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A ceifa - Capitulo 2

A fornalha brilhava com labaredas selvagens. O fole soprava uma corrente ininterrupta que atiçava o carvão. A barra de aço já deixara o rubro para traz e agora ostentava um brilho quase branco. Por todo o cômodo o calor era sufocante.  A janela na extremidade norte da forja mostrava as montanhas do Almirante encimadas pelas neves invernais, emolduradas por um céu de um azul selvagem, um risco de fumaça branca cortava a janela no terço superior. O risco de fumaça já começava a se desfazer, efeito das correntes de vento nas camadas superiores. As paredes estavam cobertas de ferramentas de ferreiro alem de espadas, arados e uma infinidade de equipamentos de caça, forjados de forma magistral.
O aposento contava com paredes grossas feitas com troncos de carvalhos albinos, entretanto a fuligem da forja já escondera branco dos troncos a tempo, substituindo-o por um cinza escuro que se tingia de tons de amarelo, laranja e carmim seguindo a dança das chamas da fornalha. No teto, a quatro metros de altura, rolos de fumaça acotovelavam-se para escapar pela chaminé em seu centro. Na parede oposta à janela, pela imensa porta de folha dupla, podia se ver o caminho de seixos brancos, impecavelmente ladeado por canteiros de azaleias e flores de sangue, alternando-se. No centro do aposento uma enorme bigorna ocupava local de destaque, quase como um altar em uma catedral.
A figura imponente de Thordam parou de manejar o fole, passou o antebraço pela testa retirando suor que brotava abundante. Seus cabelos caiam quase até as omoplatas, vermelhos como o fogo da forja, aqui e ali entremeados por mechas brancas, que lhe dava a impressão de reflexos ígneos naquela cabeleira em chamas. Pulseiras de couro ornavam ambos os pulsos, do direito, entretanto pendia uma pequena corrente de eles delicados, de um branco brilhante, indicando a constituição de prata. Um colete de couro grosso, sem mangas, lhe cobria o tronco deixando adivinhar a constituição robusta. Calcas de couro rústico e bodas do mesmo material terminavam a vestimenta daquela imagem de mais de dois metros que remeteria a qualquer um aos ancestrais vikings conquistadores.
Thordam tomou um generoso gole de água da barrica à esquerda da forja. Mesmo como todo o calor da forja a água estava gelada, graças ao revestimento isolante térmico da barrica. Ele apanhou a tenaz que estava encostada à forja. Com toda a pericia pegou a barra de aço incandescente e levou-a ate a bigorna. Empunhando a tenaz com a mão esquerda começou a golpear a barra de aço com seu martelo. Melhor seria chama-lo de marreta, dadas as dimensões do mesmo.
A cada golpe, faíscas de metal superaquecido voavam e iluminavam a figura do ferreiro de forma infernal. Os músculos de seus braços retesavam-se com se cordas do mesmo aço que ele forjava corressem por baixo de sua pele. Entretanto seu rosto não demonstrava sinais de dor ou cansaço, denunciando a familiaridade do oficio.
Sua mão parou no meio do movimento ascendente do martelo. Mesmo com o odor pungente da fumaça da forja Thordam sentiu o perfume de lírios brancos inundar as suas narinas. Um sorriso involuntário repuxou seus lábios, mesmo sem se virar para a porta sabia que ela estava ali. Reconheceria este perfume em qualquer lugar.
Sua mente voou retornando ao passado, quando ainda imberbe a viu pela primeira vez. Seu cabelo negro agitado pelo vento sul, frio e cortante como a melhor lamina que ele poderia um dia forjar, agitando-se em madeixas imensas como a vida. Ela usava botas brancas feitas de couro de foca, uma calça de pele de macaco aranha de um azul quase branco e um casaco felpudo de zibelina albina mais alvo que as neves das Montanhas do almirante. Seu rosto era alvo como marfim, mas seus olhos verdes tinham um brilho de encobrir mil sois. Seu sorriso parecia um colar de perolas de tão branco. Thordam sentiu o mesmo calor lhe incendiar, como o incendiara há 50 anos. Nina Or o havia cativado, e ele, então o mais forte do Dork Avul Rha, havia ficado totalmente indefeso ante seus encantos. O casamento foi rápido, como o eram todos os casamentos em seu clã. As famílias ficaram felizes e as casas de Or e Dam se uniram. Como era costume Nina manteve o nome de sua casa e as filhas que porventura viessem ostentariam o nome da casa de Or, os filhos por sua vez levariam adiante o nome da casa de Dam. Thordam nunca sentiu o ferrão da tristeza e sua paixão por Nina Or, mais tarde Nina Or Dam, nunca arrefeceu. Queimando forte como sempre ardeu o fogo de sua forja.
Enquanto divagava, sentiu mãos femininas abraçarem seu torso, enquanto o perfume de lírios brancos o envolveu.  O abraço era forte, mas os braços eram suaves, apesar de firmes. Thordam olhou para baixo e contemplou mãos pequenas se entrelaçando sobre seu peito largo. Ele virou-se rápido, sem, entretanto sair daquela doce prisão fornecida pelos pequenos braços brancos. Aqui e ali cicatrizes se viam nos braços, mas Thordam não as via. Nina Or Dam era quase uma cabeça e meia menor que Thordam, forçando-o a baixar sua cabeça para encara-la, enquanto ela tinha que erguer a sua para fita-lo em meio à tempestade de cabelos ruivos entremeados por fios de prata.
Por um instante fitaram-se sem nada dizer, sem nada fazer. Então com se não se vissem a uma vida colaram-se num beijo inflamado de paixão, amor e cumplicidade. Nem o calor da forja, ou o vento sul das montanhas do Almirante, o farfalhar das chamas ou o rugir do gelo invernal se partindo. Só os dois entrelaçados num laço mais forte que a vida.
Quando os lábios se separaram, as mãos entrelaçaram-se. Juntos observaram as duas figuras que subiam a encosta da colina, rumo à forja. Cada um arrastando a padiola com o fruto da caçada. Mas esta imagem os deteve apenas por um minuto. Juntos olharam para o céu. Um rugir distante anunciou a nave prateada de vigilância que despontava no horizonte. Novamente olharam um para o outro. Desta vez havia medo e incerteza nos seus olhos.
- A hora se aproxima amado.
- Sim, rogo ao universo que estejam prontos.
A nave passou trovejando sobre suas cabeças, mas os olhos dos dois estavam nos filhos que subiam a encosta.
Longshot
Enviado por Longshot em 12/10/2017
Código do texto: T6140732
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Sobre o autor
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Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
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