Um outro sobrevivente

De longe achou ser qualquer coisa que não uma pessoa. Só quando chegou perto divisou, sem dúvidas, a forma humanoide. Diminuiu os passos, sentia os pedregulhos incertos sobre seus pés, estes também incertos. Uma pessoa, uma outra pessoa? Viva? Finalmente encontrara um sobrevivente?

Há tempos desistira de entender por que só ele ficou e para onde todos tinham ido. A pergunta de por que ele não tinha sumido junto de todos seus conhecidos, e desconhecidos, tornou-se opressiva demais, então transfigurou-se em verdade incontestável. O melhor era continuar a procurar, andar feito messias solitário até encontrar alguém ou uma explicação – mesmo que a procura agora fosse só ato mecânico e irrefletido.

A hora chegara então? Um outro sobrevivente? Outro eleito exilado por um fenômeno absurdo e incompreensível?

O quadro assustava. Um vulto com rosto em sombras no breu do túnel, e bem sobre os trilhos do trem.

Depois de tanto tempo sem levar a sério a possibilidade de sucesso, já não sabia o que fazer. E um frio lhe correu a espinha: num mundo sem mais ninguém, o que dois sobreviventes farão? Lembrou-se dos cães, donos das cidades, que agora eram selvagens e destrinchavam-se em lutas sem fim para saciar a fome por alimento fresco. O frio continuou na espinha, indo mais fundo.

Numa voz embrulhada – há tanto não a usava! – berrou:

- Ei!

Silêncio. Continuava a se aproximar, mas cauteloso; certificou-se de que o revólver na cintura estava onde sempre esteve.

- Ei!

E nada de resposta. As mãos tremiam e uma gota de suor vinda diretamente de sua cabeleira imunda cruzou a testa, venceu a sobrancelha, e indo pelo contorno do nariz chegou até os lábios. Ia chamar novamente quando reparou que o vulto estava absolutamente parado. Parado demais para ser vivo. Sempre cauteloso, o homem empunhou uma pedra e arremessou. Acertou em cheio, e o túnel do trem reverberou um estalido seco de plástico.

Agora sem medo, o homem pôde tirar suas dúvidas: era só um manequim. Talvez molecagem de criança, resquício do tempo em que elas ainda existiam. Adorariam ver isso espatifar-se contra a locomotiva. E o homem riu das crianças, depois do próprio medo. A gargalhada ecoou pelo túnel. E quando esta morreu, o silêncio de quem reflete fez-se presente. Vazio. Então vieram as lágrimas. O homem chorava aos soluços, os ombros em vida própria se torciam em direção ao peito. Eram doloridos os espasmos.

A procura havia de continuar por muito tempo.