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O DNA ESTAVA SÓ NO SANGUE.

DE SOARES MELLO = Alberto Frederico


A evolução científica da biomedicina é um fato incontestável, hoje observamos, nas grandes potências mundiais, a dedicação dos pesquisadores fisiológicos aos profundos estudos visando proteger e resguardar à espécie humana.

Paulatinamente, viu-se primeiro a descoberta dos antibióticos, seguiu-se para o transplantes, surgindo o ineditismo das operações cardíacas, chegou-se aos genes, partículas cromossômicas que encerram os caracteres hereditários, com isso passou-se rápido para utilização das células tronco, enfim, continuam num progresso relacionado à medicina.

Já agora, depois de variados estudos, os grandes cientistas concluíram que não existe um cromossomo herdado do pai e outro da mãe, o que permitirá dentro em breve introduzir um embrião próprio diverso do DNA, tal irá permitir que se enfrente a fibrose cística, a insuficiência cardíaca, a diabetes e o câncer.

Ainda a psicologia não se manifestou sobre esses aspectos ligados à medicina, que ocasionam diferenciações dentro do âmago familiar, havendo distintas diversidades entre os consangüíneos, entendível por poderem ser portadores de embriões desiguais.

Afluía para a família Alvarez Machado um problema que poderia estar vinculado aos distúrbios degenerativos à fisiologia, há muito tempo enfrentado, sem que houvesse progressiva melhora. O número de membros era pequeno, os pais e quatro filhos: dois rapazes e duas moças. Perdurava certa harmonia, destoava desta apenas as filhas, Helda e Hilda, que desde a infância guardavam inimizade, especialmente a segunda, mais nova quase dois anos, não suportava a irmã, vivia em constante atrito, às vezes sem motivo aparente, outras por ojeriza mesmo, injustificável.

Os pais, irmãos, parentes mais velhos e ancestrais, sempre tentaram conciliar o ânimo de Hilda, mas nada conseguiam, perdurava o ódio a Helda. Introduziram modificações, dentro de casa, nos horários de colégio, nos passeios, na convivência diária, mas ela se mostrava irredutível. A maldade permanecia no coração de Hilda, aponto de causar traumas sérios na saúde da irmã. Resolveram levá-la primeiro a um médico especialista, que depois de muita luta, exames radiográficos e de laboratório, diagnosticou que ela não sofria de qualquer doença, aconselhando que a levasse a um emérito psicólogo.

Hilda relutou estar na presença daquele profissional, tornou-se imperioso que o próprio viesse à sua casa inicialmente e persuadi-la a comparecer ao consultório. Varias sessões foram realizadas sem êxito nenhum, permanecia com o mesmo comportamento, mostrava-se irredutível. Temiam os parente que ela pudesse chegar a maiores agressões, pois pequenas costumeiramente ocorriam. Os irmãos mais moços que as duas, apaziguavam os ânimos, tentavam brincadeiras, passeios, Hilda se mostrava irreduzível.

Helda embora conciliadora, já nada mais podia fazer para conquistar, não a amizade da irmã, porque era inteiramente impossível, a fraternidade, compreensível, amenizando o ambiente da família e tranqüilizar seus pais. Começou a namorar um rapaz de boa formação, integrante de ambiente doméstico, estudante de curso superior, sabedor daqueles dissabores, procurou estreitar amizade com Hilda, que permanecia intolerável. Relegou observações feitas por estranhos, ser intolerável estar junto à família Álvares Machado, em face do comportamento da futura cunhada.

Hilda adota então uma posição mais radical: procura seduzir o amor da irmã, que a princípio não deu nenhuma importância, idêntico foi o procedimento do namorado, Raul, que se vez de desentendido, no princípio fugindo aos arroubos das insinuantes conquistas, depois foi obrigado a repelir a altura. O ambiente se agravava dia a dia, sem que o Machado tivesse condição de solucionar o impasse, pois ficara constado por laudos médicos e psicológicos que não se tratava de doença mental, e sim a formação da segunda filha.

O inevitável estava se aproximando, Hilda fica doente, com sério problema renal, é submetida a sucessivas sessões de diálises, doloridas e desanimadoras. Todos procuram prestar assistência moral e de solidariedade, ela não admite a aproximação da irmã e de Raul, de forma intransigente. È submetida a uma junta médica, que firma convicção de ser indispensável um transplante do rim esquerdo, sem o que jamais voltaria ter condições de caminhar normalmente, teria de permanecer deitada, sendo submetida duas vezes por semana ao processo de diálise.

Haveria uma única saída, transplantar um rim de Helda para ela, o único que fora compatível, nem o do pai ou da mãe os cromossomos continham os caracteres hereditários ao dela.

Inicia-se nova batalha, ela, Hilda é informada, que teria de sofrer um transplante de um rim, o esquerdo, e este seria o da irmã Helda, que já concordara em doar e submeter-se a operação. Hilda não concorda. Os médicos não podiam lhe submeter à cirurgia, sem sua autorização e consentimento. Apertam o cerco, dizem ao pai que ela teria pouca chance de sobreviver, caso perdurasse por muito tempo a decisão do transplante. Informam que serão obrigados a obter dela uma declaração escrita da negativa do transplante.

Hilda pede a uma enfermeira que quer consultar a um advogado, desejava entrar em juízo para lhe ser garantido o direito de não receber o rim da irmã. A enfermeira traz aos seus aposentos um profissional, que alegou ser um fato inédito, nunca ouvira falar de medida judicial igual, mas estava disposto a requerer.

O Julgador encara o pedido e dá uma memorável decisão, não poderia deferir o pedido, porque assumiria a prática da eutanásia, proibido pelo código penal brasileiro ou em última análise a condenaria à morte, segundo os laudos médicos.

Helda vai ao encontro da irmã e a convence que era a saída mais justa e honrosa para toda a família e ela Hilda passaria a compartilhar de um pedaço de seu corpo, que não a faria falta, este fora os desígnios de Deus, de quem não poderia fugir.

A operação teve êxito e resultado feliz, as duas irmãs estavam no mesmo boxe da UTI, em leitos lado a lado, assistidas por médicos e um psicólogo, que aguardavam despertarem da anestesia. Hilda despertou primeiro, sem saber onde se encontrava, olhou para o lado viu a cama que estava a irmã, Helda, não lhe identificou, sonolenta ainda os médicos e o psicólogo recomendaram que não falasse, até acabar o efeito da anestesia. Logo depois, Helda despertou, recebeu a mesma orientação. Quando ambas estavam bem desentorpecidas, se entreolharam, partiu de Hilda a iniciativa da primeira palavra, estava risonha, tranqüila e feliz. Tudo fazia crer que o rim já entrara em funcionamento, o próprio operador assim se manifestou. Disse: Obrigado minha irmã por salvar minha vida, agora estou com um pedaço de você dentro do meu corpo. Helda preferiu silenciar, não imaginava qual seria a reação da irmã, pensara que ela poderia ter aqueles rompantes e ali seria inoportuno.

Hilda se modificou completamente, estava amável, amorosa e brincalhona, parecia outra criatura, o que lhe teria transformado, seria a gratidão à irmã ou fora o tal embrião desfalcado dos cromossomos, apresentado nas células do DNA, que estava suprido com o rim de Helda ? Esta que durante tanto tempo sofrera na mão da irmã, agora tinha apenas um rim, mas estava libertada das maldades antes sofridas.

SMELLO = Alberto Frederico. 10/X/07.

smello
Enviado por smello em 11/10/2007
Reeditado em 30/11/2009
Código do texto: T689729

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Sobre o autor
smello
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 93 anos
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