Siga o ursinho

As névoas enegrecidas dos seus densos sonhos rapidamente adquiriram uma tonalidade esverdeada. O cheiro de fuligem foi substituído pelo frescor da natureza. E a fumaça, antes de toque abstrato, tocava com a textura de jovens folhas de velhas árvores.

Seus cansados olhos se abriram, e viram as pequenas folhas que deitavam delicadamente sobre o seu branco rosto. Coisas tão pequenas que acordaram o profundo sono de Celeste. Seus olhos presenciavam uma floresta se materializando ao seu redor, à medida que a nitidez de sua visão aumentava com o dissipar do sono. Chão governado pela suave terra, acobertada em folhas tão marrons quanto o envelhecer de uma vida. Chão plano, tão calmo quanto a superfície virgem de um cristalino lago. Ar purificado pelo respirar da arbórea instaurando por um antigo semear com o intuito de encantar e fazer de alegria saltar. Áureas árvores com áureas folhas de outono, cujas mechas dos seus esvoaçantes cabelos protegiam o seu rosto do castigador raiar do sol e todo ardor por ele causado.

Celeste sentia uma respiração perto de seu rosto. Uma respiração rápida e astuta, como se fosse um farejar. Olhou para a sua direita e descobriu a presença do seu farejador: Um ursinho. Não era mais que um filhote. Sua pelugem tinha uma coloração achocolatada bem clara, tal qual chocolate ao leite. Apesar dele ser um pessoal selvagem, Celeste levantou a sua mão direita para acariciá-lo. Sua mão branca como a neve pousou sobre a cabeça do ursinho, acariciando suavemente o seu macio pelo, tão macio quanto um recheado algodão.

Ao começar do ato de carinho executado pelas mãos fracas de Celeste, o ursinho fechou firmemente os olhos e alargou o espaço entre as bordas de seu sorriso, gesticulando a quantidade de felicidade que sentia ao ser acariciado pela garota. A resposta àquele ato de afeto aqueceu o coraçãozinho de Celeste tal qual uma fraca fogueira no centro de uma densa nevasca.

Em seguida, o ursinho saiu do alcance da mão da garota e se dirigiu à parte média do seu abdome. Ele usou o topo da sua cabeça para empurrar do seu abdome, como forma de tirá-la do chão. Ela viu que a força dele não seria suficiente, então decidiu poupá-lo do esforço. No entanto, ela ficou surpresa com a força que ela teve que investir para se levantar daquele solo. Era como se fosse uma tarefa homérica, drenando todas as migalhas de sua força. Com certa dificuldade, ela tentou se manter em pé, sem antes perdurar pela tempestade de tontura que abalava as estruturas do seu ser. Após se fixar numa posição em pé, ela voltou seus olhos para o ursinho, que soltou um infantil rugido para ela, e em seguida deu meia volta e começou a andar. Ela não sabia o que aquilo queria dizer, então ficou imóvel. Cinco segundos depois, o ursinho se virou para ela e mexeu sua cabeça da direção dela para a direção para a qual ele estava seguindo, como forma de indicar que ela deveria acompanhá-lo. Não tinha outra opção senão seguir o ursinho.

Celeste sentia-se fraca. Sentia necessidade de comer e beber, apesar do seu corpo não gritar fome ou sede. Sua cabeça possuía uma leve sensação de tontura, e acreditava que apenas um tropeçar era o suficiente para que ela caísse no chão. Uma queda sem retorno. No entanto, divertia-se com o andar do ursinho. Era um andar tão engraçado, segundo ela. Tinha uma vontade de rir ao ver aquele animalzinho fofo balançar suas minúsculas perninhas.

Essa breve alegria, no entanto, foi desmanchando. Escorrendo. Vazando. Escapando. Evaporando. Não conseguia mais prestar atenção no engraçado andar do ursinho. Sua mente estava submersa numa densa nuvem escura de tristeza. Uma névoa carregada de chuva de apatia. Trovões. Cada um deles cantava suas inseguranças. Chuvas intensas que alimentavam o seu medo e todas as preocupações por ele plantadas.

Suas percepções, mergulhadas em cinzas. Sentidos, anestesiados. Vontade, vítima de um recorte. Estava em queda livre. Não tinha tropeçado. O chão sob seus pés brancos se desfazia. Afundava. Sem prazo para retorno.

Seus olhos, fechavam-se. Da superfície, afastava-se.

Algo lhe puxava. Puxava levemente o pulso de sua camisa de mangas compridas. Abriu os olhos. Apenas sua cabeça e seus braços não eram cobertos pelo poço de areia movediça que a abraçava.

O pulso da manga do seu braço direito era puxada pelo ursinho. No começo, achava que aquele animal não seria capaz de puxá-la de sua perdição. Entretanto, sentiu seu corpo deixar aquela camisa de força feita de terra aos poucos. O ursinho se esforçava ao máximo para tirá-la de lá. Celeste não escondia a surpresa ao ver tudo aquilo, especialmente depois de suas pernas se liberarem daquela perdição e poderem se mover sem dificuldade.

Ao final da sua escapatória, ela virou seu rosto para trás e viu o poço se desfazer, dando lugar a uma área idêntica ao terreno das redondezas. Ela voltou seus olhos para o ursinho. Ele arfava profundamente, deitado sobre o chão. Extremamente cansado, porém aliviado de ter salvado sua recém conhecida amiga.

Celeste ficou encantada com o gesto de seu pequeno amigo. Ela se arrastou para perto dele, e com o último resquício de força no seu corpo, posicionou suas mãos sobre o corpo do seu salvador, como uma forma de projetar um abraço. Ele retribuiu o gesto de carinho lambendo o seu nariz. Ela riu em seguida. Uma risada fraca, mas genuína.

***

O que antes era só uma percepção engraçada, tomava agora a forma de uma gargalhada de difícil contenção. Ver o jeito com o qual aquele ursinho de chocolate andava com suas minúsculas pernas era uma visão tão cômica e tão divertida para os seus olhos. Tal visão, todavia, não suplantava de forma alguma a enorme gratidão por ele ter lhe salvado daquele poço de areia movediça, muito menos a centelha de amor que queimava gradualmente nos confins de seus coração.

Podia arcar com as turbulências que a tontura e a fraqueza causavam em seu corpo. Começava a sentir a fome carcomer seu abdome tal qual um ninho de cupins devora uma árvore. O cheiro que emanava da pele era uma afronta às suas narinas. À medida que caminhava junto com o ursinho, seus passos alimentavam seus pensamentos acerca daquele percurso e do seu destino.

“Onde este ursinho está me levando?”

“Será que é algum lugar bom?”

“Posso confiar nele?”

“Se ele me salvou, o que mais ele pode fazer comigo?”

“Será que vou conseguir comida?”

“Será que eu vou conseguir me banhar e me livrar dessa sujeira toda? E desse cheiro horrível também?”

Essas dúvidas orbitavam o seu ser. Os planetas do seu sistema solar. Cada uma delas rodopiava o núcleo da sua mente, e a cada volta, mais um ruminava. Mais um duvidar. Mais um indagar. Mais um questionar.

Dúvidas retidas pelo centro gravitacional da sua essência naquele contexto.

Seus passos pararam quando percebeu que suas orelhas não mais captavam os pequenos passos do seu peludo amiguinho. Tão absorta em seus pensamentos, que não prestou atenção à ele ou ao ambiente onde chegaram.

Um riacho. Um não tão largo riacho, de lento curso. Água limpa feito vidro de recente fabricação.

Celeste viu aquilo como sorte. Água para purificar. Seus pensamentos. Seu desequilíbrio interior. A antítese da sua tão desejada paz. Um perfume. Uma bênção.

Ela olhou para o ursinho, e o viu olhando atentamente para ela. Ele se virou para o riacho, em seguida, e caminhou calmamente para ele. Mergulhou suas patas para adentrar aquele rio. Não demorou para que começasse a nada nele. Os passinhos das minúsculas pernas deram lugar ao suave nadar resultante dos rápidos movimentos das perninhas do ursinho. Apesar de ser jovem e pequeno, aquele animalzinho não tinha dificuldade em se locomover pela água.

Ele parou de nadar no momento que chegou à um ponto equidistante do meio e da margem oposta. Se virou para Celeste e soltou um leve e calmo rugido. Ela encarou aquilo como se fosse um convite de sua parte. Um convite que ela aceitou de bom grado.

A água parecia tão inofensiva, mas o frio exalado por ela, não. Ao toque de um dos pés descalços, o frio se chocou com sua pele tal qual uma nevasca vinda da Antártica. Ela retirou o pé rapidamente em um ato reflexo, assustada com a frieza nem um pouco convidativa daquela água. Ela olhou com atenção, porém, para o branco que habitava o dorso do seu pé. E por extensão, sua pele também.

E ela refletiu por alguns segundos… E percebeu…

Aquilo não pertencia à ela. Aquele tom de branco, aquele odor, aquela sujeira. Nada.

Ela não podia mais passar sua breve existência mortal carregando aquilo. Aquelas impurezas. Aquela maldição. Coisas dependentes dela, porém ela não era dependente daquelas coisas.

Era hora de purificar tudo. Era hora de se limpar daquilo.

A baixa temperatura da água era uma afronta ao sem estar, mas se recusava a continuar caminhando enquanto carregava aquele fardo sujo sobre sua pele. Sua liberdade cantava mais alto que seu medo.

Celeste voltou a mergulhar o pé na fria água daquele riacho. Apesar do incômodo, ela não se deixou abalar. Deixou aquela água banhar o seu pé. Suas pernas, que vestiam o jeans descolorido que ia até os tornozelos. Seu tronco e membros superiores, guardado por uma camisa de mangas compridas que iam até os pulsos.

Quando finalmente percebeu o que havia feito, estava submersa até às clavículas naquela água. Sentiu calma. Felicidade. Tranquilidade. E algo se esvaindo dela…

Olhou para o lado, e viu todo o branco de seu corpo ser derramado e levado pelo curso do rio, dando lugar à uma cor levemente quente que se hospedava em sua pele. Tal qual óleo sobre água, viu aquele mal se despedir dos seus tecidos orgânicos. Espalhando-se sobre a tensão superficial, com bordas feias e irregulares, mostrando as suas garras. Morria se não estivesse em simbiose. Morria sem estar em codependência. Morria se não andasse feito um parasita.

Ao mesmo tempo que via o sumiço daquela assombração, levada pelas águas do esquecimento, Celeste sentia o vazio deixado por aquela monstruosidade ser preenchido por algo único. Algo precioso. Algo lindo.

Vida.

Uma vida pertencente à ela. E somente ela. Uma história somente dela para controlar. Pensamentos que só ela poderia tecer. Emoções controladas pelo seu próprio puxar de cordas.

A maldade não a perseguia mais. Nada mais poderia assombrá-la. Estava livre, enfim.

Ela olhou para a direção do ursinho. Ele nadava em sua direção, rugindo algo que parecia um rugido feliz. Parou de nadar no momento que chegou perto do seu corpo. Celeste se abaixou um pouco e deu-lhe um abraço. O afeto daquele animalzinho percorreu sua pele e seus músculos quando ele deitou sua cabeça em um dos seus ombros.

Era como se fosse mágica. Todas as possíveis sensações boas que um ser humano poderia sentir, passavam por todos os escombros dos seus muros interiores quebrados feito fumaça e povoaram todos os espaços de seu sistema nervoso.

Não podia falar. O fluxo de sentimentos tirara-lhe momentaneamente a voz. Ademais, ficou levemente surpresa com a sincronia entre a abertura de seu sorriso e o escorrer de uma lágrima.

***

Suas roupas molhadas eram um peso a se aguentar durante a caminhada. Pelo menos o andar do ursinho era o suficiente para lhe dar forças e lhe divertir um bocado.

Passado o banho no riacho, Celeste não pôde mais ignorar a fome que sentia. Incomodava-se bastante com a falta de peso em sua barriga. O murmúrio em sua barriga equiparava-se ao grito do mais tenebroso dos dragões.

O último murmúrio foi tão alto que não era nada imperceptível aos ouvidos do seu amiguinho peludo. Ele parou de andar, virou-se e viu a sua faminta amiga.

Antes que ela pudesse expressar alguma coisa, o ursinho voltou a andar, porém em outra direção. Ele começou a andar para a direção oeste, desvirtuando-se completamente do caminho antes trilhado. Celeste teve que seguí-lo. Assim como no percurso original, ela não tinha ideia sobre o destino dela.

Será que aquele ursinho poderia entendê-la?

Será que sabia de sua necessidade?

Será que o lugar para onde estava levando-a poderia ter algo que poderia suprir a sua necessidade?

Desta vez, seus pensamentos não foram inundados por questionamentos por muito tempo. Podia ver, de longe, árvores com pitadas de vermelho. De início, achou que seriam macieiras, mas nunca tinha visto macieiras com frutos tão vermelhos. Um intenso vermelho rubro. Um pouco mais intenso que sangue.

Quando ela chegou perto daquelas árvores, ela finalmente descobriu a identidade daquelas frutas.

Jambos vermelhos. Apesar de ter visto eles algumas vezes, ela nunca havia saboreado algum.

As árvores cheias daquele fruto semi-estranho. Uma quantidade tão grande que só de pensar na tarefa de contá-los, um por um, era extenuante.

Ficou encantada com a quantidade de jambos pendurados nos galhos que não percebeu a existência de um bom número deles no chão. Suas constituições estavam intactas, mesmo após terem sofrido quedas de uma altura equivalente ao dobro de sua altura.

Tinha dúvida se poderia saboreá-los… Isso até ver o seu amiguinho peludo comer um dos frutos que estava no chão. Ela o olhou com estranheza, olhar este rebatido pelo olhar de dúvida que ele lançou para ela. Dúvida não muito séria pelo fato da boca dele estar povoada por filetes vermelhos da casca e minúsculos pedaços brancos de polpa.

Celeste se abaixou e pegou um dos frutos no chão, visto perto de seus pés. Mesmo com uma sujeira superficial sobre a casca, nada mais que poeira, ela optou em morder o lado não tocado pelo chão.

A casca era macia. Foi rasgada com uma graciosa facilidade pelos seus dentes. A antítese era ilustrada pela polpa levemente endurecida. O sabor do fruto dançava em sua boca tal qual um perfume dança dentro de um quarto. Um abocanhar de um pedaço foi o suficiente para acalmar o monstro que gritava em sua barriga. Sua musculatura, antes cinzenta e pálida, era agora forte e avermelhada. Seus olhos, antes secos e áridos, encharcaram-se feito Nilo. O rastro do pedaço abocanhado coloria suas vísceras e afugentava toda a fraqueza abrigada em seu corpo.

A descarga de serotonina corria pelo seu corpo. Do topo da sua cabeça até a ponta dos dedos de seus pés. Um manto descendo sobre ela. Alegria amarela, em seu corpo encontrava leito.

Seus olhos olharam o ursinho. Ele, com a boca ainda hospedando os pedaços do fruto, dirigiu-lhe um semblante feliz.

Celeste não teve tempo para prestar atenção na animação e na velocidade com as quais ela comeu os outros frutos jogados ao chão.

***

O andar do ursinho não era mais a centelha do fogo de sua diversão. Não lhe trazia mais graça. Era palavra ressignificada. Um andar que transpirava conforto. Afeto. Amor.

O caminhar deles havia acabado em frente a portões. Portões de ferro. Vestido de marrom e com um arco de tijolos ao seu redor. Não havia um cercado ou muralha em volta dos portões. Nenhum túnel. Apenas os portões. Um isolado portão duplo.

Celeste não sabia o próximo passo. Desconhecia o significado e a função daqueles portões.

Enquanto tentava refletir sobre os portões solitários, ela ouviu intensos grunhidos perto dele. Ela olhou para o chão e viu o ursinho empurrando a cabeça contra uma das portas daqueles portões. Ela sentiu pena daquele pequeno animalzinho, empenhando todo o seu esforço para empurrar aquela pesada estrutura de metal. Seu coração enchia-se de culpa ao vê-lo se esforçar daquele jeito, sozinho.

Ela se aproximou dos portões. Colocou-se perto do centro, do lado do seu amiguinho. Pousou suas mãos sobre as bordas mediais das portas.

O portão se abriu, mesmo tendo convicção de não ter investido muita força para abrí-los.

E viu.

Aparentava ser o paraíso. Uma estrada de terra amarelada, embelezada com rochas planas esbranquiçadas. As laterais preenchidas por árvores de troncos avermelhados e brancas folhas. O fim da estrada era nítido. Uma mesa de pedra, de topo plano e borda circular. Cadeiras de mesmo material, de mesmos contornos, porém com dimensões reduzidas.

Via 3 mulheres sentadas em volta daquela mesa. Não conseguia vê-las com detalhes. Andou apressadamente, a fim de sanar sua crescente curiosidade.

Ao chegar perto da mesa, ela as viu sem filtro algum. Uma mulher de cabelos curtos, encaracolados e negros, pele com a mesma tonalidade que a dela, usando um óculos de grossas lentes. A segunda possuía uma pele com um branco semelhante à farinha, cabelos castanhos longos e ondulados, com um óculos de lentes não tão grossas. A terceira mulher tinha cabelos pretos longos e lisos. Tinha uma pele levemente escurecida. Todas elas estavam descalças e trajavam vestidos amarelos.

Todas elas sorriram quando a viram. Levantaram-se de seus respectivos lugares e andavam calmamente em direção à ela. parecia que estavam esperando-a pacientemente.

Celeste sentiu-se acolhida por aquelas mulheres. Segundos depois, lembrou-se de seu amigo ursinho. Ela deu uma meia volta, a fim de buscá-lo nos portões. Busca esta bruscamente e precocemente interrompida por uma visão assustadora.

O mesmo ursinho havia crescido. Crescido a ponto de atingir a altura de um urso adulto.

Paralisada pelo medo, ela não soube como reagir ao rápido e inesperado crescimento do seu amigo. Antes de fazer qualquer coisa, aquela grande urso a envolveu em seus braços e a puxou para perto de seu corpo.

Um abraço. Um abraço gigantesco.

Celeste fechou os olhos. Deixou o medo evaporar.

Um abraço que aquecia o seu corpo.

E seu coração.

Caio Lebal Peixoto (Poeta da Areia)
Enviado por Caio Lebal Peixoto (Poeta da Areia) em 11/08/2022
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