinha entram na capela. Caminham lentamente em direção ao pedestal do cristal, que ainda estava vazio.

— Por que vocês chamam essa pedra de Coração?

— Por que é o que ela é. Ou melhor, ela é um pedacinho do coração da Mãe-Montanha.

— Minha mãe disse que um dia eu vou conhecer a montanha, e que ela fica muito longe pr’aquele lado — e aponta para o mar, além de sua aldeia e da praia.

— E você vai comigo? — pergunta o jovem com respingos de tinta pelos cabelos.

— Eu pedi pra minha mãe. Mas ela diz que você não vai poder me levar.

— Ora, vejam? E por quê?

— Isso ela não quis me dizer. Mandou eu limpar os peixes. Acho que ela tem medo do seu avião. — vai até a janela e olha o mar, espichando o pescoço como se tentasse olhar por cima do horizonte — Tenho pena dos peixes. A gente tem que comer eles, se não a gente morre de fome. O que será que acontece com os peixes depois que eles morrem?

— Eles viram comida, oras.

— Não, Gen. A gente come a CARNE do peixe. O peixe mesmo morre. Eu só queria saber pra onde ele vai.

...


O curativo está firme, e seu braço direito não responde à sua vontade. Padre Thersis pensa na capela. Pensa no avião caindo. Pensa no pupilo morto pelos tiros ainda antes da queda. Mas em sua mente, involuntariamente e sem que pudesse resistir, revive o dia em que foi ordenado sacerdote da Igreja. A exaustão o cercava e corria atrás dele, mas ele correu dela a noite toda. Não conseguiu, porém, continuar fugindo da dor.

O sacerdote perdeu sua insígnia. Desejou ter morrido. Ter sido encontrado pelos soldados avvenin e confundido com um fæ separatista. Mas o aldeão o libertou. O braço doía. Sua insígnia caiu na lama. O que aconteceria se voltasse a Avvena sem o cristal? As pedras pertencem à Montanha, e para ela devem retornar. Sempre.

Sente medo. Corre. Sente dor. Em sua mente, sua família assiste à Ordenação.

“Esse é o fragmento do Coração da Mãe-Montanha que a ti é conferido. Que o Fogo arda em ti sempre.”

Chega à praia. Sente dor.

“Eu juro pela Mãe-Montanha”

O mar está próximo.

“que serei servo de sua justiça”

As pequenas casas da aldeia estão destruídas. Corpos estão empilhados.

“e farei de mim digno”

Um soldado avvenin caminha solitário em direção ao bote. Uma mulher e uma criança fæ estão amarradas dentro dele. A mulher foi espancada.

“para que o Fogo de Seu Coração arda através de mim.”

O soldado não o vê.

“A Cripta de Cristal está onde os fragmentos de Seu Coração forem levados”

Um pedaço de madeira em seu caminho.

“E eu devoto minha vida a proteger o fragmento de Seu Coração, e a ser seu portador aonde quer que a Cripta de Cristal ordene que ela vá”

O sacerdote toma o pedaço de madeira.

“Jamais permitirei que mãos indignas O toquem”

 A dor o domina. Está a poucos metros do soldado de costas. Está ainda mais perto da mulher fæ, desacordada.

“e serei instrumento de Sua justiça se isso acontecer.”

O sacerdote perdeu o cristal. A dor o domina. Está possuído pela dor.

Um tiro.

...


— Irmão Thersis...

— Eles não ousariam entrar aqui. Este é um lugar sagrado!

— Por favor! Vamos sair daqui.

— Mas e a capela? E os livros e...

— Por favor, Irmão.

Uma bala atravessa o vitral frontal, atingindo o pedestal no centro da capela. Genahr é rápido. Agarra o sacerdote pelas vestes, gira-o e empurra o homem porta afora. Cinco anos de serviço àquela capela. Uma bomba rudimentar voa pelo mesmo vitral quebrado e explode em chamas, consumindo as cortinas verdes, os livros, os bancos de madeira. Os dois homens descem a ladeira em direção à pista de decolagem.

— Por que os soldados nos atacam, Genahr? Acaso não somos conterrâneos?

— Nem todos os militares pensam assim, Irmão. Cuidado com a vala.

Os dois saltam pela vala aberta paralela à pista. O avião já estava pronto para decolar. Em instantes, o padre está em seu compartimento, e o jovem gira a hélice para dar o arranque no monomotor. Suas mãos fazem a tarefa com presteza, mas sua cabeça e olhos procuram em volta, pelo hangar. O motor arranca.

— O que foi, Gen? Vamos logo.

— Só mais um instante, padre.

No compartimento do piloto havia uma trouxa de tecido estampado e um par de sandálias feitas à mão para pés muito pequenos.

Sacode a cabeça como para espantar os pensamentos. Sem dizer nada, sobe para seu posto, ao manche. O avião põe-se em movimento e decola em direção ao oeste. Antes de chegar à praia, Gen manobra para o norte, passando sobre a capela e, em seguida, sobrevoa a aldeia de pescadores mais próxima. Olha para as pequenas sandálias no soalho do avião. Olha para baixo. A aldeia está deserta. Ele sabia aonde os rebeldes vieram se esconder. Sobrevoa as quatro cabanas no meio da mata, na esperança de ver os pescadores escondidos. Adiante, um outro morro, mais baixo que o escolhido para a construção da capela. Um homem estava escondido. Rifle em punho. Gen secretamente simpatizava com o ideal separatista. Ninguém sabia disso. Nem os rebeldes, nem seu amigo e mestre Irmão Thersis. O avião passa sobre o morro e o rebelde com o rifle, e dá uma guinada, definitivamente, para o oeste. Dois disparos que não são ouvidos. A fuselagem do monomotor é atravessada em dois lugares. O primeiro no tanque de combustível. O segundo, atravessou a ponta da asa, uma haste de metal, a tira de couro dos óculos de Gen. O avião estava descontrolado. As mãos do piloto ficaram firmes no manche, e os músculos do corpo morrendo empurram-no todo para frente. A aeronave incandescente cai nas proximidades de um brejo. O religioso, na queda, é lançado no ar junto com os poucos pertences que tinha, caindo metros adiante. O avião choca-se contra árvores, o chão e a água parada do brejo. Genahr está morto.

...


Um tiro.

O soldado não se vira rápido o suficiente. Uma bala perfurou suas costas e abriu caminho até o coração. Não teve tempo para engatilhar seu rifle.

Outro tiro. O corpo nu de Padre Thersis cai morto.

A mulher, espancada, larga o rifle na areia molhada ao lado do bote. Ela abraça a filha com força.

— Não se preocupe, meu amor. Já acabou.

...


(Dias depois)

Os aldeões vasculhavam o local onde o avião caíra, que é a quilômetros da aldeia. Entre os destroços, a mulher encontra uma sandália, como a que fizera para sua filha, parcialmente enterrada onde o barro é mais firme. Sem dificuldade ela tira-a de onde estava. Algo brilhante, um cristal, estava entre a sandália e o barro, preso a uma corrente prateada.


Volmar Camargo Junior
Enviado por Volmar Camargo Junior em 28/11/2007
Reeditado em 28/11/2007
Código do texto: T755868

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Sobre o autor
Volmar Camargo Junior
Canela - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
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Volmar Camargo Junior