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Três paises um assassino

A travessia

Diego Tótt tinha uma carreira de relativo sucesso para sua idade, começou no serviço militar obrigatório, foi promovido no quartel, foi transferido para a policia militar, e agora era policial detetive na cidade fronteira Renascença. Trabalhava no Brasil, país em pleno desenvolvimento econômico e social, indo rumo a um país de primeiro mundo. Enquanto o seu vizinho Paraguai era um país subdesenvolvido, e estava assim por muito tempo, estagnado na miséria, e como todo país nessas condições havia muitos crimes, e poucos policiais competentes para solucioná-los, a lei era deficiente e o seu comprimento praticamente inexistente.
Agora aos 29 anos, Tótt foi transferido contra o seu desejo, para iniciar uma colaboração em os dois países para o fim do crime entre fronteiras, e conseqüentemente diminuir a criminalidade geral. O novo posto de trabalho é na cidade paraguaia Ancora dos Pardais, que ele acreditava que fosse uma cidade do século passado.
Numa sexta-feira 13, em 1999, estava esperando a balsa para fazer a travessia para o seu novo emprego, já que não havia pontes sobre o grande lago que dividia os dois paises. A sua irmã o levou até o atracadouro, eles não eram muito parecidos tanto fisicamente como mentalmente. Tótt tinha os olhos negros, cabelos castanhos claro e pele clara, para não dizer pálida, enquanto a sua irmã possuía cabelos negros e alhos azuis.
-Mano eu não acho uma boa idéia você fazer a travessia hoje, você viu que dia é???
-Seria difícil eu não ver o dia já que é o meu primeiro dia de trabalho no meu ´´grande`` emprego ! Porque, é o seu aniversário?
 -Na astrologia, o numero 999, sempre é um mau sinal, e fica pior se você usar um ramo da astrologia do três, isso pode gerar o número 666 o número da besta, ou então 121212, o número do preso, sem contar que sexta-feira 13 já fala por si só.
-Tatti, eu já falei para você parar com esse negócio de astrologia, foi um golpista falido que inventou isso, e se ele ainda estivesse vivo e recebendo franquia seria mais rico do que Bill Gates, pois ha mais trouxas nesse mundo do que infomaniacos.
-Depois não diga que eu não avisei. E se a balsa afundar, você vai lembrar das minhas palavras. Bem você sabe que  eu te amo, se cuide e não se esqueça de me visitar em suas folgas, tá?
-A gente se fala!
Tótt sempre achou que sua irmã dava atenção demais a esse tipo de crendice, mas isso nunca prejudicou-a, então nunca tentou fazê-la desacreditar realmente. E afinal de contas ela era a sua única irmã caçula, parte importante de sua família.
Tótt subiu na balsa com sua única mala, e quase de imediata sentiu o cheiro extremamente forte de peixe podre. A balsa não era sofisticada, tinha assentos nas laterais onde havia varias pessoas maltrapilhas empilhadas, já que eram poucos os assentos. No centro os carros ficavam, e os seus ocupantes não se davam ao trabalho de saírem, era possível ver o olhar de satisfação de alguns, ao olharem para os que não tinham esse conforto. Tótt desejou muito ter o seu carro neste instante. Como não o tinha teve que ficar parado entre os carros quentes e as pessoas maltrapilhas. A travessia durava cerca de 01:30minutos, o que para Tótt pareceu uma eternidade sob o sol escaldante de janeiro. Poderia ser pior, ele não enjoava sobre a água, e a passagem era extremamente barata.
Quando atracaram no país vizinho, embora Tótt nunca tivesse vindo ao Ancora dos Pardais, ele teve a lembrança de infância quando os seus pais trouxeram , junto com os irmãos para visitar um parente que ele nem se lembra quem era, porem a cidade era exatamente igual, mas ele sabia que não era essa.
Mais uma vez desejou ter o seu carro, pois não sabia como iria fazer para chegar a delegacia, pois alí no atracadouro, só havia um bar feito de lona preta, com uma placa de madeira escrito a carvão: Compre as suas mercadorias falsificadas aqui!
Ele tinha certeza que este não era o nome do baraco. Mas não lhe restava alternativa a não ser pedir informação ali, pois achava mais confiável do que as pessoas maltrapilhas. O atendente assim por dizer era um homem moreno, como a maioria das pessoas do país, sem camisa, com shorts vermelho rasgado, descalço cerca de 20 anos, com um cigarro marrom entre os lábios, ele perguntou:
-O que você quer comprar hoje?
-A não obrigado, eu queria saber onde fica a delegacia?
-Delegacia!! – o homem ficou sem reação, como se não tivesse entendido a pergunta.
-Sabe onde ficam os caras bons e os caras maus. Presos e policias.
-Porque alguém vai querer saber isso? Bem....... acho que fica...... segue até o final dessa rua, dobre a esquerda, isso vai dar na cidade, acho que fica no centro,..... na rua principal. È por lá .- fazendo cara de inconformado e descrente.
- Obrigado então. Sabe como posso ir até lá?
-Sei.
-Como?
-Com suas pernas.- deu uma longa gargalhada
-Isso eu sei, onde eu consigo um táxi?-já sentindo que iria ter uma dor de cabeça devido ao longo tempo sob o sol.
- No centro. È só seguir até o final desta rua, então- sendo interrompido bruscamente pelo Tótt.
-Vire a esquerda e siga então até a rua principal, eu sei que nós vamos nos reencontrar.-Tótt falou já sem paciência, e partiu a pé estrada a baixo.
-Eu já tenho namorada.-gritou o rapaz.
   
A delegacia

Após andar cerca de uma hora em estradas de terra empoeiradas, debaixo do sol do meio dia, chegou ao centro da cidade, que não era exatamente uma grande cidade, na avenida que cortava a cidade havia restos do que outrora foi uma pavimentação asfáltica,  mas agora era cascalho e buracos. Havia pequenas lojas de alvenaria e outras de madeira, e algumas de lona preta como no atracadouro, havia todo tipo de mercadorias para a venda desde bonecas Barbie até motos. Ao lado de uma lanchonete de frituras, havia uma grande casa de madeira de dois andares onde na entrada lia-se Shoppping do Duade, onde Tótt entrou. Já no primeiro estande se localizava um quiosque de bebidas e lanches gordurosos, Tótt ali sentou e uma atendente de uns 10 anos, com a mesma pele morena que todos ali aparentavam se dirigiu a ele:
-Boa tarde estrangeiro, o que vai ser?
-Uma água e uma aspirina.
Sem dizer mais nada a garota se dirigiu para trás de balcão, onde estava uma senhora de idade avançada de poucos cabelos grisalhos e um vestido encardido que parecia duma época antiga quando ela ainda era jovem e magra. Após beber ele pagou a conta e descobriu que a delegacia ficava três quarteirões abaixo da onde estava.
Exausto Tótt adentrou a delegacia, que ficava num prédio, que ele achava que merecia uma placa de demolição, no saguão encontrou um guarda obeso sentado atrás do balcão que lhe balbuciou algo que não compreendeu.
-Eu sou Diogo Tótt o colaborador do Brasil, gostaria de falar com o seu chefe, o delegado.
Desta vez a única palavra que ele entendeu foi espere, no meio de uma sentença longa, com muita dificuldade o guarda andou até a porta no final do saguão e desapareceu da sua vista. Após 15 minutos o guarda gordo voltou acompanhado de um homem calvo, cerca de 45 anos, e com a mesma cor característica dos nativos, com um ar de arrogância e uniforme desalinhado, onde Tótt viu muitas migalhas de salgadinhos fritos iguais os que havia na lanchonete que passara.
-Enfim você chegou. Eu sou o delegado Floriano Peixoto, qualquer problema ou duvida você deve se reportar a mim, você não tem autoridade aqui, eu permito que você auxilie nos casos de investigações e no demais de suas aulas e não me incomode. Eu estou sob ordens por isso não posso lhe mandar de volta, mas não pense que você irá mandar em alguém aqui. A nossa policia não irá mudar por causa de um bos... colaborador, Verni, mostre a ele a nosso sede.
-Eu também estou sob ordens e preciso desse dinheiro para sobreviver assim como você ao que me paresse, se você me ajudar eu irei ajudar você, e ninguém fica comprometido, pois como deve saber, eu enviarei um relatório para o meu superior no Brasil  e outro para o seu superior,e a minha opinião será levada em consideração. E eu sei qual é o meu trabalho aqui, Delegado.- a sua cabeça já estava latejando de dor.
-Então estamos entendidos, cuide do seu trabalho que eu cuido do meu. –E com o mesmo ar de arrogância que entrou na sala agora saia só que pela porta da rua.
Verni o conduzio até as salas de trabalho, repentinamente Verni começou a explicar como as coisas funcionam, o que esperava que fosse como no departamento de policiais do Brasil já que ele mal ouvia Verni, após a explicação ele passou para as apresentações, que para alegria de Tótt, ele se dispensou dizendo que tinha mais o que fazer, mas chamou a atenção do pessoal de trabalho:
-Pessoal, esse é o tal colaborador.- e partiu para o seu posto.
Tótt ficou parado na sala imensa cheia de pequenas mesas entulhadas de papeis onde havia uma maquina de escrever ou computador por mesa, um telefone e cada qual com um policial. Cerca de 20 policiais, mas desses apenas alguns se deram ao trabalho de olhar para ele, não soube se era por que não tinham ouvido o Verni ou nunca davam atenção ao que ele dizia. Uma policial por volta dos 30 anos, cabelos loiros nos quais era possível ver uma pintura loira desbotada, se dirigiu até ele falando:
-Sou Augusta Jareto, alguns daqui já não gostam de você, temem perder o emprego, outros dizem que um estrangeiro só irá piorar as coisas, eu estou junto com aqueles que não tiram conclusões precipitadas e iremos esperar para ver o que irá acontecer.
-Eu já descobri que o delegado não gosta de mim. Na realidade isso não me interessa agora, eu só quero um banho quente e uma comida nada gordurosa.
- Bem,ouvi falar que você tem um quarto na hospedaria La Riocha, fica na rua Fidalgo,que o prefeito irá pagar.
- Então irei para lá, amanhã eu volto, e descubro  quem mais não me odeia, obrigado, Jareto. – Então se virou e partiu em direção a hospedaria.




A hospedaria

   
A hospedaria era como tudo mais naquela cidade simples, um prédio de três andares, com uma pintura rosa já desgastada pelo tempo. Tótt foi até o balcão, onde se apresentou a um velho grisalho que falou:
-O policial, sim tenho um quarto reservado para você, aqui estão as chaves, é a segunda porta depois das escadas do primeiro andar, eu o ajudaria com as malas, mas as minhas costas não me permitem mais, e o Joaquim não está aqui no momento, então me desculpe. Você tem direito a café da manhã e roupa limpa. No final do corredor lá em cima fica o banheiro. Tenha uma boa estadia.
-Obrigado. Onde eu posso conseguir o jantar?
-No shopping alí do lado.
Ouvindo isso se virou e subiu as escadas se arrependendo de não ter trazido as suas costumeiras refeições instantâneas. Após o banho mais desagradável de toda a sua vida, onde as duas únicas opção de temperatura da água eram de escaldante ou congelante, se deitou na cama sem ao menos se dar o trabalho de remover os lençóis e dormiu. Acordou na manhã seguinte desceu rezando para o café da manhã ser saboroso, mas com a fome que estava não faria realmente diferença. O café era servido no sistema buffet em uma grande mesa de mogno. Tótt se serviu com uma fatia de pão com gelei e café preto, sentou-se numa das pequenas mesas disponíveis, ao lado de um casal que discutia: -Você ganha pagou para cuidar disso, então cuide!-dizia a moça, cerca de 33 anos que vestia uma jaqueta de couro surrada com uma calça jeans e um par de botinas também de couro. Tótt a achou um tanto rústica em seus modos, mas certamente ela não era desse povo pois seus olhos azuis e sua pele clara a denunciavam.
-A senhora deve entender que a situação é difícil, pois os sem pátria estão cada vez mais ousados do que nunca. E as leis em relação a eles são claras.-disse o homem, cerca de 45 anos, que se destacava e muito no meio de todos as outros pessoas por suas vestes extremamente alinhadas, limpas e novas, se isso não bastasse era terno e gravata, coisa que esse povo só via pela televisão.
-Eu sei e lamento pela situação deles, mas eu tenho que defender as minhas terras e se não for por bem será por mal. –então ela saiu deixando a conta para ele pagar, e o mau humor.
Tótt sabia do que eles estavam falando, os sem pátria haviam se tornado um problema. Cerca de 10 anos atrás, ocorreu um blackout, onde todas as cidades de fronteira ficaram por uma semana sem eletricidade. Os governos não conseguiram suprir a demanda por energia elétrica nesta região, que aumentara muito nos últimos anos. A solução mais rápida e barata era construir uma hidroelétrica, no grande rio entre os paises. Brasil e Paraguai concordaram de imediato, no entanto o terceiro pais, Canel, não concordou por motivos óbvios, a inundação cobriria praticamente todos o seu território. Após meses de discussões e pressões para chegar a um acordo, o presidente do pequeno país comunista aceitou´´mudar-se`` mais toda a sua população para as terras do Paraguai, o Brasil pagaria as terras e o Paraguai as cederia, mais 50% do lucro da energia elétrica para o seu país por tempo indeterminado. 25% para o Brasil e 25% para o Paraguai, e ambos financiariam algumas construções urgentes para o povo de Canel em sua nova morada, como casas, escolas, hospitais, entre outros prédios de funcionamento público, e uma certa quantia em dinheiro para a população.  O prazo médio para a construção do novo pais e desocupação do antigo foi estipulado para 10 anos, a usina foi construída e a população foi tirada em 5 anos, o vale inundada, e o lago formou-se. Vários protestos foram realizados, durante todo esse período, junto com o racionamento de eletricidade. Mas a população era em sua maioria pobre e ninguém deu atenção a eles, já que muitos estavam recebendo moradia que antes não tinham.
Há 5 anos atrás quando as turbinas da usina foram ligadas, os verdadeiros problemas começaram. O país Canel, estava claramente delimitado, e imprimido em todos os novos mapas, reconhecido por todo o mundo, já dispunha de algumas das instalações prometidas pelos governos dos dois paises. Com o passar do tempo foi caindo no esquecimento e o desinteresse tomou conta do novo país, há 2 anos atrás houve uma grande mudança, o comunismos perdeu e agora o capitalismo foi instaurado pelo novo governo. Desde então muitas pessoas perderam as suas terras, que foram compradas por paraguaios para construção de comércios, fabricas, e os mais variados fins. Essas pessoas se uniram, e começaram a fazerem manifestos alegando que a sua situação atual é culpa da usina, e requisitando um território maior para o seu país. A partir dai eles ficaram conhecidos como os sem pátria, e eventualmente expulsão os moradores de suas casas, quando não os matam, e ali permanecem até alguém tomar uma providência. Esses são os responsáveis, na maioria dos casos por assassinatos.          

O primeiro caso

Ao entrar na delegacia, logo Verni balbuciou algo do qual Tótt entendeu, o delegado e você, então foi a procura do delegado, o encontrou em sua sala tomando café e comendo pastel de carne.
-Você irá acompanhar a policial Jareto a campo, houve um assassinato próximo do atracadouro ao que parece, investigue.- disse o delegado, deixando cair de sua boca farelos de carne e massa a cada palavra.
- Tudo bem, mas mais tarde temos de conversar sobre os horários das minhas palestras.
- Acho melhor você primeiro acompanhar o trabalho dos policiais antes de falar o que eles não devem fazer.- Tomou um sonoro gole de café.
- Tudo bem, na semana que vem está bom para mim.- então deixou a sala, torcendo para ele se queimar com o café.
A policial Jareto estava a espera dele no estacionamento, que era relativamente pequeno, para a quantia de carros, na maioria antigos. Jareto entrou numa caminhonete preta, na qual a única identificação da policia era um adesivo, que estava descolando, na porta. Quando chegaram ao atracadouro, localizaram um grupo de moradores pobres ao redor do que parecia ser um corpo ao chão. Jareto pediu para se afastarem do corpo enquanto ela o analisava, Tótt iniciou um interrogatório, ouvindo varias pessoas. A maioria delas dizia que não sabia de nada, só que ele, como muitos outros vendiam produtos falsificados, e que alguns compradores não ficavam satisfeitos e acabavam vindo tirar satisfação. Então uma jovem, cerca de 16 anos chegou aos prantos, gritando, ´´não é possível, ele não`` e se jogou sobre o corpo, derrubando Jareto que estava abaixado ao lado do corpo. Tótt foi até lá para auxiliar, só então que reconheceu o corpo, que estava encharcado, pois os moradores o retiraram do lago, era o vendedor do baraco de lona preta que Tótt pediu informações ontem.
Ele removeu a moça em prantos de cima do cadáver, e perguntou o que ela achava que tinha acontecido, ´´Foi o fantasma`` respondeu ela tentando desesperadamente se jogar sobre o corpo.
-Do que ela está falando?- perguntou Tótt, segurando a moça.
- Crendice popular, largue essa moça e me ajude e carregar o corpo no carro.-Disse Jareto pegando as mãos do morto.
-Mas não podemos removê-lo, devemos chamar o IML.
-Talvez lá do outro lado, aqui nos levamos o corpo para ele, não se preocupe eu já o examinei não há nada de significativo aqui.
Após deixarem o corpo no IML, que mais parecia um banheiro de posto de gasolina á beira da estrada, ambos voltaram para a delegacia. Tótt pediu para Jareto que história de fantasma era aquela.
- Há muitas histórias que surgiram com o alagamento do terceiro país, entre elas, a região do lago onde antes era o Canel, é assombrada pelos fantasmas dos habitantes que optaram por não deixar o seu pais, e sim morrer com ele. É claro que todos os habitantes foram retirados do país, pelo menos todos que compareceram aos pontos de embarque para a evacuação.
Tótt ficou em silêncio, claro que ele não acreditava em fantasmas, mas é muito provável que algumas pessoas, as mais isoladas ou teimosas permaneceram no país e morreram com ele, mas nem por isso elas viraram fantasmas já que foi por escolha delas morrer com o país.
Na mesa de Jareto, havia um bilhete escrito ´´ não se esqueça do meu aniver`` , que provocou um grande sorriso em seus lábios. Então mais uma vez Verni balbuciou algo mais rápido do que o de costume, e Tótt não entendeu nada, Jareto por sua vez habituada a ele disse que já estava a caminho. Saiu da delegacia e Tótt a segui perguntando o que ele havia dito. Foi encontrado outro corpo, mas dessa vez nas terras de Ana Ferraz.
Quando chegaram na imensa casa da fazendeira perguntaram para os peões onde estava o corpo, estes pediram para os acompanhar de carro pois ficava no meio da plantação de milho.
 Após andarem cerca de meia hora pela plantação de milho, chegaram no lugar mais longe de tudo que Tótt já tivesse ido que se lembrava em toda a sua vida, simplesmente era no meio de nada além de milho, terra e céu. A proprietária de plantação se aproximou e Tótt a reconheceu, ela estava na hospedaria, pela manha. Mais 5 homens estavam alí e um imenso trator,com um implemento, todos pareciam assustados menos a Ferraz.
- O corpo esta alí - disse Ferraz apontando para baixo do implemento agrícola.- foi o Aristeu que percebeu algo e então o viu.
Jareto, como antes foi direto observar o corpo, enquanto Tótt fazia as perguntas de praxe, ninguém sabia de nada, e embora perecessem assustados não pareciam muito interessados em descobrir o assassino.
-Senhora Ferraz, pode conseguir alguns sacos pretos para nós? - pediu Jareto, cutucando o que parecia ser uma perna, já que o corpo estava todo cortado e envolto em terra, tornado muito parecido com um animal grande morto, ainda não era possível visualizar a cabeça.
-Você não pretende tirar isso dai sozinha, não é? –perguntou Tótt com uma expressão de repulsa.
-Não, mas com a sua ajuda conseguiremos.- dando um sorriso cínico, para Tótt.
-Isso não esta no meu acordo -Pensando em como iria se livrar disso,sem parecer maricas.
-Se precisar de ajuda é só pedir, pois os meus homens tem muito o que fazer nestas terras -avisou Ferraz.
-Claro acho que vou precisar de uma mãozinha sua, pois o meu parceiro vai passar mal.
-Que absurdo claro que não, eu tiro isso dai.
Ao se aproximar do corpo sentiu o cheiro de pútedro e percebeu os vermes que cobriam o corpo todo, quando o cutucou com um pedaço de pau, o cheiro aumentou absurdamente o que de imediato resultou  na reação de vomito e em seguido dor de cabeça, e vergonha.
Enquanto Tótt esperava no carro, e conversava com os empregados, as duas mulheres removiam o que restava do corpo, já em estado avançado de decomposição.

A folga

O corpo foi devidamente encaminhado e ambos retornaram a delegacia, onde como de costume Verni estava sentado em seu posto, e para quem o via era difícil dizer se estava acordado ou dormindo. Quando a porta bateu, ele se moveu, olhou para Tótt e dize algo que a Jareto teve de repetir para Tòtt entender. ´´No final de cada mês você tem direito de uma passagem de volta ao seu país, então hoje a noite pode embarcar na balsa.`` Como se isso fosse uma grande coisa, pensou Tótt, mas já que não tinha nada a mais para fazer e foi.
Agora no atracadouro, só havia as lonas pretas, rasgadas e espalhadas pelo chão e dentro do lago, onde antes estava o jovem assassinado. Na balsa encontrou uma velha vestida de trapos, e que cheirava mal, que para azar de Tótt, sentou ao seu lado e começou a conversar:
- Sabe, eu não gosto de viajar a noite. Quase sempre acontece algo estranho, a ultima vez eu vi um cara se jogar dentro da água, acho que ele se afogou, porque ele caio, como uma pedra, afundou e não subio mais. Eu sei porque tudo isso acontece.
Tótt só ouvia, rezando para não ficar assim quando velho, falar coisas sem sentido. E a velha continuava a falar parecia que ela falava não para ele mas como uma musica que toca, havendo ou não pessoas a ouvirem.
-Ele viu o fantasma. O fantasma morava em Canel, era líder de uma seita, onde acreditavam que quando o fim chegasse todos os associados deveriam estar unidos em uma corrente, literalmente, então quando morressem sem medo da morte todos iriam para a morada eterna. Acontece que muitos dos associados deixaram a terra nas evacuações, coisa que não poderiam, pois Canel era a sua morada então deveriam morrer com ela seja como  fosse. Agora ele busca os fugitivo, e os envia para um lugar onde ninguém iria querer ir. Eu sei o homem que pulou outro dia era um membro de seita. Eu sei que voce é o policia e pode resolver esse caso de uma só forma, expulsando o fantasma, que vaga pelo lago.
-A senhora sabe se esse fantasma pode deixar o lago?
- Ele não pode deixar o lago, mas tem os seus súditos que podem.
-Quem?
-Zumbis.
Tótt então percebeu que absurdo ele estava fazendo ouvindo uma velha louca. Então a balsa atracou e Tótt saio o mais rápido possível para encontrar a sua irmã. Apos o final de semana agradável na medida do possível, pois ele não achava o seu cunhado uma pessoa razoável,voltou para o seu emprego.

Os mortos

Tótt mal tinha entrado na delegacia, e o delegado Peixoto já estava a gritar; ´´Alfonso você está a mais de um ano neste caso e agora vem me dizer que a quadrilha quebrou!! Isso é um absurdo!!!agora você ira prender esse filhos da puta, e não me interessa o que custe.`` Quando viu Tótt, teve uma reação de satisfação,o que o assustou, pois ambos se odiavam, então ele sábia podia esperar o pior.
-Caro senhor Tótt, acho que vai gostar de saber que eu tenho mais um corpo para você, e espero que você reaja melhor do que a ultima vez. – fazendo uma expressão de satisfação imensa, em seguida pos o dedo indicador em sua boca aberta.
-Bem onde está a policial Jareto?
-Para melhorar a sua interação com todos os policiais, agora você ira trabalhar com o policial Seixas, bom trabalho.
-Mas de quem é o caso?
-Caso,que caso?
-Os assassinatos!!
-Os corpos estão no IML, agora é só aguardar os resultados.
-Mas e as investigações?
-Vocês já fizeram as perguntas, agora é só esperar os resultados, porque nada indica que a uma relação! Ou você tem alguma indicação??- disse com um olhar acusador.
Tótt se virou e foi para a mesa do Seixas, que logo foi avisando que era ele que manda.
Quando a dupla chegou onde populares haviam visto o corpo, ele se assustou pois achava que num local tão fechado de mato populares não andavam. O corpo estava estirado no chão, era uma mulher de 30 anos negra, estava intacta, sem cortes parecia até viva. O procedimento do Seixas era totalmente diferente em relação a Jareto, a única coisa que fez foi procurar em seus bolsos por algo que não existia. Já que não havia ninguém ali Tótt só o observou. ´´Bom já acabamos podemos ir``, disse Seixas. Então Tótt começou a levantar a mulher, e Seixas gritou:
-O que você esta fazendo?? Seu tarado. Deixe isso ai.
-Mas a Jareto...-sendo interrompido drasticamente por Seixas.
-Cada policial tem o seu procedimento, Jareto é uma obcecada pelo trabalho doentio, eu não carrego os mortos no meu carro. Em um ou dois dias, um funcionário do IML chegará e irá buscar ele.
-Com todo respeito, até lá nesse calor ele irá apodrecer.
-E dai já está morto mesmo. Vamos.-Então ambos foram até uma lanchonete onde ficaram cerca de uma hora, e após isso ficaram sentados na delegacia a assistir televisão.
Todos aparentemente morreram afogados ou com uma pancada na cabeça, foi o laudo do IML.Tótt já estava cansado de ver corpos mortos sem nenhuma indicação do que estava acontecendo. Alguns eram sem pátria outros paraguaios. Mas isso não levava a lugar nenhum.

A descoberta

Foi numa certa noite, em que Tótt não consegui dormir que saio para dar um passeio que encontrou a namorada do primeiro assassinado, que trabalhava no baraco de lona preta, ela estava conversado com Verni, que parecia muito diferente do que na delegacia, até mais magro, e falava claramente sobre quando seria o próximo encontro com a garota. Tótt tentou não ser visto o que era impossível, pois ele estava passando na rua em frente uma casa que supôs ser do Verni, pois havia muito lixo de toda a espécie em sua grama que aparentava nunca ser aparada. Verni o cumprimentou com o seu costumeiro balbucio, e Tótt a retribuiu, continuou o sua caminhada, até retornar a hospedaria. No balcão da hospedaria encontrou um bilhete com o seu nome pedindo para ir até o café frio no copo, uma espécie de bar local. Então como ele não tinha mais nada para fazer foi, e lá encontrou a fazendeira Ferraz que explicou o porque.
-Vocês não descobriram nada, porque o IML foi comprado. Tenho um amigo que trabalha lá ele disse que viu um policial pagando para o legista calar a boca.
-Quem era o policial?
-Ele não sabe, mas se o vir irá reconhecer.
-Por que algum policial ira querer essas pessoas pobres mortas?
-Não sei, mas temos que descobrir isso. Amanha eu ire falar novamente com o meu amigo ele disse ter novidades para me contar. Se isso não para irei perder todos os meus empregados.Amanhã nos falamos eu ainda tenho trabalho lá nas minhas terras.- Falando isso ela deixou Tótt sozinho a beber Vodka.
Quando Tótt voltou a hospedaria já era madrugada, foi para o seu quarto, onde ouviu uma cantoria vinda da rua a qual não deu muito interesse pois era tarde,provavelmente um bêbado.
No dia seguinte foi acordado aos gritos de uma mulher, quando chegou a porta, viu na rua a jovem de 16 anos que ontem estava falando com Verni,morta numa poça de sangue e uma faca no coração. Tótt comunicou a delegacia, e esperou o carro chegar, era Jareto, que chegou recolheu o corpo e levou ao IML. Tótt como de costume esperou na recepção, a volta de Jareto, pois ela sempre conversava com o legista, foi ai que um homem magro com aspecto cadavérico, que Tótt já o vira outras vezes limpando o chão, se aproximou dele e disse:
-Eu sou o amigo de Ferraz, Méqui, e conto com a sua proteção para o que eu irei contar.
-Tudo bem você terá a minha proteção, pode falar.
-Essa policial que entrou, pagou para o legista dar laudo falso. Eu os escutei conversando sobre os corpos todos foram assassinados. Acho que o legista não sabe por quem, e também não esta interessado, por que muito coisa está em jogo.
-O que mais você sabe?-nesse momento Jareto volta, e diz:
-Eu tenho os últimos laudos na minha casa, o Senhor Serrico,quer comparar com os novos, então vamos lá buscá-los Tótt.
-Ok - deprimindo Tótt concordou, e quando estava no carro percebeu como foi tolo poderia ter ficado  e conversado com o faxineiro.
A casa de Jareto era simplesmente maravilhosa, vermelha, um quintal impecável, dois andares, moveis novos, e muitos equipamentos eletrônicos de ultima geração. Jareto pediu que Tótt a esperasse na sala, pois os papeis estavam no escritório lá em cima. Tótt estava sentado no sofá mais confortável de toda a sua vida, pensando como ela tinha tanto dinheiro, foi ai que ouviu algo e se virou para olhar, viu uma estatua de algo vindo em sua direção e apagou. Acordou afundando em água morna e turva, tentou nadar para cima, mas os seus braços e pernas estavam amarrados e em seus pés havia pesos presos, o oxigeno acabou e a água entrou em suas narinas fazendo ele sentir uma ardência seguida de dor insuportável, a única coisa que consegui pensar era na dor insuportável, então desmaiou, não vendo toda a sua vida passar diante de seus olhos.
Todos na delegacia notaram falta do Tótt, alguns falaram que ele abandonou o caso e fugiu para o Brasil, outros diziam que fora pego pelos sem pátria que deram fim dele, os mais supersticiosos falavam pelos cantos que foi o fantasma que o pegou. A verdade somente duas pessoas conheciam. O cara magro do IML, queria contar a todos, porem tinha muito medo, um medo real, e outro sobrenatural. Sabia a muito que Jareto era líder da seita dos sobreviventes sem pátria, daqueles que fugiram, da morte certa em ficar em sua terra e morrer afogados, acreditando que poderiam ainda irem para o seu paraíso se morressem de forma normal. Mas alguns dos seguidores se arrependeram de saírem de Canel crendo agora que quando morreriam iriam direto para o inferno. Os que criassem problemas eram eliminados, a maioria dos assassinatos, feitos dentro das normas da seita, uma pancada na cabeça e afogamento era perdoado, se fosse para manter a integridade do grupo. Jareto ganhava muito dinheiro de doações de fieis, e precisava manter a ordem e em segredo, pois se fossem descobertos perderia muito dinheiro, e perderia o padrão de vida alta, já que com as leis do pais seria fácil não ir para cadeia. A garota e 16 anos descobriu que o seu namorado fora assassinado pois queria abandonar a seita, então ela também quis deixar a seita, no entanto tinha medo de retaliação e queria convencer Verni a deixar a seita também, com isso teria alguma proteção já que ele era policial e conseguiria algum respeito, abandonando a seita encorajaria outros.
 O sem pátria encontrado nas terras de Ferraz, era amigo do namorado do garota de 16 anos,  e queria vingança pela morte de sua filha de 10 anos, que ele acreditava ser o fantasma do lago que a matara pois ela sempre questionava a seita. Tentou um ataque contra Jareto, que comandava o fantasma na sua visão, então ela o matou.
O homem magro do IML, se calou para sempre, embora não sendo membro da seita acreditava que se ferisse algum membro da seita também iria acabar morto. Não contou nada nem a Ferraz. Com o desaparecimento de Tótt as mortes pararam. O governo Brasileiro mandou outros homens para buscá-lo mas ninguém o encontrou, e após alguns meses as buscas foram enceradas, dando Tótt como desaparecido. O Brasil cancelou o contrato de cooperação com o Paraguai e reforçou o policiamento na região de fronteira. Jareto continuou sendo a líder da seita mantendo a lenda do fantasma, e espalhando, através de seus seguidores pela cidade, que Tótt foi morto por ele e agora vaga ao seu lado buscando vingança. E a rotina da cidade voltou ao que era antes, policiais corruptos, vendedores de falsificações, pobreza, miséria, e crenças, que em sua maioria era criada pelos poderosos da cidade.
No
Enviado por No em 18/02/2007
Código do texto: T385273

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Marechal Cândido Rondon - Paraná - Brasil, 36 anos
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