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O piano sem alma

O PIANO SEM ALMA

        Ao comprar uma determinada mercadoria, Joel conhece Ana, que trabalha na loja como caixa. Por falta de troco, para completar o atendimento, Ana solicita a presença da provedora. Durante esse breve espaço de tempo, acontece um diálogo entre eles e também uma simpatia recíproca.
       Após a chegada da provedora, Ana completa o atendimento a Joel que, ao retirar-se, agradece e despede-se ressaltando ter sido um prazer conhece-la e que se lhe permitisse, voltaria numa outra oportunidade. Muito mais em função do seu preparo para o bom atendimento, ao freguês, Ana concorda.
       Dias depois, levado por uma grande vontade de rever Ana, Joel retorna a loja para comprar “qualquer coisa”. Com seu olhar voltado para o caixa, dirige-se para o setor de cartões onde, por mais de meia hora, vê e revê diversos deles.
       Entretida em seu trabalho e com a atenção voltada para os clientes que formam uma pequena fila na frente do caixa, Ana sequer percebe a presença de Joel que, contrariado, retira-se da loja sem nada comprar.
       Após dois meses, o moço retorna à loja, era dezembro. Efetua a compra de diversos cartões natalinos e toma lugar na fila do caixa. Finalmente chega a sua vez e Joel pronuncia-se: Bom dia! Como vai Ana?
       - Ato contínuo, levantando o olhar, ela o reconhece e responde: Tudo bem! E você? Quanto tempo!
       Propositadamente, Joel havia dado a Ana uma nota de cem reais com a finalidade de provocar uma demora em seu atendimento, dando-lhe mais tempo para conversar. Porém, o movimento na loja era intenso e o caixa estava repleto de troco. Rapidamente ela faz o atendimento a Joel que, desapontado e ainda arrumando o troco na carteira, despede-se e deseja-lhe “Boas Festas”.
     - Educadamente Ana agradece e retribui.
      Passam-se mais dois meses e a moça não sai de sua cabeça. Sentindo uma vontade cada vez maior de revê-la, tenta resistir, procura concentrar-se em seu trabalho e a desenvolver tarefas além de seu horário de expediente.
       Joel é um bem sucedido pianista, muito conhecido pelo seu nome artístico “J. Reis”. Suas interpretações romperam as fronteiras do País, espalhando-se pela Europa onde é conhecido como “O pianista que tem o amor nas pontas dos dedos”.
      Talvez por ironia do destino, tenha sido pego pelo amor que, saindo das pontas de seus dedos, cravou-se em seu coração.
      Não suportando mais à saudade que sente da moça, depois de uma temporada de seis meses pela América do Norte, ele decide voltar na loja para revê-la.
      Ao chegar na casa comercial onde ela trabalha, simula estar precisando de alguns materiais para escritório e, dessa vez sem dirigir o olhar para o caixa, vai direto até as prateleiras onde começa a efetuar suas compras. São blocos de rascunho; cadernos pautados para música; lápis; envelopes; papéis para cartas; canetas e muitos outros materiais de consumo. Vai até o balcão, deixa o material comprado, recebe a nota fiscal e dirige-se para o caixa, para fazer o pagamento. Só que desta vez, confere a nota fiscal e paga o valor em dinheiro devidamente contado, inclusive os centavos.
       Ao olhar em direção ao cliente para agradecer a gentileza, Ana o reconhece e diz: Como vai Joel? Tudo bem!
       Os olhos do moço são tomados por um brilho intenso, sua fisionomia torna-se descontraída e seus lábios ameaçam um suave sorriso. Em sua cabeça uma exclamação: Ela lembrou meu nome! O coração, pego de surpresa, acelera e descompassa, o pianista perde o ritmo, a inspiração invade-lhe a alma e espontaneamente responde: A partir de hoje, só te pagarei as notas com dinheiro trocado. - Poder vê-la contente, com essa expressão tão linda e amável, aliás, como sempre, balançam-me as estruturas de um homem forte e determinado.
       Sentindo-se lisonjeada pelo educado galanteio proferido, ela agradece e completa: Espero que retorne a nossa loja mais vezes.
       Joel retira-se vagarosamente e seu peito está cheio de esperanças. A possibilidade de se reverem e conversarem novamente é uma realidade irrefutável. - Sente-se mais leve. Chega a ensaiar umas passadas dançantes, mas logo percebe que está no meio rua, contem-se, retoma sua passada normal e dirige-se para o Conservatório Musical.
        Semanalmente ele retorna à casa comercial e conversa com Ana que reluta em dar-lhe a oportunidade de um encontro fora da loja.
       Sem entender muito bem a posição da moça, mas aceitando suas justificativas, certo dia, Joel comunica a Ana que fará uma turnê pela Europa, onde ficará por seis meses.
       Pega de surpresa ela demonstra estar sentida, porém supera aquele momento e diz-lhe: Se, quando você voltar dessa turnê, ainda sentir a mesma vontade de conversar comigo fora daqui, basta ligar no meu telefone e marcar o encontro. Combinado assim?
      Joel, apesar da condição imposta, sente-se satisfeito. Afinal surgiu a oportunidade que tanto esperava.
      Recebe um cartão com o telefone de Ana e, pela primeira vez, despede-se dela com um aperto de mão.
       Após os seis meses de viagem, “O pianista que tem o amor nas pontas dos dedos” volta à cidade com seu coração em frangalhos, tamanha a ansiedade e saudade que sente de Ana.  Mal, acomodou-se, em sua residência, pegou o telefone, retirou de sua carteira o cartão com o número telefônico de Ana, apenas para mera confirmação, já que o tinha decorado, e ligou.
       Uma senhora atendeu, eram quase dezesseis horas: Boa tarde! Com quem falo?
        -Meu nome é Joel. Gostaria de falar com a Ana.
       Pois não, o senhor aguarde um momento, por favor.
       Ana atende: Alô Joel, tudo bem? Como foi de viagem?
       -Joel responde que tudo foi muito bem, mas pretendia falar com ela. Tinha muitas novidades para contar-lhe.
       Ana aceitou a proposta e combinou para que fosse jantar em sua casa. Assim, poderia apresentar-lhe sua mãe e contar-lhe também seus “segredos”.
       Tudo foi acertado para as vinte horas.
       Joel não se continha em sua ansiedade. Apressado dirigiu-se ao banheiro, lavou o rosto encheu-se de creme de barbear e tome a escanhoar a barba para sentir sua pele macia, livre daquela mal apresentada barba dos dois dias de viajem.
       A seguir tomou um banho de quase uma hora, enxugou-se e foi escolher a roupa para o tão esperado encontro.
       Tempos depois, lá estava o Príncipe Encantado dentro de um charmoso terno de cambraia fina, de cor azul marinho, cercado por um elo de perfume com suave fragrância de gardênia. Acerta os últimos detalhes e os fios de cabelos que insistem em sair de onde são colocados, vai até a garagem, entra no carro, buzina para a empregada, recomenda-lhe cuidados e retira-se com destino a sua grande aventura.
       Pouco depois, está tocando a campainha da porta de sua esperança. Uma senhora lhe atende, é a mãe de Ana que se apresenta e pede-lhe para entrar e tomar lugar à mesa de jantar.
       Ana já estava sentada à sua espera, cumprimentam-se e trocam um olhar complacente.
       Dona Joana deixa que conversem à vontade, vai para a cozinha e começa a trazer para a mesa os quitutes que tão cuidadosamente lhes havia preparado.
       Após o jantar, Joel que havia se excedido com as delícias de Dona Joana, gentilmente convida-as para dar uma volta pelo quarteirão. – É para facilitar minha digestão, disse ele.
       Antes que se levantassem, Joel intrigado desde o momento em que Ana disse-lhe ao telefone que tinha “segredos” para contar-lhe, indagou: Ana, quais são os “segredos” que você disse ter para me contar?
       - O primeiro deles você já saberá, curvou-se sob a mesa e levantou-se apoiando em sua muleta.
       Ana perdera sua perna esquerda em um acidente automobilístico no qual seu pai havia perdido a vida.
       Embora surpreso Joel mostrou-se muito seguro, quase indiferente àquela situação e disse-lhe: Vamos andar?
       Levantaram-se e saíram para dar a volta pelo quarteirão.
       Dona Joana alegou que teria serviços do lar para fazer, deixando-os a sós.
       Aproximadamente uma hora depois, retornaram para casa.
       Foi quando o assunto voltou aos tais “segredos” de Ana.
       Ana pediu-lhe que aguardasse na sala de visitas.
       Ao retornar, trouxe uma criança em seu colo e disse: Joel, esta é minha filha Jane.
       Atônito, sem palavras e gaguejando, pergunta para Ana: Você é casada?
       Não! Responde-lhe. - Sou viúva! Perdi meu marido no mesmo acidente em que perdi meu pai.
       Joel procura contornar o rumo da conversa, tenta recuperar-se da surpresa e explica a Ana que nada do que ela estava falando, mudaria a razão pela qual ele estava ali.
       -A conversa prolonga-se por horas seguidas, diferentes assuntos são tratados até que, dado ao avançado da hora, ele resolve despedir-se e retirar-se. - Beija a mão de Ana, aperta a mão de Dona Joana, faz um leve agrado na cabeça de Jane e diz: Boa noite!
       Depois daquele “boa-noite”, Ana e Dona Joana, jamais escutaram a voz do Joel. - Nunca mais souberam do seu paradeiro.
       “O pianista que tem o amor nas pontas dos dedos”, realmente só o tem nas pontas dos dedos.
       
   
Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 09/03/2006
Código do texto: T121072


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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 81 anos
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