CAIXA DE PANDORA

O objeto tinha a forma e o aspecto desses mais modernos telefones celulares. O metal brilhante de que era feito, parecia que havia saído, naquele momento, da vitrine de loja elegante em shopping Center, mas estivera enterrado por, pelo menos, cem mil anos.

Os testes do C14, feitos nos restos fósseis de carapaças de moluscos e de plantas vasculares, nos pedaços maiores do arenito calcário que a broca de diamante estava trazendo para a superfície, haviam dado a idade aproximada do material adjacente.

A liga daquele metal era tão densa que o diamante não conseguira sequer arranhar. A caixinha media 60 x 100 x 5 mm e foi levada para o laboratório e examinada na câmara de Raios-X. No seu interior, algo parecido com chips interligados, circuito integrado e o que parecia ser a bateria. Numa das faces a tela, talvez de cristal, multifuncional, com vários ícones que brilhavam quando se colocava o objeto na palma da mão. Não havia dúvida que se tratava de um intercomunicador.

As perguntas que precisavam ser respondidas eram:

- O que era aquilo?

- Para que servia?

- A quem pertencia ou pertencera?

-Como havia chegado naquela rocha, a 650 metros abaixo da superfície, com idade em torno de 100 mil anos?

- Qual o elemento contido na bateria?

- Quais as consequências se aquilo fosse aberto?

O desenho da bateria, revelado pelos Raios-X, dava impressão de que era um artefato composto de duas peças iguais na forma, com diferença mínima de tamanho para que, por encaixe invertido, tal como a placa de Petri, formasse um espaço vazio onde se criava o campo magnético, cujas forças oponentes, ao tentarem o equilíbrio, gerassem a energia que movia o artefato e, talvez, esse campo fosse excitado pelo calor da mão humana.

O resultado negativo para presença de elemento radioativo foi decepcionante para toda equipe de cientistas, dividida desde o início, no bloco dos que acreditavam tratar-se de artefato alienígena e o bloco dos que negavam, veementemente, essa hipótese.

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A situação havia chegado ao extremo. Apesar da tecnologia avançada, o ser humano não tinha conseguido controlar o aumento exponencial da população e as consequências eram as mais aterradoras.

Legiões de famintos nas portas das fábricas processadoras dos alimentos produzidos em larga escala dentro de viveiros com controle total, para que a planta, geneticamente modificada, produzisse o máximo num tempo cada vez menor.

Havia a demanda, mas faltavam recursos financeiros para a maioria consumir.

Os terrenos anteriormente cultivados tornaram-se estéreis, apesar das técnicas modernas de remanejamento, por não se obedecer ao repouso necessário e nem o cultivo das ervas tidas como daninhas.

O extermínio em massa se tornara a única opção defendida, nos últimos tempos, por quase todos os líderes.

Os bancos de embriões estavam abarrotados e as máquinas capazes de substituir o útero, em perfeito funcionamento. Portanto não haveria necessidade de manter um número grande de reprodutores nem de representantes de etnias que ainda possuíam alguma característica isolada.

A miscigenação nos últimos mil anos levara, a população como um todo, a um só padrão genético, de onde haviam sido removidos os códons deletérios.

Também não haveria necessidade de seleção, qualquer um era candidato a morrer ou a permanecer vivo, desde que estivesse na faixa etária entre 20 e 40 anos, de forma que apenas 1% da população atual permanecesse viva e nesses, deveriam estar os operadores das máquinas e detentores das técnicas de produção industrial e agrícola.

Todas as construções seriam demolidas e seus escombros incorporados ao solo, onde seriam plantadas sementes vegetais, tratadas com gel indutor de germinação para que, em cinco anos, as florestas estivessem restauradas com toda sua diversidade.

Todo conhecimento científico e empírico das populações que num passado longínquo estiveram isoladas, foram acondicionadas em bibliotecas portáteis, produzidas com material capaz de suportar quaisquer alterações ambientais e de fácil manejo. Bastava digitar o ícone indicativo do grupo de assuntos que seriam projetados em 3D, as imagens e as informações. Não havia necessidade de tela e a bateria magnética, dispensava qualquer tipo de combustível.

Mas o plano vazou e a população enfurecida partiu para a guerra total de todos contra todos até que alguém acionou o arsenal atômico de destruição em massa.

Tudo isso registrado nas Caixas de Pandora, cujo exemplar encontrado na escavação, havia sido acionado, acidentalmente, quando alguém digitou o ícone História. Não se entendia a língua falada, mas as imagens eram mais do que eloquentes.

A civilização que havia produzido aquele artefato tinha chegado a um desenvolvimento intelectual bem superior ao atual, mas subestimara a capacidade de indignação e de reação dos povos.

Eles se destruíram, a natureza refez todo o processo para chegar novamente à nossa espécie e nós, infantilmente, estamos repetindo o mesmo erro.