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Diario...

Encontrando um diário amarelado dentro de uma caixa de madeira ele tremeu, fascinado por historia e principalmente por mistérios se sentou no chão empoeirado e abriu, era uma letra bem desenhada, tão fina que certamente só poderia ter sido feita pelas delicadas mãos de uma moça com tinta e nanquim.
Era uma casa velha, escondida em um dos morros de Ouro Preto, algo naquele cidade o tinha atraído, e agora sentindo o estomago revirar ele tinha nas mãos algo antigo que certamente foi importante para alguém algum dia.
“ Terça feira Oito da manhã,
Não sei mais o que fazer, não agüento mais ser perseguida...” eram palavras estranhas para a primeira linha de um diário, sentindo o coração disparar continuou a ler.
“...por mais que eu reze ou fuja ele sempre me encontra, tenho medo de contar para alguém, pois me diriam louca, não quero ir para Barbacena para aquele lugar assustador onde definham os chamados loucos preciso me libertar, quero poder viver minha vida tranquilamente... Oh! Ouço passos, melhor esconder o diário, tenho medo que ele o destrua”
“Estou dolorida, ele me bateu muito, tento fechar os olhos quando ele se aproxima, pois nem sempre posso vê-lo, tenho tanto medo! Que Deus me ajude...”
“Acabo de acordar, já é noite, meu pai ainda não chegou do serviço, minha mãe foi tomar chá, Sonia esta em casa comigo, mas acho que ela já esta dormindo no sofá, eu tomaria banho se não soubesse que ele está no banheiro, melhor fingir que não vi e ficar perto de Sonia...”
“Hoje é domingo, chegando da missa o vi me seguindo de longe, Sonia o viu, estranho ela vê-lo na rua e nunca vê-lo quando está andando por minha casa, ela sorriu pra ele, espero que ele a persiga e não a mim. Quando terminei a lição senti aquele cheiro insuportável, sabia que ele estava perto outra vez, claro que agora tinha sua forma real, como era repugnante, oh que Deus tenha misericórdia de mim, pois não estou mais suportando isto!”
“Um novo padre chegou na cidade, todos dizem que ele é assustador, mas quando olhei pra ele senti uma profunda paz, ele me olhou insistentemente enquanto pregava o sermão, no final eu tive que ir procurá-lo, pois sentia que ele me chamava com os olhos. Ele simplesmente me entregou um crucifixo de prata, não falou uma palavra sequer, voltei pra casa com aquele objeto,  agora ele este pendendo em meu pescoço enquanto escrevo, espero que me proteja deste mal.”
“Tem uma semana que ele não vem, este crucifixo funciona, mesmo que eu ainda consiga sentir o cheiro e a presença, só de não ter aquelas mãos putrefatas me tocando já é bom o suficiente.”
“Agora começou tudo outra vez, o crucifixo simplesmente sumiu de meu pescoço, quando acordei, ele já estava me estrangulando, eu cheguei muito perto da morte, nem sei como escapei, de sorte que meu pai chegou do trabalho passando pelo corredor fazendo ele se esconder e depois desaparecer. Agora estou escondida no armário, manchando as paginas com minhas lagrimas e pedindo clemência aos céus, não agüento mais tudo isso!”
“Estou cheia de ódio, foi Sonia quem roubou o crucifixo, vi ela com ele no pescoço, quando perguntei irritada por que tinha roubado ela simplesmente disse que o encontrara jogado e que achou que eu não queria, isso era simplesmente uma grande mentira pois eu não tirei em momento algum. Tomei-o, coloquei e quebrei o feixe, queria ver como ela tiraria de mim sem arrebentar, e a corrente do qual ele pendia era forte demais para isso. Eu chorava compulsivamente, de revolta e desamparo, achei que seria o momento de procurar o tal padre, pois ele parecia saber de algo”
“Miguel, o novo padre, me falou sobre coisas estranhas, forças capazes de ver através dos olhos a alma das pessoas, sobre coisas que existem e que desconhecemos, forças que buscam nos humanos um meio de suprir sua insignificância de quase-vida, tudo me assustou, quando ele tocou entre meus olhos e disse que eu teria que ser forte eu tremi de cima a baixo, voltei pra casa com uma estranha sonolência, mal consigo escrever estas linhas, melhor dormir.”
“Meu sonho foi estranho, eu matava finalmente aquele maldito e devorava sua cabeça, literalmente devorava, como um animal, sinto náuseas só de lembrar, não colocaria minha boca sobre aquela carne de forma alguma, seria grotesco! Acabo de me olhar no espelho, não percebi mas me cortei em algum lugar, entre minhas sobrancelhas sangra, que estranho sangrar tanto! Tomarei um banho e farei um curativo, espero que resolva.”
“Oh estou tão assustada, pois quando eu o vi ele chorava e tinha uma forma totalmente humana! Ele sangrava e gemia, eu ali, nua, o via quase com piedade, aquele maldito me atormentara tanto era então dotado de sentimentos? O pior não foi isso....”
Neste ponto a folha estava rasgada de cima a baixo, não pude concluir, tive que pular para a próxima que eram apenas poucas linhas:
“Maldições não deveriam existir, pois vão contra nosso livre arbítrio, matei e não nego, mas desde o berço já estava condenada a ter este destino, agora só preciso me esconder aqui dentro desta caixa, ate que alguém abra e comece tudo novamente...”
Sentindo o frio percorrendo as costas me virei, vendo então os olhos inflamados de uma moça linda, que tinha um crucifixo prateado pendendo do pescoço e segurava um punhal com a outra, sangrei muito, mas não morri, pelo menos ainda posso me ver neste hospital, meu corpo esta definhando, mas minha alma, ou espírito não sei bem, vê tudo,não sente dor e muito menos dó, isso é incapaz de sentir...
Sibila Dyan
Enviado por Sibila Dyan em 30/01/2007
Reeditado em 02/02/2014
Código do texto: T363724
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sibila Dyan
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 33 anos
13 textos (792 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 29/09/20 09:50)
Sibila Dyan