DESCONHECIDOS - Final

DESCONHECIDOS – Final

Rangel Alves da Costa*

Com a morte do coronel, os capangas que guarneciam o local e estavam nos arredores nem pensaram duas vezes e correram para saquear a residência do casal. Era a única forma de saírem dali com algum lucro. Do mesmo jeito fariam o seu chefe e os outros dois, se não estivessem caçando Soniele como verdadeira fera.

Não sabiam do ocorrido, de nada que havia se passado na igreja e muito menos do desaparecimento do tão poderoso homem. Para salvar a própria pele é que haviam descido do barco e logo procuraram derrubar o casebre da mocinha. Se ela estivesse entocada em algum esconderijo teria que sair, foi o que pensaram. Mas nada da ex-prostituta, da filha do coronel.

Ainda na igreja, assim que foi constatado o ferimento mortal causado pelo pássaro, o profeta Aristeu cuidou rapidamente de soltar as mãos daquelas pessoas em alvoroço e pediu que abrissem todas as portas para a luz do entardecer entrar. Aquele ambiente precisava de luz, muita luz, e do ar de um novo tempo sem a presença malvada e perseguidora do infame casal.

Contudo, quando as portas foram abertas e saíram para a frente do templo, ao redor do cruzeiro, e todos se puseram a olhar para o outro lado, para a vila, procurando enxergar Soniele, o que avistaram, ainda que sem uma noção exata do que estava acontecendo, foi precisamente os restos do casebre esparramados pelo chão.

E nesse momento o tempo começou a mudar repentinamente, nuvens negras e pesadas se formaram, uma ventania voraz começou a dobrar árvores e fazer desfolhagens, as águas do rio se agitaram de tal modo que pareciam ondas praianas devastadoras, tudo parecia estremecer ao redor, um zumbido estranho começou a se espalhar pelo ar e tudo ficou escuro como breu. Por cima de suas cabeças, ouviram o barulho das asas do pássaro que entrava na igreja.

Nessa escuridão de terrível noite começaram a surgir pequenas luzes seguindo as águas do rio, que já pareciam mais mansas. Uma, duas, cinco e mais luzes navegando nas águas, e de onde estavam aquelas chamas veermelho-alaranjadas saíam sons terríveis de lamentos e gritos agonizantes.

E todos que estavam perplexos com a cena, tomados de susto por todo ocorrido, se assustaram ainda mais quando ouviram a voz da pescadora Pureza por trás: “Lá se vão os barcos dos mortos. E com os mortos. Lá se vão e vão pra sempre, pra nunca mais voltar...”.

Quanto mais os barcos se afastavam mais o tempo começava a clarear, a voltar à normalidade, mas já era luz sombria do entardecer. E foi aproveitando essa semiescuridão que Soniele saiu correndo da casa de Pureza onde estivera escondida e cortou vento feito uma louca, alcançando as águas do rio, mergulhando e depois nadando para a pedra mais alta que havia naquela parte do São Pedrito.

Subiu apressadamente, tirou rapidamente e jogou pelo ar toda a roupa que vestia e completamente nua, linda, maravilhosa feita uma deusa de quase-noite, doce e pura como uma virgem, abriu os braços e gritou bem alto: “Venha meu amor, venha Gegeu, venha me buscar que sempre fui e serei sempre tua”.

E caiu nas águas, onde o seu amado já esperava para levá-la consigo.

E não durou muito os seus amigos, que ainda continuavam na montanha em frente à igrejinha, viram nitidamente quando um cortejo nupcial veio descendo dos céus e se encaminhando pelo ar em direção ao templo.

O Padre Marchelort à frente, era acompanhado de dois sorridentes noivos: Gegeu e Soniele, que vinham se unir depois da morte, pelo amor.

FIM

Poeta e cronista

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