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A Herança

Aquele era o maior acontecimento de minha vida. Com certeza, a matéria mais importante que eu já havia coberto em toda minha carreira de jornalista. A bem da verdade, não me recordo de nenhum outro furo de reportagem tão comentado e com tal repercussão no mundo quanto os momentos finais da vida de Homero Marquez Veríssimo de Castro, o maior escritor do mundo. Ele começou escrevendo livros infanto-juvenis. Depois, passou para romances épicos ao melhor estilo de cavalaria. Após isso, escreveu a aclamada obra “Os Sucessores”, grande epopéia contemporânea mais consagrada que qualquer outra desde os tempos de Virgílio. Com este livro premiadíssimo, a ascensão de Veríssimo de Castro não parou. O mais interessante é a forma como sua carreira decolou assombrosamente. Um autor antes anônimo, completamente desacreditado pelos críticos de suas primeiras obras, tornou-se o ganhador de nada menos que 15 invejáveis nobéis de literatura, 24 tão cobiçados jabutis e 33 admiráveis prêmios regionais de literatura. Seus contos foram consagrados como clássicos universais ao lado dos imortais Dostoyevschi, Tcheicovsky e Kundera.  Seus romances comparavam-se ao estilo magnífico de Camões, Anchieta e Oswald de Andrade. Quanto aos poemas que fazia, nada deixavam a desejar aos que escreveu Gregório, Drummond ou Pessoa.  Nunca se vira um fenômeno cultural tão completo e estrondoso como Homero Marquez Veríssimo de Castro. Sua criatividade superava a dos grandes mestres Stephen King, Edgar Alan Poe ou até mesmo a de Doylle com seu famosíssimo personagem Sherlock Holmes. Os mais variados estilos, a mais acabada perfeição, o mais profundo toque de sabedoria repousavam sobre aquele homem. E agora ele estava à beira da morte.
Ele estava á beira da morte, e cá estava eu em meio a uma multidão de repórteres, fotógrafos e câmeras do mundo tudo, lutando por um espaço em frente à sua luxuosa mansão, aguardando o pronunciamento do médico que fora especialmente convocado para tratar dos problemas de saúde do senhor Veríssimo de Castro. As ordens eram para que ninguém entrasse ou saísse do local até que o médico retornasse da mansão, e só então teríamos a esperada entrevista coletiva. A tensão era grande, pois ali também havia muitos fãs e admiradores do trabalho daquele renomado escritor. Eu olhava fixamente para uma das distantes janelas da mansão, como se algo me dissesse que era lá onde Veríssimo de Castro estava neste momento.
 Quando se aproximavam as três horas da tarde, vimos um ponto preto ao longe cruzando as portas da mansão.  A pequena figura ficava mais nítida à medida que caminhava em direção ao exército da imprensa plantada do lado de fora da residência. Os empurrões e as cotoveladas começaram no instante em que o rosto magro do doutor surgiu acima do palanque improvisado para a coletiva. Ele deu dois pigarros, mexeu a boca ressequida como se quisesse coçar o velho bigode acima dos lábios, e pronunciou as derradeiras palavras:
-Eu quero que vocês façam silêncio agora, e escutem bem o que tenho a lhes dizer em nome do senhor Homero Marquez Veríssimo de Castro.  São duas informações importantíssimas que tenho para dar ao mundo!
Ninguém mais ousava dar um pio, como se os incontáveis murmúrios houvessem sido calados por uma mordaça mágica.
-A primeira informação é que a saúde do senhor Homero realmente encontra-se em estado gravíssimo, e não há mais nada que a medicina possa fazer por ele. Por sua própria decisão, ele preferiu passar os seus últimos momentos no leito de sua mansão luxuosa enquanto aguarda a chegada da morte iminente.
Ouviu-se um lamento profundo, quase que denunciando o abandono geral da última gota de esperança que ainda regava nossos corações ansiosos. Por mais que soubéssemos a complexidade do problema de Castro, ninguém era capaz de conceber que sua história gloriosa finalmente teria um ponto final. Foi como acordar de um sonho coletivo.
-A segunda informação que tenho a dar é um pedido pessoal do próprio senhor Veríssimo de Castro. Conforme sua vontade, devo convocar um certo repórter que está em vosso meio neste momento para que ele compareça ante a sua presença, e então o escritor mais célebre de todos os tempos concederá a última entrevista de sua vida.
As palavras do doutor foram um tremendo choque para as centenas de repórteres que assistiam aquela coletiva. Todos se olhavam curiosos, murmurando alguma coisa incompreensível, gerando uma algaravia insuportável ao mesmo tempo em que procuravam saber quem era o felizardo. Para mim, nada seria mais gratificante que poder ouvir a última lição do mestre, um último recado do maior conselheiro que o mundo já conheceu, o epílogo da história mais incrível já contada na face da Terra. Mas esperar por algo assim era inútil. Tão improvável quanto jogar na loteria. Em meio àquela turba de jornalistas, não havia como saber, nem ao menos supor qual a vontade do senhor Veríssimo de Castro.  Ainda assim, jamais poderia esperar pelo que viria a seguir. Nem em mil anos de profissão, nunca esperaria por uma surpresa tão grande.
-O nome do repórter é Estêvão Martír. Ele se encontra à minha esquerda, bem ali!
Todos os olhos se voltaram para um homem de aparência serena, por volta dos trinta e poucos anos, com cara de santo que carregava uma câmera fotográfica e uma caneta BIC presa à lapela do paletó.  Ondas de flashes, perguntas e gritos histéricos recaíram sobre o pobre homem. Era como se o feitiço virasse contra o feiticeiro. A imensidão incontável da imprensa praticamente o esmagava contra uma parede de concreto onde ele estava escorado minutos antes da declaração do médico. Agora o senhor Estêvão tentava correr, mas era tarde demais. Eu ainda tentei me aproximar alguns metros da cena, mas logo percebi que era inútil diante daquele bloqueio humano. A única coisa que me restou a fazer foi afastar-me um pouco e descansar o braço próximo ao palanque de madeira. Neste momento, lembrei-me da janela que havia visto na mansão e a impressão de que o senhor Veríssimo de Castro estava naquele quarto. Teria eu mesmo razão? Talvez nunca soubesse com certeza...
-Psiu, ei, Senhor Cleomar!
Uma vozinha irritante que vinha do lado do palanque tentava chamar minha atenção.
-Ei, você mesmo, olhe aqui pra mim! Venha cá, depressa!
Era um homem baixinho, aparentando uns cinqüenta anos e trajando roupas de gala que se escondia por trás de um brutamonte de óculos escuros horrendo. Seu dedo indicador alongado movia-se como uma minhoca repugnante, fazendo sinal para que eu me aproximasse. Resolvi chegar mais perto para observá-lo melhor.
-O que você deseja? Não vê que estou ocupado? Estamos cobrindo o maior furo de reportagem da história! E quem é você afinal?
A figura por detrás do gigante fez uma careta mesquinha, como se estivesse rindo de uma piada tremendamente cômica. A essas alturas estava claro que o gorila à sua frente era um guarda-costas, mas ainda não fazia idéia de quem seria o homenzinho da careta mesquinha.
-Nossa, que piada, senhor Cleomar! Se ao menos o senhor soubesse da verdade, há, há, há! Por favor, acompanhe-me, sim? Estão lhe esperando!
Minha mente não conseguia acompanhar as palavras daquela criatura. Parecia uma personagem saída dos contos de terror...
-Mas porque o senhor não se move, senhor Cleomar? Já não disse que o senhor é aguardado? Oh, perdoe-me, quanta insolência minha. Permita que eu me apresente (neste momento o homenzinho deu dois passos para a direita com os pequenos sapatos bem lustrados, e só então eu pude contemplar seu corpo bastante encurvado), sou Delamuerte, o mordomo do senhor Homero Marquez Veríssimo de Castro. Por gentileza, o senhor poderia vir comigo agora? Estamos perdendo muito tempo aqui. Roberto! Cuide dele, sim?
Não tive nem tempo de reagir quando a poderosa mão do guarda-costas puxou meu braço violentamente. A força descomunal daquele gigante começou a me arrastar pelo pátio da mansão.
-Mas o que significa isso? Senhor Delamuerte, para onde estão me levando? Ei, Everthon, socorro!
Meu último apelo foi para o câmera man que tentava filmar alguma coisa em meio àquela algazarra que havia se formado ao redor do repórter Estêvão. Eu estava completamente abandonado à própria sorte.
-Não se preocupe, senhor Cleomar. Ninguém vai machucá-lo. Apenas estamos livrando você de uma tarefa inútil. E afinal de contas, olhe só a hora. Já está para acontecer!
-Mas acontecer o quê, homem de Deus?
Eu já não compreendia mais nada.
-Isto. Veja, veja!
O dedo de minhoca apontou então para o rumo onde estavam os outros repórteres. A confusão já havia começado quando virei a cabeça na direção indicada. Ouvi um tiro. Gritos. Uma correria sem fim, e então a cena triste. O repórter Estêvão Martír estava caído no chão, sangrando muito e tentando rastejar para fora do tumulto. Seus olhos serenos olhavam para o céu, suplicando por clemência. Perto dele, um jovem de fisionomia ensandecida segurava uma arma e gritava coisas sem nexo enquanto alguns seguranças o agarravam pelas costas, tentando desarmá-lo.
-Meu bom Deus, mataram ele. Por quê? Não havia motivo para tanto...
-Quer mais motivos que a inveja e a loucura que vagueiam pela mente dos homens, senhor Cleomar? Tudo é uma questão de oportunidade, apenas isso.
A vozinha irritante do mordomo me tirava do sério.
-Então aquele repórter morreu por causa da oportunidade? Quer dizer que um homem mata outro, e a culpa é apenas da oportunidade? É isso que está me dizendo, caro Delamuerte?
-Estou dizendo que um homem mata o outro porque possui oportunidade, inveja e loucura. Quando surge uma boa oportunidade, a inveja que alguém sente toma conta da alma, convida a loucura para apossar-se da mente e as duas destroem o pouco juízo que resta em todo o corpo.
-Eu não entendo. Será que não está claro que isso não muda nada? Onde então fica Deus nesta história?
-Deus? Eu lhe direi algo sobre Deus! A vida nem sempre é tão bela, senhor Cleomar. Nem todos aceitam seu Deus de braços abertos. A inveja e a loucura sim, estas são duas deusas que todos convidam para suas casas. Elas passeiam juntas pela Terra procurando um espírito fraco para servi-las. Quando elas têm uma oportunidade, devoram o pouco juízo que resta nos homens e fazem deles seus fantoches, divertindo-se às custas da tragédia alheia.
-Meu bom Deus...
-Mas não se preocupe, senhor Cleomar. Se lhe serve de consolo, saiba que a entrevista com o senhor Veríssimo de Castro ainda acontecerá, porém o senhor terá direito à cobertura exclusiva, não mais o senhor Martír. E um conselho, quando chegarmos à mansão, nada de citar este nome, ouviu bem?
-Mas que nome?
-Este mesmo a quem o senhor chama de “bom”.
Durante a caminhada, eu já nem pensava mais na entrevista. Que os céus me perdoem, porém eu estava aliviado por saber que o doutor não havia chamado o meu nome minutos atrás.
“Poderia ter sido eu no lugar de Estêvão? Claro que não, fora apenas uma infeliz coincidência.”
 Cheguei a imaginar silenciosamente.
-Fique tranqüilo, Senhor Cleomar. Aquela bala realmente estava destinada ao senhor, e por isso fiz com que nos apressássemos mais. Mas agora você está seguro, e por isso vou pedir a Roberto que deixe o senhor caminhar sozinho. Roberto! Solte o homem.
O gorila me soltou quando já estávamos bem á frente das imensas portas de mogno em alto relevo. Os umbrais eram folheados a ouro e cravejados com esmeraldas. As colunas da mansão tinham feições arquitetônicas do período gótico, com proporções simetricamente projetadas para dar a impressão de que se estava entrando em uma catedral inglesa. Ao lado das escadas de marfim, havia duas gárgulas aladas esculpidas em mármore puro que reluziam como se fossem envernizadas por algum tipo de óleo aromático especial, o qual criava uma trilha suave de odor que ia desde aquela entrada até os interiores do recinto. Foi neste ponto que percebi minha liberdade relativa (pois o tal “Roberto” não me aprisionava mais pelo punho de ferro), e me detive por um segundo a admirar a beleza daquele elaborada construção. Delamuerte e o segurança passaram pelo portal magnífico, mas eu permaneci ali fora. Nenhum dos dois fez menção para que eu os acompanhasse até o interior da casa, ou que me apressasse em subir as alvas escadas. Percebi que caberia a mim optar por entrar ou não naquele misterioso lugar. Conhecer ou não a figura mais influente do mundo todo. Fazer aquela entrevista ou não. Distinguir entre a loucura ou o juízo. Destilar a inveja da oportunidade. Limitar-me ao lado do bom Deus ou conhecer o mal que habita no...
-Senhor Cleomar? Está me ouvindo, senhor Cleomar?
A vozinha irritante agora me chamava do outro lado da porta.
-Sim, sim. Desculpe, caro Delamuerte.
-Fique á vontade, não se apresse em escolher. Nós temos todo o tempo do mundo. Mas lembre-se de que o senhor Veríssimo de Castro não...
-É claro, eu sei disso.
Então eu entrei.
 Lá dentro, o clima era frio como o inverno em Berlim na época da neve. Lembrei-me da obra Corações Vazios, do próprio Veríssimo de Castro. A história falava de uma criança muda que suportava bravamente as ofensas e xingamentos dos familiares, tudo por conta de seu comportamento tão diferente do comum. Certo dia, todos os parentes são encontrados mortos, envenenados, com os lábios costurados e as pálpebras coladas nas próprias sobrancelhas. Olhos escancarados para seu trágico fim. Os corpos estavam congelados numa expressão de pavor aterradora. Exceto a criança, que conservava na face a mesma expressão calada, como se fosse outro dia qualquer naquele antro de horrores.
“As palavras de ódio os mataram. As bocas cerradas nunca mais amaldiçoariam a ninguém. Os olhos cegos finalmente enxergariam alguma coisa. Estavam obrigados a encarar os fatos até que os vermes da Terra consumassem a sentença proferida pelo justo juiz de suas causas inescrupulosas. Seus carinhos gelados terminaram por congelar os corações vazios e solitários como a morte andarilha. A neve cristalina cobriria os corpos, guardando o quadro tenebroso numa câmara de gelo intocável. Um memorial eterno para a humanidade do quão triste pode ser a vida maculada de um inocente.” (Corações Vazios, pag. 141).
Olhando para aquela enorme sala solitária, eu podia sentir o mesmo frio que senti ao ler as palavras de Veríssimo de Castro. Era como reviver um sentimento antigo de saudade e euforia. O segurança Roberto havia desaparecido assim que pus os pés no interior da mansão. Agora estávamos somente Delamuerte e eu perambulando pelos incontáveis cômodos daquele palácio perdido no tempo. Eram salões, corredores, escadarias, quartos, enfim... Infinitas divisões de uma obra cabal construída em semelhança ao que se imagina ser digno apenas de reis. Os quadros, as mobílias, as mesas, os vasos, as pedrarias, os revestimentos, a ourivesaria, os detalhes em si, tudo era de uma riqueza inigualável. Componentes humanísticos oriundos de muitos lugares do mundo. Pertencentes a diversas épocas históricas. Produzidos em variados períodos culturais. Uma miscelânea universal de tudo que o homem já conheceu em sua existência simplória e passageira. O senhor Delamuerte me olhava com aquela mesma careta mesquinha de antes, como se quisesse desenhar no rosto o milagre de um sorriso natural. Mas esse tipo de coisa somente os homens possuem.
-Do que o senhor está rindo, Delamuerte?
-Não é engraçado, Senhor Cleomar? As pessoas pagam, e pagam caro para conhecer tudo isso. Fazem viagens pelo mundo, aprendem história em suas escolas, compram conhecimento em suas faculdades, gastam tempo e paciência acompanhando programas de televisão, rádio, internet, mídia, tudo isso para terem algo que nunca tiveram. Verem algo que nunca viram. Observar o que não observaram em seu dia-a-dia. Enquanto isso, Senhor Cleomar, Homero Marquez Veríssimo de Castro tem tudo isso...
-Ele tem tudo isso bem aqui, ao seu redor. Na palma de sua mão, a seu bel prazer. Eu percebi, caro Delamuerte. Também notei que ele cita muitas destas coisas, senão todas elas, em seus livros também. E imagino que ele tenha obtido todo este acervo justamente por causa da venda de suas obras, não é mesmo?  Não é o que você ia dizer, senhor Delamuerte?
-Na verdade não, senhor Cleomar. É quase isso. Mas ao contrário do que o senhor pensa, Veríssimo de Castro não tem todas estas riquezas por conta da renda obtida com seu trabalho. A verdade é completamente o oposto disso. Por causa de seu patrimônio cultural é que o senhor Veríssimo conseguiu chegar ao patamar em que seus livros hoje estão. Não fosse seu acesso ao conhecimento, seu contato com o potencial que o próprio mundo lhe oferece, seu bom uso da imaginação ilimitada deste universo, jamais ele teria escrito tanto e com tanta qualidade, senhor Cleomar.
Eu nunca tinha pensado em Castro por este prisma. E imaginar que todo seu trabalho, sua filosofia, seu universo fantástico estava contido naquele estupendo mausoléu. Cada viagem, cada artefato histórico, todas as personagens hermeticamente criadas, tudo. Simplesmente tudo poderia ser visto dentro das quatro paredes que enclausuravam Homero Márquez Veríssimo de Castro. Era como se o gênio tivesse se apropriado das invenções de todos os povos para miscigená-las e então vendê-las aos bocados, em produtos de 250 laudas aproximadamente. A embalagem continha capa, contra capa e dedicatória, mas o conteúdo nunca nos alertara que estávamos comprando a nós mesmo em versões remodeladas. Será que isso é a melhor definição que podemos dar ao que chamamos de “livro”? E o que falar de Delamuerte, o misterioso serviçal?
 Delamuerte parecia saber muito mais que dezenas dos intelectuais que eu já havia entrevistado. Por trás da face repugnante havia um teor mental bem além do que se espera de um mero mordomo. A vozinha irritante possuía uma retórica impressionante, quase que manipuladora. O corpinho encurvado ocultava seus pensamentos imponentes e incisivos. Como se um velho baú corroído pelas traças guardasse os maiores tesouros do mundo. É esdrúxula a comparação, mas o mordomo decrépito que segredava espetaculares reflexões caía como uma luva àquela grande mansão que continha toda a história da humanidade.
- Oh, já estamos chegando!
Não havia modo de uma idéia resistir na cabeça com aquela voz enervante retumbando pelos ares. Delamuerte alertava-me que estávamos próximos aos aposentos do senhor Veríssimo de Castro. Um dos corredores daquele labirinto interminável estava prestes a me apresentar pessoalmente ao maior escritor da Terra (ao menos era isso o que seus livros me induziam a pensar). Achei estranha a aparência deste novo ambiente por onde Delamuerte me conduzia agora. Diferentemente dos outros lugares da construção, o caminho possuía uma iluminação fraca, quase opaca, e sem demonstrações suntuosas de luxo ou nobreza. Não havia objetos históricos, nem quadros renascentistas, nem gravuras helênicas nas paredes. Cruzar um túnel escuro no trânsito de São Paulo e o corredor que ruma aos aposentos de Veríssimo de Castro traduziam praticamente o mesmo ritual. Senti-me como se estivesse nascendo outra vez, mas agora conscientemente. Primeiro a sensação de bem-estar, o conforto do ventre materno, e logo em seguida a força expurgatória das contrações. As trevas que nos acompanham desde o rompimento da bolsa até a brancura do avental médico. As mãos salvadoras puxando-nos pelos pés... Confusão. Novidade. Alegria. Finalmente o choro, expressão máxima de liberdade e vida.
-Chegamos, senhor Cleomar. Aguarde um instante, que vou verificar se o senhor Veríssimo de Castro já está pronto para recebê-lo.
Não demorou mais do que dois minutos até que Delamuerte reaparecesse com os dedinhos alongados abrindo a porta para mim.
-Queira entrar, Senhor Cleomar. O senhor já é aguardado há muito tempo.
Preferi interpretar aquela expressão como se fosse uma referência à demora entre o momento da entrevista coletiva e minha chegada até ali. Não sei ao certo o motivo, mas só em imaginar que aquilo poderia significar alguma outra coisa já me provocou terríveis calafrios. Eu entrei.
-Fique á vontade, Senhor Cleomar. Por favor, queira me dar licença, pois tenho mais afazeres a cumprir agora. O Senhor pode sentar-se naquela cadeira bem ali (o dedo de minhoca indicou uma poltrona a dois metros de distância) que o escritor Homero Marquez Veríssimo de Castro irá recebê-lo. Garanto que este será o maior feito jornalístico de sua vida, ouviu bem? Da sua vida. Boa sorte, há, há, há, há!
A figura corcunda desapareceu pela porta do mesmo modo como o segurança Roberto o fizera quando entrei na residência, porém as risadinhas insuportáveis ainda continuaram em minha mente por alguns segundos. O vidro da janela estava fechado. Senti vontade de respirar ar puro, sentir o vento fresco batendo em meu rosto, o gosto lívido da brisa lá fora. Caminhei na direção da janela, abri uma pequena fresta na vidraça e olhei para além dos portões da mansão. Tudo vazio. Calmo e silencioso. Apenas o palanque de madeira permanecia intacto, última testemunha da multidão que há poucos minutos massacrara impiedosamente um colega de profissão. A quietude era tamanha, que por um instante cheguei a duvidar de minha sanidade. Aquilo tudo teria mesmo acontecido? Estaria eu realmente ali, de pé, nos aposentos de Veríssimo de Castro?
 “Oportunidade, inveja e loucura.”
 As palavras de Delamuerte me vieram à cabeça quase que instantaneamente.
-Você não está louco, meu filho. Aquilo tudo realmente ocorreu do modo como você presenciou.
Quase desmaiei de susto quando ouvi aquelas palavras surgindo do nada. Foram proferidas por um homem sentado numa cadeira de balanço segurando um notebook. Ele não olhava para mim. Simplesmente digitava no aparelho com os dedos ágeis tais quais relâmpago. Como poderia não tê-lo visto até aquele momento?
-Quem é você? O que faz aqui? É outro serviçal da casa?
O homem sorriu, paternalmente.
-Não está me reconhecendo, meu filho? Olhe para mim. Me reconhece agora?
Foi como se houvesse um flash dentro de minhas memórias. Como não o reconheci antes? Era Homero Marquez Veríssimo de Castro, em carne e osso, bem diante de meus olhos! Os cabelos grisalhos, a pele morena, o físico magro de uma pessoa que já não pratica atividades físicas freqüentemente, sim, era ele! Vestindo um roupão um tanto surrado, com as rugas salientes no rosto e os óculos de descanso sobre os olhos, mas não parecia tão doente. Ah, aqueles olhos cativantes eram inconfundíveis...
-Acalme-se, meu filho. Não precisa ficar agitado. Sente-se em seu lugar, para que possamos ter um diálogo franco. O último de minha miserável vida.
Eu sentei novamente na poltrona confortável. Agora eu reparava em tudo à minha volta. Não somente no escritor, meu maior ídolo desde a mais tenra infância, mas no próprio quarto em si. As paredes com dois quadros bem simples pendurados, pessoas trabalhando no campo. Os móveis humildes com um aspecto nostálgico, dando um ar de antiguidade ao recinto. Os porta-retratos expostos aqui e ali pelos bidês espalhados ao lado da cama desfeita. Tudo muito simplório, parecendo mais um quarto de hotel que o quarto de uma mansão.
-Eu ainda não havia reparado no quarto, Senhor Veríssimo de Castro...
-Eu sei, meu filho. Eu havia me esquecido de escrever isso... Perdoe a minha memória. É a morte chegando.
-Mas isso o quê?
-Isso, a descrição de meu quarto. Por falar nisso, este é o quarto de minha infância. Uma das poucas coisas reais que conservei comigo após começar minha vida fictícia de escritor.
-Do que o Senhor está falando, grande Veríssimo de Castro? A descrição do quarto? Eu... Eu não entendo...
O homem sorria, compreensível e complacente como se fôssemos velhos amigos. Enquanto conversávamos, ele não olhava para mim. Apenas atinha-se a escrever alguma coisa rapidamente no computador portátil. Tão ligeiro como uma fala que sai da boca. Tão automático quanto um pensamento...
-Que sai da mente. Ótima reflexão, muito boa, meu filho!
-Como assim? O que é isso? O que está fazendo? Como você leu meus pensamentos?
O escritor mantinha o olhar estático em sua tarefa de digitar. Satisfeito consigo mesmo, imagino. O roupão velho e a barba ainda por fazer montavam o quadro perfeito do que se imagina de um idoso solitário, perdido em seus próprios pensamentos. O problema é que ele estava em meus pensamentos!
-Não compreende, meu filho? Eu espero por você há muito tempo! Você é minha maior obra, a coroa de minha criação, o herdeiro de todo este império! É a personagem de todas as minhas histórias!
-O que o Senhor está dizendo, Senhor Veríssimo de Castro? Isso não faz nenhum sentido. O que significa tudo isso afinal de contas? Por que me trouxe até aqui? Ei, pare de escrever e olhe para mim. Olhe para mim!
Meus ânimos já estavam exaltados a este ponto. Além do imenso incômodo que aquelas palavras me causavam, tinha a sensação de que estava sendo ignorado. Trocado pelos toques sucessivos no teclado. Eu exigia uma explicação!
-Não posso parar, meu filho. Se eu parar de escrever, a história termina. E você, você jamais saberá qual o verdadeiro propósito de sua vida.
-Cale a boca, eu não agüento mais tudo isso. A entrevista coletiva, a morte do repórter, o segurança agressivo, o mordomo asqueroso, afinal de contas, o que isso tudo significa?
De repente, o escritor parou. Seus dedos não se moviam mais. Finalmente parecia que teríamos um diálogo racional. Ao menos, eu seria ouvido desta vez...
-Tudo bem, meu filho. Fale. Fale tudo o que tem para falar. Pergunte, declare, questione, faça sua entrevista exclusiva, pois eu responderei a todas as suas dúvidas, desde que consiga abrir a boca agora...
...
Era uma sensação muito estranha. Como se houvessem apagado toda minha exaltação. A língua parecia pesada. O cérebro não processava nenhuma informação. O corpo não tinha ânimo. Senti-me como uma marionetes sem autonomia própria.
-E então, meu filho? Diga alguma coisa? Onde está todo aquele entusiasmo e bravura de poucos instantes atrás? Desapareceram, não foi? Mas espere, deixe-me ajudá-lo...
Veríssimo de Castro tornou a volver os olhos para a tela do notebook, e os dedos vorazes dançaram sobre o teclado. De repente minha boca se abriu, os pensamentos começaram a se encaixar nos lugares certos, e comecei a suspeitar do que o escritor queria dizer com “minha história”.
-Agora você entende, não é, meu filho?
-Mas não faz sentido... Nada disso faz sentido... Isso é loucura!
-Loucura, inveja ou simplesmente uma oportunidade, meu filho? Pense bem em tudo o que Delamuerte disse pelo caminho. As coisas que ocorreram hoje à sua volta, isso tudo não é loucura? Será que não há nada de oportuno nisso? E quanto ao sentimento que você carrega consigo... Por acaso não teria nada a ver com inveja, teria?
Eu não conseguia mais raciocinar direito. Parecia que meus passos até ali não tinham nada a ver com a reportagem, nem mesmo com a morte anunciada de Veríssimo de Castro. Estava completamente perdido.
-Não fique assim desse jeito, meu filho. Eu vou lhe ajudar a pensar. Me conte, como era a sua vida antes desta coletiva de imprensa? Quem são os seus pais? Onde você nasceu? Por acaso você tem algum sobrenome? Hein? Responda-me?
Havia alguma coisa de errado comigo. Cada pergunta que aquele maldito escritor fazia me deixava mais embasbacado, aturdido, perdendo minha lucidez pouco a pouco.  Minha vida parecia uma incógnita daqueles portões para fora. Não existiam lembranças que não estivessem ligadas ou a Veríssimo de Castro ou ao dia de hoje. Não me vinha à memória o nome de meus pais, ou irmãos. Não sabia onde ficavam as escolas que freqüentei, ou qual a universidade onde cursei jornalismo. Fora de Homero Márquez Veríssimo de Castro não havia nenhum resquício de mim mesmo. Nada!
-Eu não sei...
Foram as únicas palavras que conseguiram vencer minha completa inércia.
-Imaginei que você não soubesse, meu filho, pois esta história começou com o anúncio de minha morte, e tudo o que você sabe está ligado a isso. Sinto muito ter que lhe contar algo tão frívolo, mas sua vida não passa de algumas páginas escritas por mim. É necessário que você compreenda isso antes de continuarmos.
-Então não passo de uma mera idéia, é o que está me dizendo?
-Uma idéia, um pensamento, uma personagem, um conto, chame como quiser, mas o mais importante é que fazes parte de mim!
-Mas, mas, isso não é possível. Não há possibilidade de algo assim acontecer, há? Se eu sou apenas parte de você, como estamos conversando? Se você realmente está à beira da morte, por que parece tão bem? Foi tudo uma grande mentira? Qual o propósito de me trazer até aqui?
-Acalme-se, filho. Minha morte nunca foi uma farsa, realmente estou morrendo! Não se iluda com este corpo aparentemente bem. É tudo parte do enredo criado por mim. Eu criei você, os repórteres, o médico, o mordomo, a mansão, tudo, mas nem tudo o que você viu e ouviu são mentiras. Como eu disse antes, você sempre foi minha maior criação. De algum modo, sempre consegui encaixá-lo em meus romances, meus poemas e livros. É por isso que conheces todas as minhas obras. Por isso suas lembranças são apenas os manuscritos de minha autoria. Por isso sua vida não vai além da minha.
-Eu não entendo... Se eu fosse parte de uma história, não poderia ouvir você! Isso só pode ser brincadeira, uma personagem não fala com seu autor. Você de algum modo está me confundindo! Confundindo!
-Como poderia confundir você, meu filho? Como poderia controlar os seus pensamentos? Como roubaria suas lembranças? Observe as letras do seu nome. Se prestar bastante atenção, verá que elas formam um anagrama, pois até isso é inventado. Poderia chamá-lo de Marcelo, Leocram, quem sabe Celomar. Se eu o quisesse, poderia transformá-lo num homem tão mau como o diabo, ou talvez torná-lo o maior beato da face da Terra. Tudo depende de minha vontade, porque eu sou o seu autor.
-Não diga bobagens, seu, seu escritor maluco! Além de moribundo, deve estar louco também. Algo assim não é possível São só mentiras suas pra me enlouquecer!
-Será que realmente não é possível, Senhor Cleomar? Então olhe para mim...
Nesta hora, Veríssimo de Castro não era mais ele mesmo. Em seu lugar surgiu a figura peçonhenta de Delamuerte, citando meu nome com aquele jeito insuportável...
-Olhe de novo, Cleomar. Eu morri por você lá fora. Como pode dizer que isso é mentira?
Agora era o repórter Estêvão Martír quem segurava o notebook, falando comigo apenas para me martirizar ainda mais. Meus olhos não conseguiam mais olhar para a cadeira de balanço. Meu Deus, o que viria a seguir?
-Creio que Delamuerte tenha lhe alertado para não pronunciar este nome aqui dentro, não é?
A voz paternal do escritor voltara a conversar comigo. Um alívio para o pânico que estava se formando dentro de mim.
-Me desculpe, me desculpe. Mas por favor, pare com isso, grande Veríssimo de Castro. Eu acredito em você. Pare, pare!
-Tudo bem, meu filho. Eu não queria assustar você, mas não me deu outra escolha! Agora que estamos acertados, é melhor falarmos sobre o que realmente importa, pois eu não tenho muito tempo...
-Eu não entendo, Veríssimo de Castro. Se tudo o que você me disse até agora é verdade, quer dizer, se realmente você tem o poder de contar a história, como o senhor poderia estar prestes a...
-Morrer? Há, há, há. Aí está o grande xis da questão, meu filho. Nada é tão simples como parece. Por favor, permita que eu assuma a narrativa daqui, tudo bem? Creio que ficará mais fácil para os leitores se eu me tornar o narrador neste momento. Prometo que ao final desta história, você terá todo o controle nas próprias mãos. Tudo bem?
-O quê? O que quer dizer com isso, Veríssimo de Castro? Eu não compreendo...
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A pobre criatura não conseguia dimensionar a complexidade de se criar uma história. Mas não a culpo. Pois como explicar a uma simples personagem o quão tênues são os fios que tecem o espaço-tempo de uma fábula? Ou o enredo de uma crônica? O tempo? O clímax? Enfim, a própria narração de um conto? Para você que está aí, caro leitor, talvez seja mais fácil abstrair tudo isso. Mas imagine-se no lugar de Cleomar. Não importa seu nome, seu sexo, sua idade ou cor. Pense em si mesmo como parte de um livro. Pense em sua própria vida como uma seqüência de fatos. Não seria ela uma imensa narrativa? Um grande conto com altos e baixos? Um trabalho literário de autoria superior? Reflita sobre isso. Talvez resolva tomar as rédeas de seu romance pessoal algum dia. Pense nisso, enquanto voltamos para Cleomar...
O jovem repórter me olhava como se eu fosse um oásis em meio ao deserto escaldante do Saara. Sedento pelas respostas que só eu poderia lhe dar agora. Os olhos espantados causavam-me uma profunda compaixão.
-Quero que você seja meu sucessor, meu filho.
Cleomar não se moveu, parecia que não tinha compreendido minhas palavras. Repeti-as mais uma vez:
-Eu disse que quero que você seja meu sucessor, está me entendendo?
Da segunda vez, fiz com que quebrasse o silêncio.
-Co... Como isso é possível? Quer dizer, diante da situação em que me encontro, eu já nem me pergunto mais se isso é possível, mas como isso pode ser possível...
Minha bela criação finalmente tinha aceitado sua condição.
-Desde o início dos tempos, quando a escrita ainda nem havia sido inventada, existiam as lendas. Muito antes do homem inventar a roda ou dominar o fogo, as histórias já eram repassadas oralmente de pai para filho. Os contadores dessas lendas geralmente eram os líderes, patriarcas dos primeiros clãs. Era o início de nossa cultura que assim manteve-se viva no imaginário popular. Com o tempo, as coisas mudaram. A Ilíada de Homero ou os ensinamentos do grande Sócrates foram exemplos da evolução destas lendas. A escrita aconteceu. Grandes homens continuaram contando suas histórias, repassando um saber já muito maior que os simples mitos. Vieram as escansões, os romances épicos, o estilo sacro, trovadoresco, tudo isso percorrendo o mundo através das bocas e dos papéis escritos por poucos homens que marcaram um determinado período literário, tornando-se um marco histórico de sua época. E Seletos foram os nomes que se sobressaíram em cada etapa da história humana, tal qual como o meu hoje se sobressai. Porém, todos temos uma coisa em comum, sabia, meu filho? Algo a que nenhum homem pode renunciar. Poderia dizer-me o que seria?
Cleomar havia reassumido o papel da criança muda em “Corações Vazios”. Completamente submisso e calado.
-Eu não sei, senhor Veríssimo de Castro. Diga-me o senhor...
-A morte, meu filho. A morte. Todos eles morreram um dia, assim como eu logo morrerei. Isso porque não importa o tamanho de seu dom. Nem o destaque que você tenha em sua vida. “Aos homens é dado morrer uma só vez, vindo depois disto, o juízo...”
A criança muda estava perplexa, como se lhe contassem uma história de terror, ou mistério. Finalmente resolveu interferir:
-Até agora sua história ainda é natural, senhor Veríssimo de Castro. Como lemos nos livros por aí, ou como aprendemos em nossas escolas. Mas não compreendo qual minha importância nisto tudo...
Pobre criança, sua mente de criação ainda não podia alcançar os intuitos do criador.
-Meu filho, há um segredo por trás de tudo o que lhe contei até aqui. Algo que nós escritores temos escondido da humanidade por séculos. O poder que nos é dado não pode ser compartilhado liberalmente, pois é muito extenso. Caso contrário, não haveriam ouvidos para escutarem nossas histórias, nem olhos que lessem nossos relatos, pois tão importante quanto o que o artista faz é a platéia que lhe prestigia e reconhece seu trabalho... A verdade é que de tempos em tempos, quando sentimos a morte ao nosso derredor, temos que passar o cajado adiante. Transmitir nosso pacto a outrem. Reenviar a responsabilidade de guiar o mundo com as palavras de sabedoria, a honra de preceder o comício das ideologias, o peso de saber que és ouvido no mundo todo.
-Então quer dizer que todos os maiores nomes da literatura fizeram parte deste pacto?
-Mais que isso, meu filho. Eles repassaram de geração a geração seu poder criador, sua imaginação fértil, seu dom de fazer análises e suposições. Todos nós começamos como ninguém, renegados, simplórios escritores de colunas baratas, meros sonhadores decadentes, até que o grande influenciador da época nos chamou para continuar a sua missão. O acordo é que façamos uso moderado do poder que temos em mãos. Que escondamos a verdade dos leitores inocentes e que mantenhamos sempre em nosso trabalho um ponto fixo de referência. Em troca, nossa alma é vendida ao preço do sucesso.
-Referência? Mas como assim, ponto de referência?
-Não importe se falaremos de filosofia, política ou contos de fadas, meu filho. O mais relevante é que conservemos um certo padrão na escrita. Pode ser uma palavra em especial. Quem sabe um nome, um lugar, ou uma personagem em especial...
-Neste caso, eu fui seu personagem? Eu me tornei seu ponto de referência?
A mente de Cleomar estava se abrindo. Minha criatura já não estava mais sob meu comando, havia assumido vida própria!
-Meus parabéns, meu filho. Percebeu que por todas as minhas obras, você sempre esteve lá? Você já foi um grande espião, interpretou majestosamente o papel de bandido, outras vezes chorou como um menor desabrigado e com fome, até roupas de mulheres você já vestiu! Tudo isso porque era meu desejo que se preparasse para a chegada deste dia.
-Mas se eu fui um de seus personagens, o seu chamado ponto de referência, não entendo o que faço aqui. Compreendo o pacto, o trabalho dos escritores, o intuito de esconder a verdade de todos, a troca da alma pelo sucesso, mas de que forma uma personagem pode assumir o papel de seu criador?
-Aí está o segredo, meu filho. Isso nunca foi feito desta forma antes. Também porque eu exagerei. Fui ganancioso, austero, ousado demais com o poder que haviam me concedido. O pacto diz que devemos usar o dom moderadamente, para que o segredo não seja revelado. Porém como você percebeu, eu decidi quebrar as regras. Excedi-me ao limite da criatividade. Perverti minha própria realidade, minha vida, meu nome, remodelei o modo de fazer história. Escrevia dias e noites sem parar, em busca de fama e sucesso nunca vistos. Depois de anos de trabalho árduo, alcancei meu principal objetivo: o reconhecimento mundial como nunca outro ser humano havia conquistado... Mas não sem o preço de minha soberba. Olhe para mim! Este corpo é apenas fachada, um embuste, um recipiente falso do verdadeiro estado deplorável em que me encontro. Meu espírito está abatido e condenado. A escrita suga nosso ânimo, nosso desejo de viver, por completo. Ela rouba nossos melhores anos como preço do sucesso e da glória. Agora não há mais volta para mim. Sei que em alguns minutos morrerei, e minha alma será levada para o acerto de contas final. O abismo dos poetas mortos. O poço da perdição, o maldito...
-Inferno!
-Isso, chame como quiser, meu filho. Já não importa mais. Então, antes que eu me vá, quero fazer uma oferta a você. Minha personagem mais bela, mais completa e perfeita. Quero que você (não um dos muitos que estão lá fora), você continue meu trabalho. Você será meu herdeiro. Poderá ter o que quiser, recriar tudo à sua volta, remascarar o universo todo se for a sua vontade. O que me diz? Hein? Faremos negócio?
Cleomar não sabia, mas meu destino agora estava em suas mãos. Tamanho era meu envolvimento com a personagem na história, que não havia mais como diferenciar criador e criatura, manipulador e manipulado, autor e obra. Caso não aceitasse a oferta, minha alma morreria. Não haveria tempo de convocar outro sucessor, e a imaginação da humanidade ficaria em aberto. Eu seria condenado pelo pior crime que um escritor pode cometer em vida: a negligência com seu próprio mundo. E agora meu repórter refletia com os próprios pensamentos.
-E caso eu aceite, o que devo fazer? Como isso vai ajudá-lo em sua morte?
-É muito simples, meu filho. Basta que escrevas o final desta história. É só digitar um fim em que eu tenha morrido, e o pacto é seu. Quando você terminar de contar o conto por sua própria vontade, já não serei mais o dono dele. Terei me tornado mais uma de suas personagens como você o era, e a mágica estará toda em sua cabeça, o veneno matará o próprio assassino. Mas ainda que meu corpo morra, ficarei preso às suas histórias e minha alma não poderá ser levada deste mundo enquanto puderes escrever. Eu serei o seu ponto de referência para a ascensão de sua carreira, se assim o permitir.
O rosto do rapaz estava irredutível. Qualquer que fosse sua decisão, já estava tomada e não poderia mais ser mudada.
-Tudo bem, caro Senhor Homero Márquez Veríssimo de Castro. Prestarei-me a este papel pelo bem dos leitores que habitam a Terra. E quanto tempo eu terei de vida, tornando-me escritor ao invés de personagem?
-Oh, meu filho. Isso já não poderei dizer-lhe com segurança. Tudo dependerá do tamanho de seu sucesso. Quanto mais sua alma estiver ligada à escrita, mais relativas as coisas poderão ficar. O certo é que a morte é a coisa mais certa na vida de todos. Dela não podemos fugir. Agora tome, segure em suas mãos. Sinta o prazer de criar algo por si mesmo percorrendo seu corpo até chegar à ponta dos dedos.
Passei-lhe o notebook e dei um último embalo na cadeira de balanço. Sabia que a hora estava se aproximando. O repórter tentou segurar o sorriso, mas não há bom escritor que resista à alegria de seu ofício. As mãos frias tocaram no relevo das teclas. Elas ansiavam pelo toque macio de seu novo Senhor.
-Cayus, meu filho. O nome é Cayus!
 -Desculpe, Veríssimo de Castro. O que disse?
-O nome que desejo ter em suas histórias, é Cayus Marcws Pocotirios. Tudo bem para você?
-Sim, sim, claro. Perdoe minha distração. Ainda não havia pensado nisso.
-Eu sei que não, meu filho. Aproveite bem a oportunidade e tome cuidado com a inveja e a loucura que habitam os corações dos homens, ok? Creio que hoje você aprendeu o quão perigosas e o quão presentes elas estão em nós...
-Vou tomar, Senhor Veríssimo de Castro. Quer dizer... Cayus Marcws Pocotirios.
-Muito bem então. Acho que no mais, isso encerra tudo. Adeus, meu filho.
-Adeus, Cayus.
Eu sorri uma última vez enquanto os dedos excitados do repórter iniciavam seu novo ofício no teclado, e então morri.
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O velho escritor finalmente cerrara os olhos cansados. A última centelha de vida que havia em seu corpo se apagara. O momento final havia se consumado e uma nova era estava para começar. De repente, ouvi um barulho de passos. Vozes falando alguma coisa do lado de fora do quarto. Os braços guturais de Roberto surgiram escancarando a porta e me segurando firmemente na cadeira. Delamuerte apareceu com a careta mesquinha de riso, cobrindo meu nariz com um pano umedecido de formol que segurava entre os dedos de minhoca. Ainda consegui ouvir um som insuportável, que dizia:
-Espero que tenha gostado da entrevista coletiva, Senhor Cleomar. Boa noite, há, há, há, há!
Quando acordei, não estava mais na mansão. Apenas meu velho quarto de hotel com as baratas de sempre me fazendo companhia. Não havia médicos, nem mordomos, nem seguranças, muito menos escritores com sorrisos paternais no rosto para me dizerem o que fazer ou o que pensar.
-Senhor Cleomar, o almoço está servido. Já pode vir par a mesa.
A voz insuportável já me chamava para a refeição.
-Já estou indo! Deixe tudo pronto.
“Nossa, que sonho mais louco”.
Eu pensei. Olhei para o bidê de madeira que estava do lado da cama e enxerguei um objeto familiar.
-Meu Deus (acho que agora já posso falar este nome). Só pode ser brincadeira!
Era o velho notebook. Ainda estava ligado e tinha um arquivo ainda em aberto, dizendo: “A Heranca”.
Um conto com este nome ainda estava ali, inacabado, esperando por mim. Vesti meu roupão batido, sentei na cadeira de balanço, suspirei fundo e comecei a digitar.
Cayus Marcws pocotirios
Enviado por Cayus Marcws pocotirios em 18/10/2010
Código do texto: T2564219


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Sobre o autor
Cayus Marcws pocotirios
Manaus - Amazonas - Brasil, 32 anos
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Cayus Marcws pocotirios