A "PRINCESA-MELANCIA"

A "PRINCESA-MELANCIA"

José Roberto "acordou" de um sonho... não é bem assim, quem acordou de um sonho fui eu, o escritor e já passava e muito da meia-noite. No tal sonho o "Zé" Roberto pinta bolas redondas com uma boca enorme, sorridente e com tez marrom, morena, mulata. É a filha dele, ALICE, filha da Aline, a verdadeira princesa dessa estória sonambulesca. Voltemos no tempo (do sonho) uns 6 ou 7 ANOS antes.

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O "ZÉ" passeava na pracinha modesta do bairro pobre da cidade rica, uma cidade qualquer do Brasil. Era primavera e o parquinho estava florido. Não era um passeio ao acaso, ele sabia há tempos que a princesa Aline fazia suas caminhadas ali, ela ainda sem palácio. Nascera princesa a "girafa" e queria que todos a vissem assim; aliás, queria é pouco, exigia, não admitia que alguém lhe pisasse a majestade negra, hoje preta, não sei porquê. Prefiro... NEGRA, o sonho foi meu !

"Zé" Roberto aproximou-se da princesa com seu melhor sorriso (só tinha aquele), jeito de malandro, o bigodinho de jogador de baralho "sanfoneando" sobre o lábio superior. Aproximou-se e parou... lhe faltava mais de 1 palmo para "chegar aos pés", digo, aos olhos -- menos, Zé, menos -- tudo bem, à boca carnuda e sexy da princesa Aline, agora com ar de rainha, quase uma palmeira de um oásis do Saara.

-- "Olá, Aline, tudo bem ?! Belo dia hoje, não é" ?!

-- "Não pra você, "verme"... onde está a graça" ?!

(Que azar, começara mal... ía ser uma batalha e a "lança" dela estava afiada. Porém, não podia recuar agora !)

-- "Poxa, Aline, só quero te namorar, mas você não dá "uma brecha" !, contra-atacou ele, meio perdido.

-- "Quem tem que QUERER aqui sou eu e não sou mulher de "dar brecha" a ninguém. Veja lá como fala" !

Outra estocada formidável, assim ele não ía sobreviver:

-- "Aline, nascemos no mesmo bairro, estudamos na mesma escola... so quero te namorar, mas você não deixa" !

-- "Ah, agora está melhor... tens que falar com papai" !

-- "O quê, que novidade é essa ?! Você é "de maior" !

-- "Ele vai me dizer se não estou falando com um moleque... porque eu não gosto de mo-le-ques ! Agora, sai da minha frente, nossa conversa ACABOU" !

(Esqueci de dizer que ela e estava sentada num dos bancos da pracinha... podia ser no chão, tonto !)

-- "Como assim, a-ca-bou ? Eu ainda nem comecei" ?!

-- "Não tenho mais nada a te dizer e você está na frente do MEU SOL... vá falar com papai" !, o olhar gelado de rainha da Dinamarca, ou outra "Dina" mais fria.

-- "Ah, já ía esquecendo... lhe trouxe um presente" !, e tirou a mão esquerda das costas, com solitária margarida pendendo desanimada, já nos estertores de suas breve vida.

-- "Oh, uma MAR-GA-RI-DA... (e os olhos cresceram, abriram-se como rosas, como o lago adorado da infância do "Zé") mas precisava arrancá-la ?! Homem não presta" !

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Desta vez não dava para enfrentar a nova batalha sozinho, tivera modesta vitória, tinha que garantir o terreno conquistado. Levou seu pai, era amigo antigo do dela, jogavam baralho ("21", "ronda") e futebol juntos. A casa ficava na outra rua !

-- "Ora, ora, até que enfim... pensei que ía morrer sem ver isto ! Os Silva e os Santos "juntando os trapinhos". Tens o meu SIM, jovem, mas a palavra final é dela" !

O pai lhe informou a novidade, entusiasmado:

-- "Dê uma chance pro garoto, querida, é um bom menino" !

-- "Papai, quem escolhe O HOMEM da minha Vida sou eu e não gosto de garotos e, muito menos, de ME-NI-NOS... mas, vou pensar no caso dele" !

Pensou... e pensou que podia "ficar pra titia" se continuasse recusando pretendentes. E aquele "ar de safado", jeito de malandro do "Zé" Roberto, a atraía. Cedeu e concordou... uns 8 meses depois casaram na Igreja -- que era "mais barato", no cartório custava "uma fortuna" -- e, 1 ano depois, surgia um "mini-Sol" para alegrar a família da Princesa Aline.

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(E chegamos, 6 ou 7 anos depois, ao momento do meu sonho, com a pequena Alice, princesa dos Santos Silva, olhando os desenhos do pai, que dizia ele serem "a cara dela" ! Rosto redondo, sempre feliz, sorrisão de um canto ao outro das orelhas, com o gerente branco lamentando que sua filha, com tudo, não tinha a mesma alegria. O gerente pedira ao cartazista que trouxesse a menina, ela era o MODELO da campanha, o Magazine lotado, tarde de inauguração da nova coleção de roupas.

Alice, meio espantada com aquela "paparicação" toda dedicada a ela, pergunta ao pai por seu desenho. Ele aponta a sala inteira, as inúmeras "bolas rindo" preenchendo paredes, escadas e corredores. "Lili" protesta:

-- "Mas, "isto" não sou eu... isso é uma ME-LAN-CIA ! Papai, trate de me desenhar direito ou nem fico nesta festa maluca" !

Essa era a "princesa Alice", rainha do seu lar ! Uma cópia da mãe... e da avó ! E lá foi o "Zé" pegar nos pincéis ali mesmo !

"NATO" AZEVEDO (em 29/março 2023, 2hs)