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O estrangeiro

O peso de muitas Eras sobre o meu corpo já se faz presente. Estou muito velho e sinto que meu fim está próximo. Diferente dos seres ao meu redor não percebo em mim os sinais tão acentuados da velhice, mas sei que agora não irá demorar muito.

Quando cai aqui nesse planeta esquecido achava que rapidamente seria resgatado. Ilusão minha, pois já se passaram mais de quinhentos anos do tempo local e nunca vieram me buscar. Sei que já fui esquecido.

Demorei muito tempo até ter coragem de sair do módulo de salvamento. Tinha muito medo de sofrer algum tipo de hostilização ou mesmo de ser morto pelos nativos. Apenas quando os suprimentos e recursos disponíveis esgotaram-se completamente é que decidi sair para aquele mundo. Eu tinha que continuar vivo.

Os primeiros momentos foram de um tremendo aprendizado e muita insegurança. Língua, costumes, ciência, hábitos alimentares, aspectos sociais e religiosos, tudo muito intenso, mas confesso que fiquei muito empolgado na ocasião. Hoje acho que muito do que eu era quando aqui cheguei já ficou para trás.

Tanto tempo vivendo aqui  terminei por desenvolver uma intensa relação com muitos deles. A grande tristeza foi vê-los morrendo e eu sempre permanecendo. A dor dessas perdas marcou-me para sempre. Nunca consegui ter filhos por uma leve incompatibilidade cromossômica em relação aos nativos, hoje sei que isso me incomoda muito, morrerei sem passar meu material genético adiante.

Mesmo depois de muitos anos vivendo entre esses seres ainda tenho, eventualmente, sensações de estranhamento. Cheguei a conclusão que a ambiguidade e a contradição são constituintes da natureza deles. Nunca consegui entender plenamente porque eles se matam por um deus ao mesmo tempo que produzem belas obras de arte. Sempre achei a lógica dos seres humanos estranha e muito diferente da de minha espécie. Como entender que semelhantes morram de fome ao mesmo tempo que ensaiam os primeiros passos para irem a outros planetas? Acho que morrerei sem compreender plenamente essas coisas.

Sinto dores em meu corpo, minha respiração está ficando muito difícil. Um cansaço esquisito vai tomando conta de mim. Será que irei para um dos paraísos tão belamente descritos pelas muitas religiões terrestres? Ou apenas meus átomos vão se reconfigurar e se somar ao demais que compõem a natureza?

Uma dormência intensa toma conta de meu corpo. Fecho os olhos. É hora de partir.
   
Jota Alves
Enviado por Jota Alves em 10/02/2020
Código do texto: T6862899
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Sobre o autor
Jota Alves
Belém - Pará - Brasil
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Jota Alves