O BURRISOMEM

Ele caminhava rapidamente, precisava ser o primeiro a chegar. Não sabia exatamente o que lhe esperava, ao chegar ao seu destino, ainda assim ele sabia que tinha uma longa caminhada em curso.

O frescor da manhã lhe oferecia a pré-disposição adequada àquela empreitada.

Realmente ele foi mesmo o primeiro a chegar, mas isso não o ajudou em nada, as outras pessoas foram chegando em grupo de três ou quatro, e nem perceberam que ele já estava ali. Ele ficou muito triste por que todos se confraternizavam e nem lhe davam atenção.

Talvez ele fosse um fugitivo. Mas isso não faria o menor sentido! Porque ele adorava aparecer em público, comparecia em qualquer reunião mesmo sem ser convidado e sempre dava a sua opinião mesmo que ninguém pedisse. Apesar de ser muito inconveniente nunca alguém ousou lhe expulsar

Certa ocasião, ele cismou que estava sendo perseguido, ninguém lhe deu a menor atenção, por isso mesmo ele também resolveu esquecer. Quando pensou que estava livre de qualquer perseguição. Percebeu que estava sendo seguido por sua própria sombra.

Ele era tão ignorante ao ponto de ignorar a própria ignorância, não sabia qual era a diferença entre um parafuso e um porco. A única coisa que sabia, é que ambos tinham algo em comum com a porca.

Quando alguém falava sobre carneiros, ele acreditava que o assunto era referente aos donos de frigoríficos. Mas se a citação era cordeiros, então poderiam ser os fabricantes de cordas.

Carneiro ou cordeiro, a porca do porco ou a porca do parafuso? Eram dúvidas que lhe tirava o sono. Certa ocasião andou a noite inteira até raiar o dia procurando a boca da noite. Era um ignorante com endereço ignorado. Dizia que morava em uma casinha cor de burro quando foge. Lá onde o vento faz a curva. Mais ou menos onde o Judas perdeu as botas.

Numa ocasião, determinadas pessoas estavam conversando e ele tentava entrar no assunto, cujo tema era o cotidiano, que variava desde o clima do dia e práticas esportivas. Alguém contava que certa vez estavam jogando futebol, num campinho ali por perto, e no intervalo do jogo quando eles estavam descansando. De repente ficaram surpresos ao olhar para traz, assim do nada apareceu um burro no meio do campo.

Eles foram até o animal e tentaram move-lo, mas sem sucesso. Não conseguiram mover o animal, então desistiram e deixaram o burro em paz e foram pegar suas mochilas para ir embora. Quando olharam novamente, misteriosamente aquele burro já tinha desaparecido.

– Poderia ser alguma assombração!

Alguém ponderou, mas, logo foi interrompido por um outro que disse que isso não fazia sentido, porque se assim fosse não ficaria marcas no solo.

Segundo o narrador da intrigante história, é que onde o burro esteve ficou as marcas das patas. Aquela conversa parece não ter agradado em nada, e o nosso personagem ficou meio nervoso e tratou de ir embora, dizendo que acabou de lembrar-se de um compromisso muito importante.

Ele sempre dizia que sua casa ficava no final da rua. Mas como ninguém nunca se preocupou em perguntar o nome da rua ele também não fez questão em dizer.

Nas ocasiões importantes ele estava sempre presente. Sempre comparecia a qualquer reunião da comunidade, e raramente faltava. Porém, se ele não pudesse comparecer ninguém notaria a sua ausência. Foi isso que acabou acontecendo. A sua falta não fazia falta nenhuma.

Pelo menos foi isso que disseram algumas pessoas no início de seu desaparecimento. Mas com o passar do tempo começaram a se perguntar. Será que ele bateu as botas? Aliás, isso não seria possível ele andava sempre de sandália!

Era uma noite de lua cheia, um céu clarinho, ele estava bastante agitado, talvez porque sabia que a qualquer momento poderia começar a metamorfose. Por isso mesmo deveria ficar sozinho, sendo assim procurou um local onde não seria surpreendido por ninguém. Encontrou o local ideal, conhecia bem o local e sabia que ali estava totalmente isolado, dê repente as suas orelhas começaram a crescer e seu rosto começou a se alongar e tomar a forma de uma cara de asno.

Ele se inclinou colocando as mãos no chão e começou a transformação, não demorou muito e ali estava aquele ser estranho. Meio homem meio asno, era o "Burrisomem” para os mais sensíveis ele seria o Asno-man. Dizem que as suas vítimas apareciam pisoteadas. Como se fossem atropeladas por uma manada de elefantes.

Os colonos daquela região, falavam que ele também atacava plantações de milho...

Carlos Casturino Rodrigues
Enviado por Carlos Casturino Rodrigues em 05/08/2023
Código do texto: T7854201
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