DEUS SABE O QUE FAZ 495

São meia noite estou pescando a margem do rio Tietê, mas para o espanto das pessoas que acham ser impossível este feito, digo que resido numa fazenda onde nasce o rio Tietê, lá onde a urbanização e a industrialização ainda não conseguiram assassinar o rio. A lua me observa com seu olho estalado de lua cheia, estrelas se espalham pelo céu como pontos reluzentes colorindo o fundo do universo, repelente na pele para espantar os insetos e minhoca na vara para atrair os peixes.

O tempo parece nascer e morrer a cada instante. A noite fica mais noite e os grilar dos grilos aumentam, alguns minutos atrás eram uns agora já são milhões a grilarem e algumas centenas de sapos a coaxarem, minha pinga está acabando, estou ficando bêbado e nada do peixe vir até a mim. Entre a espera do peixe e a degustação alcoólica entro em estado de sonolência, olho para água do rio e sinto que a luminosidade da lua aumenta, olho para céu e vejo que a lua está caindo do céu, assustado me desperto do meu quase transe e então percebo que não é a lua e sim um objeto estranho.

O objeto pousa próximo a mim e um ser não identificado desce daquilo que imagino ser uma nave e se identifica:

- Meu nome é Ozzi venho de uma galáxia distante em busca de um planeta em que eu e meu povo possamos dividi-lo e vivermos em harmonia, não precisa que vocês humanos esvaziem o planeta, pois passamos muito tempo observando suas áreas territoriais e vimos que é marcianamente possível convivermos juntos, mas para isso vim captar informações mínimas para que possamos viver em paz absoluta.

Ainda em choque senti a linha e o anzol sendo puxados enfim havia conseguido finalmente pescar um peixe. Enquanto me recobrava do susto fui içando a linha ao molinete e ao resgatar o anzol me deparei com uma genuína historia de pescador, pois havia acabado de pescar uma traíra de uns vinte quilos, enquanto eu admirava minha conquista o extraterreno me olhava boquiaberta e perguntou o que eu faria com aquele peixe, disse-lhe que aqui na terra temos por hábitos comer certos tipos de animais, senti sua pele verde avermelhar-se de pavor, ele me relatou que em seu planeta todos eram vegetariano e que viviam da agricultura que todos produziam. Disfarçadamente retirei o anzol da boca daquele peixe e o devolvi ao rio e disse ao meu inesperado convidado que havia tido um mal estar e por esse motivo naquela noite não iria comer peixe.

O extraterreno queria saber se aqui as pessoas morriam todas de formas naturais, disse que não, que aqui muitos jovens morrem sob efeito de drogas, outros morrem por homicídio, outros morrem em guerras iniciadas por seus países.

Então ele me indagou querendo saber o que era guerra, disse que a guerra acontece quando alguém tenta tirar a força aquilo lhe pertence, a guerra acontece por ambição de quem tem muito e quer mais, ele ficou repugnado com a humanidade. Então saímos em sua prancha magnética com direção a cidade para que ele pudesse conhecer e entender nossos hábitos. Passamos em ruelas e becos onde havia diversas pessoas dormindo sobre seus colchões de papelão e em outras vielas crianças e adolescentes se drogando, acima dessas vielas verdadeiras mansões onde podíamos observar através das vidraças pessoas gastando fortunas em jantares que poderiam alimentar todos os andarilhos da cidade de São Paulo, mas que naquele momento alimentava somente duas bocas. O extraterreno não conseguia entender essa distribuição de renda, onde pouco tinha muito e muitos tinham pouco, disse a ele que isso era uma historia antiga que começou com nossos ancestrais onde envolvia o preconceito pela cor da pele, roubos e favorecimentos as pessoas mais favorecidas. Um pouco mais a frente no deparamos com pessoas em estado terminal e ele quis saber o que ocorria com aquelas pessoas, disse que há anos somos infectados por nossos alimentos que acaba nos levando ao óbito por células cancerígenas, infecções por doenças contagiosas e vírus surgidos por nossas infidelidades. Ele me contou que no mundo deles eles são monogâmicos que se dedicam inteiramente a um só ser, senti uma ponta de inveja e ao olhar para os olhos do extraterreno percebi que seus olhos choravam e suas lagrimas ao caírem ao chão tornavam-se pedras, fiquei imaginando quantos extraterrenos já fizemos chorar por esse universo. O único sorriso que consegui arrancar de seus lábios foi quando eu disse que nós humanos éramos o único ser inteligente na face da terra, percebi que devia ter contado alguma piada extraterrena do planeta dele. Depois de passearmos e apreciarmos nossas degradações sociais, nossos desmatamentos, nossas queimadas, nossos solos contaminados por acidentes nucleares retornamos ao lago. Disse que certamente a humanidade iria aceita-los em nosso planeta, pois ainda havia muito espaço inabitado, mas ele me confidenciou que agradecia meu convite, mas que seus compatriotas não teriam tempo hábil para regressão, pois eles já haviam conseguido combater e exterminar todas as mazelas existentes em seu planeta e que seria impossível conviver com nossa forma primitiva de viver. Confidenciou que Plutão seria mais apropriado, pois é muito mais fácil levar a luz a um planeta escuro que iluminar uma mente apagada, que a vida é um sopro que a morte consegue transformar em temporal, que a natureza é o pulmão do universo e que nós estamos deixando o universo sem ar, silenciosamente ele, com sua unha pontiaguda transfixou seu peito e tirou um pequeno pedaço do seu coração e depositou sobre o rio e como se fosse magia um cardume surgiu

saltitantes sobre a água limpida da nascente do Tietê e ele me confidenciou:

- Se é um ao outro que vocês se alimentam então deixo um pouco da poção do amor em vossa alimentação e todos que se alimentarem desses peixes se alimentarão de nossa sabedoria e vão entender que a paz alimenta a vida.

O extraterreno embarcou em sua nave e eu me pus a dormir, quando acordei estava radiante de saber que enfim a paz reinaria em meu planeta, pois as pessoas se alimentariam de paz, corri para minha casa quando me depararei com uma noticia que fiquei estarrecido. A televisão anunciava que a poluição do rio Tietê havia dizimado um cardume de varias espécies de peixes. Fiquei estático ao ver homens carregando pás de peixe da paz, talvez estivesse ali à única forma de nós nos alimentarmos de paz, mas talvez o homem não deva receber nenhuma ajuda terrestre para entender a viver em paz, afinal deus sabe o que faz.