MECSTAR — O APRENDIZ DE HERÓI • 9

• CAPÍTULO 9 — BATATINHA •

— Você definitivamente não conhece o Re-Claw Mão, se acha que ele pararia só por isso, Mectá. — Disse Bongo, o Gordo, sem tirar os olhos da tela esverdeada à sua frente. — Ora, vejam só, aquele tatu velho de Danatinóia acaba de voltar para o subsolo!

— Será que ele pegou meu livro também? Malditos gafanhotos! O que será do meu futuro heroico sem ele, Bongo? Temos que pegá-lo! — Foi só então que me dei conta de que não sabia que espécie de ser ou coisa era o Reclamão. Na sua nave em forma de cebola ele vestia um manto que o ocultava. — Então ele é mesmo um tatu? — Perguntei para a lesma que pilotava a nave, concentrada no que parecia a leitura digital de um rastreador de tecnologia altamente desenvolvida.

— Se só vai me dizer coisas óbvias é melhor ficar calado, Mectá, e não tire minha concentração. Não me faça arrepender-me de tê-lo trazido de volta a bordo.

— Como é que é? Como é que é?

Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Eu, Mecstar, tinha arriscado a vida de maneira leal e honrosa por aquele cara. Por aquela vasta lesma verde de quatro braços. Tudo por causa da bola de gude carambola, que ele, muito provavelmente, nem sabia para que servia. Eu fora quase comido por dezenas de miltopéias, preso, humilhado e tudo mais... e agora essa. Eu estava prestes a dizer todo tipo de palavras inapropriadas para um vocabulário heroico, meus amigos, mas nesta hora, felizmente, e espero que você também se lembrem disso se desejar seguir a gloriosa e brilhante carreira do heroísmo, lembrei-me de mais um sábio conselho do meu amado livro vermelho, que citava as palavras de um antigo sábio manameinano:

“Quando com muita raiva, fique calado; quando feliz (se é que isso vai acontecer alguma vez na sua vida), fique ainda mais calado. Aliás, fique em silêncio sempre que possível. Principalmente nas horas que os sentimentos (principalmente os relativos à paixão) o forçarem a dizer palavras que você normalmente não diria. Isso o poupará de muitos problemas desnecessários e de alguns necessários.”

Seguro nas palavras do sábio manameinano, procurei relaxar enquanto podia. Pois, se tinha aprendido alguma coisa naquelas últimas horas, as primeiras de minha jornada heroica, era que esse momento de pausa, de relaxamento, seria extremamente curto. Tão certo como a noite rouba a luz do dia, logo eu estaria novamente com a minha querida pele correndo risco de ser frita, triturada, desintegrada, esmagada, ou digerida no estômago fétido de alguma criatura desprovida de bons hábitos alimentares.

Falando em comida, procurei por algo para beliscar por toda parte da nave — tentando não dar atenção aos ruídos do R2 batendo na porta do banheiro e gritando para que eu a abrisse — heróis também precisam se alimentar afinal. E esse era o real motivo das ocasionais tremedeiras que me acometiam, e não o fato de eu ainda está em choque por quase ter beijado o chão do Vale da Morte Que Grita num encontro tão veloz que evidentemente não renderia um relacionamento psicologicamente estável.

Encontrei uma esfera vermelha, levemente achatada nos polos, de superfície extremamente lisa e reluzente. Era de um vermelho brutalmente vermelho. Me fazia lembrar as maçãs do amor que eu costumava roubar nas Festas da Colheita Boa em Solavanco. Só que essa era bem maior. Havia na lateral um botão luminoso aonde vinha escrito: “Com Fome Mortal?” com uma letra tão sugestiva, mas tão sugestiva, que quase fez meu estômago dá um salto em direção à esfera de metal a fim de devorá-la como se ela fosse mesmo uma maçã gigante com cobertura de açúcar derretido colorido. Pressionei o botão repetidamente, cada vez que foi pressionado, ele reluziu com uma cor chamativa diferente. Um completo espectro de cores nada discretas.

— Você não para a boca, não? Espero que exploda no próximo sanduíche de cenoura frita com atum. — Ouvi uma voz falar lá de dentro da coisa vermelha que mais tarde descobri ser uma espécie de cozinha portátil. O contorno de uma portinhola de meio metro de altura surgiu emitindo um brilho vermelho florescente, que conseguia ser ainda mais sugestivo e maximizador da sensação de fome. A portinhola correu rapidamente para o interior superior da esfera, revelando uma pequena passagem onde antes estava o botão. Da passagem saiu o dono da voz, sugestivamente iluminado pelo neon vermelho. Era uma preguiça-anã de pelos castanhos avermelhados com um enorme chapéu de cozinheiro, vermelho com bordados brancos, cobrindo metade de sua cabeça. Vestia um avental das mesmas cores, mas este vinha com a mensagem:

EU AMO MUITO BATATAS E BOLOS RED VELVET S2.

Escrita com letras gordas e simpáticas.

Mais para baixo, discretamente, em fontes menores, mais finas, havia:

PS: O paraíso deve ser uma espécie de purê (feito de bolos Red Velvet).

O carinha segurava com suas garras de bicho-preguiça uma enorme caneca xadrez monocromática fumegando um aroma de chá mate dourado adoçado com uma colher de chá de mel.

— Ah, você só pode ser novo por aqui — o que de maneira nenhuma significa que precisa ficar aí parado com essa cara de peixe beta — o que vai ser? — Disse ele coçando a cabeça por baixo do enorme chapéu. — Que tal um x-saúde com porções triplamente generosas de betenabos rigorosamente escolhidos e processados? Decida logo, filho, o estômago não espera por uma boca lenta. — Então bocejou e pousou as mãos sobre sua barriga volumosa.

— É... o que mais você tem aí?

— Repolhos defumados com aroma da ilhas tropicais de Panatibéa, feijões grelhados com o rico tempero da extinta cozinha de Quem Foi Que Deixou o Gás Vazar?, cogumelos gigantes, desfiados, cheios de encanto e prazer descomedido, bananas ocas fritas polvilhadas com caramelo sabor verão e curtição, mas esta última eu só indicaria como sobremesa...

— Tá, respira, respira, você nada com carne aí não?

Ele (ou ela) me olhou com uma cara que me fez querer fugir correndo para uma daquelas ilhas de Panatibéia. Mas meu estômago falou mais alto. Tão alto que ele o ouviu roncar.

— Diga ao leão sedento de sangue que habita as cavernosas trevas de seu estômago, que não servimos nada que venha da morte de criaturas inocentes aqui! — Pude ver perfeitamente a garganta nojenta dele gritando — Como você pode ser tão egoísta assim e não ter vergonha de continuar vivendo? Sabia que isso é uma maneira bruta e antiquada de se alimentar? Apenas uma dieta baseada em frutas, verduras e cereais pode o salvar da diabetes almática...

Respirei fundo.

— Ok. Tudo bem. Me trás o que você tiver aí, umas folhinhas não pode ser pior que essa sua conversa maluca. Além disso, não ouvi você mencionar um sanduíche de cenoura frita com atum?

O Batatinha — como eu passei a chama-lo, por causa da sua camisa — ergueu um dedo com sua longa garra e fez uma expressão extremamente reflexiva. Alguém que de repente via contestada toda estrutura de suas convicções. Mas como todo bom ser que se julga inteligente, jamais admitiria isso, e tentaria virar o jogo a seu favor.

— Tudo bem — Fui mais rápido — Apenas traga a comida, o que você quiser, tá bom?

Ele desmanchou a cara, virou-se, e entrou de volta na maçã. Evidentemente não satisfeito com o rumo que a conversa tomara, mas faria o que eu pedisse para se ver livre de mim o mais rápido possível.

Menos de um minuto depois, ou assim me pareceu, ele voltou com uma bandeja média. Apertou um botão num pequeno controle remoto, e eis que ergueram-se do chão da nave, desconfortavelmente próximo de mim, uma mesa e uma cadeira. Ambas possuíam o mesmo tom de vermelho da esfera de onde o Batatinha saíra, e tinham a forma arredonda, lembrando uma abóbora, nas extremidades. Sentei-me e ele me apresentou o prato.

— Apresento-o Flores do Solstício, um prato refinado que você, pelos seus modos, com certeza nunca ouviu falar. No solstício de verão do planeta de Luzamor, existe uma espécie de árvore...

— Cara, deixa eu só comer, não precisa fazer comercial. — Disse, mais que impaciente.

O Batatinha pigarreou e continuou:

— Como eu estava dizendo, antes de ser rudemente interrompido, essa espécie de árvore tem seu inteiro ciclo de vida num único dia. Pessoas de todas as partes do Universo viajam para Luzamor nesta época específica do ano, a fim de presenciarem esse fenômeno peculiarmente estranho. Entretanto nunca se sabe onde vão nascer os únicos três exemplares que nascem — e morrem — a cada ano no solstício. Turistas fazem apostas uns com os outros sobre quem vai ser capaz de encontrar o local exato do nascimento das Flores do Solstício, como são conhecidas. Isso aquece a economia de Luzamor em 15000%, todos os anos, principalmente por causa dos lucros adquiridos com as vendas de mapas com a improvável localização do nascimento daquele ano. Os mapas, vendidos em inúmeras lojas em variadas versões de luxo, sempre indicam um local errado, mas ainda assim são comprados por muitos, a fim de diminuir a quantidade de palpites que o sujeito poderia ter, e, desta forma, aumenta suas chances de encontrar o local correto...

— Você vai deixar eu comer, ou não? — Disse, tentando tirar a bandeja da mão dele, da maneira mais educada possível, claro. — Me dá, eu tô COM FOMEEEE!!!

— O crescimento destas árvores é deslumbrante de se assistir! Elas crescem de um centímetro por minuto, até que finalmente alcançam a altura máxima de seis metros e trinta centímetros, em um único dia. No dia seguinte, aos poucos, a árvore começa a morrer, com a flor desabrochando e decaindo, até que a árvore finalmente morre, totalmente seca até virar uma fina poeira que é carregada pela brisa.

Apaixonados pelo enigma que é a espécie das Flores do Solstício, o Dr. Evângelo Matos e sua esposa, a Dra. Sarah Matos, ambos especialistas em botânica, decidiram montar um laboratório de pesquisa no planeta, a fim de tentar desvendar esse segredo. Em seu primeiro ano de pesquisas, os Matos testaram todas as águas do planeta, mas não encontraram nada além de um simples mineral que poderia ter sido encontrado em qualquer outro lugar do Universo. No segundo ano de pesquisas, os Matos se concentraram no solo, e também não encontraram nada além de uma mistura de terra comum. No terceiro ano de pesquisas, eles decidiram examinar a estrutura celular das árvores, e aí, finalmente, encontraram algo que os chocou profundamente: as estruturas celulares das árvores eram completamente diferentes de tudo que já tinham visto.Uma árvore desta espécie tinha um número maior de células do que qualquer outra árvore já registrada. E não havia nada de comum entre as células das árvores desta espécie e as células das árvores de outras espécies, e era, muito provavelmente, alienígena. Finalmente uma equipe de curiosos cientistas místicos desembargou no planeta para uma análise energética celular e chegaram a conclusão de que as células das Árvores do Solstício estavam energeticamente conectadas com a vibração temporal de seu planeta natal, que ficava numa dimensão cósmica que vibrava numa faixa temporal mais acelerada, o que levava a tal disparate.

— E o que é que EU TENHO A VÊ COM ISSOOO?

— Como era de se esperar, a descoberta dos Matos fez com que os turistas fossem ainda mais em busca das árvores, a fim de as examinarem de perto. A economia de Luzamor decolou ainda mais, e os mapas com a improvável localização das árvores se tornaram ainda mais populares.

Consegui tirar a bandeja, e enquanto ele dizia...

— Já os frutos delas são uma porcaria...

Levantei a tampa. Só havia uma porção de sementes, minúsculas. Não pareciam ter nada de especiais, não fosse todo aquele bla-blá-blá da preguiça, as teria tomado por ervilhas amarelas.

Estava levando a primeira delas à boca, quando ouvi a voz:

— ATENÇÃO! PREPARAR PARA CAIR! PREPARAR PARA CAIR! EI, VOCÊ AÍ, É, VOCÊ COM A ERVILHA AMARELA NA MÃO. PREPARAR PARA CAIR SEU BABACA!

Soando nos alto-falantes internos da nave. Tudo começou a tremer, e todas as sementes caíram e se espalharam pelo chão. Enquanto isso, o Batatinha entrou novamente na maçã do amor, gritando com as mãos na cabeça: "Danou-se foi tudo! O leiteeee!".

Anos se passaram e eu jamais consegui descobrir o porquê de ele ter falado isso.

A nave tremia como uma britadeira. A porta do banheiro — não entre sem precisar... — abriu-se cuspindo um R2 com um sabonete de lírios silvestres de Panassóia em uma de suas orelhas e um vidro de creme redutor de rugas, Dorian, o Cinzento, entrando em choque com a sua nuca.

— Que feijões azedos está acontecendo aqui? — Exclamei, relembrando uma antiga expressão da minha infância.

As escotilhas da nave foram fechadas. No painel de controle do Bongo havia um monte de imagens esquisitas. Bongo não demonstrou nenhum sinal de que iria falar, então o R2, intrometido como era, respondeu:

— Estamos entrando no subsolo. — Você não sabe de nada mesmo, né, Mectá?

— Mudamos a nave para o modo Toupeira. — Disse Bongo, com mais indiferença que de costume — Estamos perseguindo o Re-Claw Mão, que está fugindo com a Bola de Gude Carambola. Mais alguma pergunta? Bem, eu tenho uma: quem nasceu primeiro, você ou sua burrice?

— Hua-hua-hua-hua-hua! — O R2 riu com vontade. Fiz menção de trancá-lo no banheiro novamente, e ele calou o focinho de rato rapidinho, correndo para perto de Bongo, o Gordo, e sua poltrona de comando ridiculamente lilás.

O tremor passou. Pelo que fui capaz de entender, tínhamos submergido e ultrapassado, com um baita de um impacto, a primeira camada do solo seco de Raiz Pedrada. Agora havia menos atrito. Então voltei para cozinha do Batatinha na esperança de finalmente conseguir comer alguma coisa. Apertei o botão e esperei. A nave tremia constantemente, parava de vez em quando e fazia uma curva.

— Comida! Qualquer coisa que dê para mastigar e engolir! — Gritei, quando a preguiça finalmente apareceu. Por mais que eu implorasse para ele calar a boca, ele não deixou de mencionar todos os pratos que tinha a disposição, juntamente com todos as raros ingredientes disponíveis. Só depois que o ameacei dizendo que minha próxima refeição seria um churrasco de preguiça-anã cheia de incomum chatice, ele finalmente me trouxe outro prato. De sua própria sugestão, uma lagosta laranja das costas tropicais de Lustrópica. O que confirmou minha suspeita de que ele servia frutos do mar. O prato era basicamente uma lagosta laranja em cima de algumas folhas de alface roxo. Peguei uma das folhas, me perguntando como quebraria a carapaça cheia de espinhos do crustáceo. Mas antes que a folha pudesse tocar minha língua, soou novamente a voz alarmante:

— PREPARAR PARA EMERGIR! PREPARAR PARA EMERGIR! EI, VOCÊ AÍ, É, VOCÊ COM ESSA ALFACE SEM GRAÇA NA MÃO. PREPARAR PARA EMERGIR, SEU BABACA!

— Peguei você, Antagonis, seu tatu quadrado, peguei você e dessa vez você não escapa! — Dizia o Bongo, todo empolgado.

Ele pegara o Reclamão? E o meu querido manual heroico estava com ele? A fome rapidamente me deixou, meus amigos. Um herói reconhece um momento importante e sabe aproveitá-lo. Peguei as quatros outras folhas que acompanhavam a lagosta e me dirigi para saída da nave enquanto mordiscava uma delas e ouvia o Batatinha gritar:

— Danou-se! Danou-se de novo!

— Se prepare, Mectá. Não pense que vai ser fácil! — Disse Bongo, o Gordo, enquanto armava-se com sua pistola.

— Nunca é, Bongo. Nunca é. — Exclamei, vendo a porta da nave se abrir lentamente enquanto eu degustava a última das folhas de alface.

Davyson F Santos
Enviado por Davyson F Santos em 14/09/2022
Reeditado em 16/09/2022
Código do texto: T7605941
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